Da mesma forma que me encararam em Ryce, agora me olhavam como se pudessem enxergar a minha alma. Jamais me senti tão exposta á alguém, como estava diante dos olhos de Elian. Ele estava ali, sentado em seu trono, com uma pose inalcançável, era nítido sua superioridade, como se estivesse apenas brincando com seu título, quando realmente quem detinha o poder era ele. Não o seu pai, que mesmo sendo o rei, não parecia tão intocável como seu filho, mas ambos se cobriam com o manto da escuridão, a única diferença era a perversidade que brilhava profundamente nos olhos de Richard e que o tornava excessivamente cruel. Mas isso era apenas um fato que apenas representava a minha opinião, eu não convivia o suficiente com a família para ter certeza desses feitos.
Havia uma longa distância entre mim e aonde eu deveria estar. — Onde eu não queria estar. — Metros o suficiente para eu não suportar o impacto de Elian sobre mim, e o nervosismo que essa caminhada simples me trazia. Metros o suficiente para que eu olhasse de relance para os lados, evitando ser queimada por seus olhos contemplativos. Deixei que meus pés me guiassem, como uma dança lenta... Pois não confiava na minha própria vontade de seguir em frente. Vi olhares arrebatadores das famílias reais, seus rostos descontentes e duvidosos, suas expressões desconfiadas. Em apenas um curto espaço de tempo observei suas armaduras se quebrando, e um gesto de descrença retorcer em seus lábios. Faces assustadas e apreensivas. E por um instante eu entendi o que estava se passando, todos ali esperavam por uma garota, qualquer uma que tivesse um misero laço de sangue real, mas eu não tinha nada. Em uma hierarquia da nobreza, eu nem chegaria a alcançar uma posição em qualquer lista que fosse. Eles não esperavam alguém como eu.
Eu vislumbrei um misto de admiração em vários dos olhares que me acompanhavam, entretanto quando eu estava quase chegando próximo o suficiente do trono para ver a tensão nos nós dos dedos de Elian que estavam brancos, e apertavam com força seu apoio. Agora o centro das atenções era o príncipe sombrio, herdeiro da coroa mais pesada e amaldiçoada do nosso continente. Não sei o que elas procuravam encontrar, mas me esqueci rapidamente qual era meu papel nessa situação, porque mais uma vez meus olhos se prenderam aos de Elian. O mundo desapareceu, e meus passos pareciam se tornar cada vez mais incertos à medida que eu caminhava em sua direção.
Seus lábios se partiram minimamente como se estivesse buscando por ar em uma respiração profunda, ou como se estivesse prestes a sorrir. Ele não sorriu. Havia surpresa e admiração na maneira que ele me olhava. Isso me pegou completamente desprevenida, mesmo que por um segundo, eu vi a fascinação em seu olhar. Como se ele estivesse em uma batalha interna em como deveria agir. Elian pareceu relaxar minimamente.
Seu pequeno ato me fez pensar na quantidade absurda de guardas que andavam ao meu encalço no caminho para cá, e no possível real motivo para isso. Eles não estavam ali para afastar qualquer nobre que facilmente poderia se aproximar de mim, mas eles estavam ali para que eu não encontrasse um modo de fugir.
E porque Elian se importava tanto com a minha presença? Porque eu estava aqui? E porque meu coração batia acelerado com o jeito que ele me olhava? Perguntas, perguntas, perguntas. Nenhuma resposta.
Como fui orientada a fazer, me curvei diante do seu trono, para mostrar meu respeito, minha lealdade e minha submissão ao meu futuro rei.
— Maira... — Meu nome saiu como um sussurro audível apenas para mim dos seus lábios.
Olhei para cima, e notei quando ele estendeu sua mão em minha direção para que eu levantasse. Elian já estava de pé, ainda distante, fez sinal para que eu me aproximasse mais, para que eu subisse mais um degrau assim ficando mais próxima de sua presença. Elian abriu uma caixinha preta, que continha meu anel de noivado. O mesmo que ele me entregou quando almoçamos juntos pela primeira vez. Um dia antes haviam me solicitado essa joia novamente, que deveria ter sido entregue a mim somente hoje. Pelo visto o herdeiro da coroa havia quebrado mais um protocolo em meu nome. Impedi que meus lábios se curvassem em um sorriso, pois a quebrar as regras era uma característica que eu amava fazer. Olhei para cima, em um patamar mais alto onde Richard estava sentado ao lado de Celize, o rei me encarava estupefato a, com sombras vorazes nos olhos, mas eu não tive medo. Não naquele momento, então retribui seu olhar da maneira mais mordaz e traiçoeira. Eu poderia me arrepender por isso amanhã, mas de qualquer modo minha cabeça já estava no bico dos corvos e não havia para onde correr e me esconder.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Reino Obscuro
FantasyExiste uma velha lenda de um Rei que doou seu próprio filho para a escuridão para salvar a vida de sua bela amada. Há um reino que vive obscuro, sem saber o que é amor, apenas o poder se torna um sentimento constante em seus governantes, o ódio perd...
