"You Get So Alone At Times That It Just Makes Sense" (Você fica tão sozinho às vezes que começa a fazer sentido) de Charles Bukowski estava nas mãos de Zayn enquanto organizava a prateleira bem iluminada e recém limpa na sessão de Literatura. Alguns minutos são gastos para analisar a capa e perceber o quanto aquela frase ecoava. Às vezes, a força da poesia sobre ele havia aumentado devido seu distanciamento da sala de aula, ou da área de pesquisa na área de Línguas, ou de seus entes próximos, ou da escrita... ele não saberia dizer. Talvez um misto de tudo. Com um suspiro, ele devolve o livro na prateleira e continua a tirar o pó das coisas ao redor.
Ao mesmo tempo em que seus esforços eram voltados a manter sua mente em estado sereno, sem muitos questionamentos sobre sua existência, sobre seus propósitos e o rumo de sua vida, era quase inevitável borbulhar pensamentos em um ambiente cheio de palavras, frases e parágrafos escritos por escritores vivos ou mortos como necessidade vital de sobrevivência. Era nesse mesmo estágio em que ele se encontrava: a escrita como ferramenta contra uma implosão emocional. "Escrever ou Morrer!" era seu grito de luta. Ele ri de si mesmo.
Charles Bukoswski era visceral. Usava seus pensamentos acerca do sentido da vida, da morte, da sexualidade e maldade humana e traspunha em imagens, em sensações vivas - era perceptível sua visão crua de mundo. Zayn amava isso. Talvez era assim que ele desejasse ver o mundo, sem falsos véus, sem visões românticas. Uma clara e nítida consciência do que somos de fato e, por consequência, o que é a sociedade de fato. Mas logo a certeza de que tal concretude é impossível o preencheu. Pessoas passam a vida estudando isso, se dedicando profundamente com coração e alma e percebem que não há um fundo específico a se chegar.
Somos o que somos - e isso é de certa forma bom, mas também muito ruim.
Bethany trás Zayn ao plano 'normal' de lucidez ao coçar levemente a garganta e indicar com a cabeça o cliente que se irritava na seção ao lado por não encontrar algum produto. Ao respirar fundo sem nem perceber, o moreno vai até o cliente com cautela, aproximando-se lentamente para não causar um estresse ainda maior.
— Posso ajudá-lo, senhor?
Ao que seus olhos pairam no outro, suas sobrancelhas se erguem levemente, sugerindo uma surpresa contida.
- "Cindy Sherman: Untitled Films Stills", você tem?
Indiferença.
O porquê da indiferença tê-lo atingido tanto era uma boa pergunta, mas ele com certeza não tinha cabeça para pensar sobre isso agora, tão rapidamente.
- Tenho sim, Sr. Liam... Payne. - a pausa se dá ao tempo de leitura do crachá preso ao peito do uniforme do outro. O tom sarcástico foi aplicado explicitamente, porém o descaso imperava, ainda.
Ele o guia quase que contrariado, puxando-o por uma corda imaginária amarrada ao pescoço do outro. A cada tranco, um quase-enforcamento.
- Está na seção de Fotografia, Sr Payne.
Zayn se estica até uma das últimas prateleiras e pega um livro consideravelmente grosso e pesado. Seu movimento foi pensado a expor parte de sua pele e tornar-se possivelmente atrativo ao outro.
Indiferença.
Talvez não existisse nada que o tirasse mais do sério do que isso.
Liam pega o livro de sua mão, acena um "obrigado" sucinto com a cabeça e sai andando em ritmo inalterado, seu andar era o mesmo de sua chegada e de sua permanência.
O moreno tinha plena consciência de que já haviam se passado 4 meses depois do ocorrido no hospital, mas ninguém esquece um rosto que te fez passar tanta raiva tão rapidamente. Pelo menos, ele não era capaz de esquecer assim tão cedo.
Apoiado na bancada para leitura, Zayn o observa atentamente, até sua saída da loja. Sua expectativa era que ele quebrasse o personagem construído para o encontro indigesto e na rua mostrasse a verdadeira face de sua agonia, porém...
Nada.
Ele caminhou da mesma forma que entrou, da mesma forma como se comportou diante dele, da mesma forma como pagou e da mesma forma como saiu.
Liam havia se tornado uma máquina?
Ou morrera por dentro?
Talvez os dois.
Bethany chama a atenção de Zayn novamente ao apontar outro cliente em procura incessante de algo.
Isso não sairia da cabeça dele tão cedo.
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Fanfiction• Larry & Ziam fanfic • (Reescrita) "O romântico perde o brilho na vida real bruta. O afeto se da em parcelas dispersas e impermanentes. Somos essencialmente impermanentes." Sabendo da impermanência das coisas e pessoas em um mundo de relações líq...