Capítulo 9

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Posso dizer que o restante do evento foi muito tenso para mim. Eu nem sabia se estava feliz com o que havia acontecido. Na verdade, as palavras de Raquel ainda martelavam na minha cabeça, me lembrando do quanto eu havia sido usada e de como precisava me proteger.

Na hora da foto, me aproximei dela e Anahí me abraçou com força. Eu retribuí, ainda tremendo, mas desta vez consegui sorrir. Então, de repente, todo mundo começou a gritar: "Beijo! Beijo!"

Meu corpo gelou.

— Meninas! Tá bom, vai! — disse Anahí, com aquele tom firme e sedutor ao mesmo tempo. — Foto com beijo, mas vai ser só o dela, hein?

Ela me puxou para mais perto e demos um selinho rápido para a foto. Depois, me envolveu em outro abraço, apertado, que me fez arrepiar dos pés à cabeça.

— Eu ainda não sei o número do quarto, mas te mando por mensagem... — sussurrou em meu ouvido.

O choque daquelas palavras me paralisou. Meu coração batia descompassado e minhas mãos tremiam. Eu nem sabia como reagir.

— Eu... eu não vou... — disse, com a voz quase sumindo, sem acreditar que estava realmente dizendo aquilo.

Anahí me encarou, surpresa e arqueando uma sobrancelha.

— Não??? Como assim? Por que não?

— Eu... er... eu... vou sair com meu namorado!

O sorriso sedutor dela vacilou por um segundo, como se não esperasse essa resposta.

— Não vai mesmo?

— Não... — respondi com a voz fraca.

Ela me olhou intensamente, como avaliando se eu estava falando sério.

— Então vou chamar outra pessoa!

Meu peito apertou, e eu senti um frio percorrer minha espinha. Não conseguia acreditar que ela realmente estava me desafiando assim, além de me descartar tão facilmente.

— É confirmado que você não vai? — insistiu, ainda com aquele olhar penetrante.

Apenas afirmei com a cabeça, incapaz de falar qualquer coisa.

— Ok, então! — disse ela, finalmente aceitando.

O tempo parecia ter parado, mas logo o segurança se aproximou e me puxou para fora. Enquanto caminhava, não conseguia tirar os olhos dela. Meu coração ainda batia acelerado, uma mistura de alívio, frustração e desejo que me deixava tonta.

Pouco depois, Anahí se aproximou de outra garota. Era morena, cabelos longos e olhos escuros. Usava um decote generoso e uma saia justa que realçava cada curva do seu corpo perfeito. Ela recebeu Anahí com um abraço caloroso, e a cantora depositou um beijo longo em seu rosto.

Anahí sussurrou algo no ouvido dela, e a garota sorriu maliciosa, piscando em sinal de compreensão. Tudo indicava que ela havia entendido exatamente a intenção de Anahí... e concordado. Meu estômago se revirou. Um ódio quente me consumiu, misturado à frustração e à sensação de impotência.

Saí de lá arrasada. Não sabia se estava mais irritada comigo mesma, com Anahí, com a garota... ou até com a Raquel, que me incentivara a dizer "não" à Anahí.

Várias pessoas se aproximavam, perguntando sobre o beijo, comentando, tentando arrancar alguma reação minha. Eu tentava me forçar a dizer "perfeito", apenas para não parecer ingrata ou desinteressada, mas tudo o que eu queria era me afastar, ficar sozinha e chorar.

Chorar pela oportunidade que não aproveitei... e porque, na primeira chance, ela já havia escolhido outra.

Não queria mais ir ao show. Decidida, planejei ir para casa e me afogar em lágrimas silenciosas. Mas, ao sair do hotel, lá estava a Raquel, me esperando... junto de uma multidão ansiosa, todos com a mesma pergunta nos olhos.

— Vocês já viram? — perguntei, assustada.

— Postaram. — Raquel disse, desanimada. — Já saiu até notícia! Como você permitiu, amiga?

— Eu... tentei dizer não.

— Tentou nada! — respondeu ela, cruzando os braços.

— Podemos conversar?

— Claro.

Ficamos afastadas do pessoal, e eu contei TUDO para a Raquel. Ela, que já estava com raiva da Anahí, ficou ainda mais furiosa.

— Bom, eu já disse a minha opinião... — começou ela, com os olhos fixos em mim. — A não ser que você não se importe em ser usada!

Aquelas palavras doíam, mas eram reais. Eu queria passar mais tempo com a Anahí, essa era a verdade... mas o modo como ela me tratava, como se eu fosse apenas um brinquedo, me matava por dentro. Eu queria que ela estivesse comigo porque realmente gostava de mim, e foi isso que tentei explicar para Raquel.

— Mas, amiga! — Raquel colocou a mão firme no meu ombro, como quem queria me despertar para a realidade. — Você foi uma boneca na mão da Anahí... você sabe disso.

Eu abaixei o olhar, sem coragem de negar. No fundo, era óbvio que eu sabia.

— Você deixa ela fazer tudo e não reage. — ela continuou, a voz carregada de indignação. — Como se fosse uma boneca inflável! Só ela tem o controle! Dulce, ela nem ao menos te conhece de verdade! Como você acha que ela poderia gostar de você assim???

— Ela não me dá oportunidade! — murmurei, quase como um pedido de desculpa.

— Você não se deu oportunidade! — rebateu Raquel, sem hesitar. — É você quem permite que ela aja desse jeito! Olha só o que acabou de acontecer: ela te beijou na frente de todo mundo e você não fez nada! Nem impediu, nem retribuiu... você simplesmente... foi usada!

Mil coisas passavam na minha cabeça, numa confusão sem fim. O coração parecia brigar com a razão.

— Dulce! — Raquel sacudiu meu braço, firme. — Reaja! Seja você!

— Você tem razão... — respirei fundo, tentando me convencer. — Eu vou falar com ela no meet!

— Vai falar o quê? Que vai no quarto dela?

— Vou! Afinal, pra conversar direito só lá mesmo... o meet é tão rápido!

Raquel arqueou a sobrancelha e retrucou:

— Então manda mensagem! — disse, mostrando que eu tinha outra alternativa.

— É... também... — respondi, sem muita convicção, já imaginando a dificuldade que seria apertar aquele "enviar".

Óbvio que acabei indo ao meet sem mandar a mensagem. Eu queria ver como ela agiria comigo  e percebi que foi a pior decisão que poderia ter tomado.

A foto era em dupla. A menina que estava comigo não perdeu tempo: correu para abraçar a Anahí com toda a força. Ela retribuiu com um abraço rápido, mas, quando me viu, puxou a menina de volta e a envolveu em outro abraço, bem mais demorado.

Aproximei-me, tentando manter o sorriso.

— Oi, Any, eu...

Você já falou com alguém e teve a sensação de falar com a parede? Foi exatamente o que senti. Ela me ignorou como se eu fosse invisível. Segurava a garota, como se só ela existisse ali, enquanto ambas já se posicionavam para a foto.

— Any! Sou eu... a Dulce! — insisti, tocando no braço dela.

Alguém da equipe gritou para eu olhar para a câmera. Obedeci, abraçando sua cintura e forçando um sorriso, mas ela nem se moveu. Continuava indiferente.

E, antes que eu pudesse reagir, deu mais um abraço apertado na garota. O coração se partiu em mil pedaços. Sem pensar, puxei seu rosto e roubei um beijo na sua bochecha. Ela não se moveu, não retribuiu, não reagiu.

Eu fiquei muito mal. Poxa!  O que eu fiz de tão cruel para merecer ser tratada daquele jeito? Por que tudo tinha que ser no tempo dela, do jeito dela... ou simplesmente não ser? Não existia a outra parte? A minha parte?

Eu não me entendia... e muito menos entendia ela. 

Não consegui ir ao show. Chorei cada gota de água que existia no meu corpo.

Estava tão arrasada que não tinha forças nem para odiá-la. Restava apenas um nó sufocante no peito: raiva por ver outra em meu lugar, ciúmes, inveja... mas, no fundo, só uma vontade absurda de estar com ela de novo.

Uma fã mais que especialHistórias para pegar e não largar. Descubra agora