Capítulo 25

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        Foi um daqueles momentos que apenas metáforas conseguem explicar

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Foi um daqueles momentos que apenas metáforas conseguem explicar. Parecia que a areia molhada se abria sob meus pés, cavando lentamente uma cratera pronta para me engolir. E ao mesmo tempo foi como um rápido soco no estômago, um merecido por ter demorado tanto a perceber. Eu estava cega, enxergando através da neblina que deixava tão feliz e orgulhosa por ele que me impedia de ver qualquer outra coisa.

— Ah. — minha voz saiu baixa, abafada pelas ondas ao redor. Me forcei a sorrir, tentando ignorar que minhas bochechas pesavam toneladas. — Está tudo bem.

Sei que lá no fundo realmente estava, era algo que eu já tinha aceitado durante o verão, mesmo que fosse difícil. Mas minha mente ainda estava entorpecida com os últimos dias, de quando falamos com a tia dele pensando nos detalhes da sua estadia aqui e de todos os planos bobos que criávamos. Lugares que eu ainda queria levá-lo para conhecer, dos fins de semana mais frios que viriam no outono, de juntar dinheiro para morarmos juntos. Agora pareciam tão distantes, tão irreais. Apenas planos.

Kyle parecia pensar o mesmo que eu, ou pelo menos sabia o que se passava na minha cabeça naquele instante, porque sua expressão não mudou com o meu "está tudo bem". Suas sobrancelhas continuavam juntas, o olhar triste como se eu pudesse desmoronar a qualquer momento.

Dei uma risada baixa, quase silenciosa e levei nossas mãos juntas até meus lábios, beijando sua pele salgada de maresia.

— É sério, está tudo bem. — mantive meu sorriso, mesmo que o nó na minha garganta apenas crescesse. — A gente já sabia que isso ia acabar acontecendo, não é?

Ele assentiu, pela primeira vez desviando o olhar do meu e focando nos nossos dedos entrelaçados.

— Desculpa. Por nos ter feito criar esperança.

— Não, Kyle, nem pense nisso. Só por você ter considerado ficar... já fez com que eu me sentisse a garota mais importante do mundo.

— E pra mim você é. — ele deu um passo para a frente, segurando meu rosto com as duas mãos. As borboletas no meu estômago entraram em colapso, e eu sorri feito boba ao sentir minhas bochechas esquentarem. Kyle conseguia causar esse efeito em mim mesmo depois de meses. Ele me beijou, e aquele buraco no chão que parecia me engolir se desfez tão rápido quanto surgiu. — Eu... ainda posso ficar. Posso tentar uma transferência e... a gente pode tentar.

Era uma proposta tentadora. Tão tentadora que naqueles segundos que meus olhos se perderam nos castanhos dele, imaginei um cenário em que ele ficava e não precisaríamos deixar todos aqueles planos como apenas parte das memórias.

Mas era injusto e arriscado demais até para nós dois.

Primeiro apenas neguei com a cabeça e me estiquei para beijá-lo de novo, dessa vez demorando um pouco mais para nos afastar.

— Sua vida toda está lá, amor. Você tem que voltar.

— Uma parte dela está aqui.

Pela sua voz eu sabia que ele já tinha aceitado isso, e Kyle finalmente sorriu de volta. Não importava que ele tivesse acabado de me contar que não ficaríamos mais juntos, Kyle sempre me faria sentir como se eu fosse a garota mais importante do mundo. E isso já era mais do que o suficiente.

    Da mesma forma que não tínhamos contado que Kyle ficaria, fizemos o mesmo agora

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    Da mesma forma que não tínhamos contado que Kyle ficaria, fizemos o mesmo agora. Acabou sendo mais fácil apenas agir como se nada tivesse mudado, como se o fim por um breve momento não tivesse se tornado uma ideia passada.

Quando o sol finalmente se pôs e aos poucos nos tornávamos as últimas pessoas na praia, Cassidy nos convidou para ir à casa dela, terminar o dia lá. Eu e meus amigos ponderamos, trocando mensagens silenciosas apenas com o olhar. Com uma cara de quem tinha comido algo estragado, Michael claramente dizia que não estava nem um pouco a fim de ver Isaac de novo. Concordei ao respirar fundo. Sarah apenas deu de ombros, algo que entendi como "qualquer coisa você dá outro soco nele". Também concordei, considerando a ideia por mais tempo do que deveria, e olhei para Kyle. Sua expressão era neutra, o que não me deixava muito confortável, mas ele também deu rapidamente de ombros e fez um rápido carinho na minha mão com o polegar.

— Você que decide.

Sendo sincera eu estava pronta para dar uma desculpa esfarrapada e ir para casa ficar o máximo de tempo possível sozinha com meu namorado, mas tão rápido como num truque de mágica Cassidy passou a me olhar com os olhos mais pidões que já vi na vida. Entendi aquela mensagem silenciosa como um "por favor, não aguento mais ficar sozinha com ele". Meu coração era bom demais para dizer não.

— Tudo bem, vamos. — ergui o indicador assim que a morena começou a dar pulinhos animados se segurando em Sarah. — Mas vou precisar de três milk-shakes de morango para sobreviver o resto da noite.

— Fechado!

Ela era rica, então não me preocupava em pedir três milkshakes de uma vez. Fomos todos em seu carro, com a promessa de que se minha bicicleta e a de Michael fossem roubadas ela nos daria uma nova. Não disse? Rica. Chegamos pouco tempo depois, assim que passamos na Cali's em busca dos meus milkshakes e lanches para todo o resto. Jenny e o suposto namoradinho já tinham ido embora, o que me deixou um pouco frustrada porque eu adoraria fazê-la passar vergonha na frente do garoto.

Nos reunimos no quintal, sentados ao redor da mesa de piquenique, com a desculpa de que o clima estava agradável e que poderíamos escutar música mais alta. Na verdade escutamos a sra. Greenie dizendo que não queria "um bando de adolescentes imundos de areia no sofá novo", e apenas aceitamos a condição. Realmente estávamos imundos de areia.

Fiquei feliz de ter aceitado o convite, apesar de achar que não. Isaac não nos juntou a nós, e só o vi aquela noite por um breve segundo quando ele apareceu na janela do quarto que dava para a área externa. A luz fraca e a cortina cobrindo metade do seu rosto não me deixou identificar sua expressão, e me convenci depois de que realmente não queria saber.

Já passava das dez quando Kyle me puxou para dançar. As meninas e Michael faziam o mesmo, as duas ao redor dele num momento claramente constrangedor, mas que nos arrancavam altas gargalhadas. Kyle me girava e a cada passo andava um pouco para trás, nos afastando dos nossos amigos até que minhas costas sentiram algo sólido e paramos de andar. Olhei rapidamente para trás, e dei risada ao ver que estávamos na cabana de madeira do quintal, fora da vista dos outros. Aquela cabana.

— O que acha de uma festinha particular de despedida? — meu queixo caiu e ele começou a rir, mas pressionou seu corpo no meu até estarmos colados e eu totalmente sem saída. Sair dali nem se passou pela minha cabeça. — Estou brincando. Mas ainda podemos fazer isso...

Seus dedos percorreram minha bochecha, ele acompanhava o próprio toque enquanto o descia pelo meu ombro, braço, até chegar na minha cintura. Trouxe seu rosto de volta para o meu, sentindo meu coração bater forte como louco quando finalmente juntei nossos lábios. Eu sabia que aquele não era nosso último beijo, ele ainda tinha quatro dias aqui, mas pareceu como o último, o sentimento foi como o último. Tinha calor, tinha excitação, mas também tinha cuidado, e uma saudade antecipada que ambos sentíamos. E quando nos separamos, ofegantes como da primeira vez que estivemos ali naquela cabana, também tinha tristeza. Achei que o nó na garganta quando estávamos na praia tinha sido difícil de segurar, mas esse foi bem mais, e uma hora apenas desisti. Kyle não falou nada, apenas afagou meu cabelo enquanto eu chorava devagar em seu peito.

Não importava o quanto já tivesse pensado e imaginado esse momento, eu não estava pronta para dar adeus.

90 Dias Com EleOnde histórias criam vida. Descubra agora