Capítulo 23

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   As respostas chegaram mais rápido do que eu esperava

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As respostas chegaram mais rápido do que eu esperava. Parece que eu ter finalmente pensado nelas fizeram com que uma força misteriosa do universo agilizasse todo o processo e as entregasse durante a semana na minha casa. Ou talvez fosse um jeito da vida de me chacoalhar pelos ombros e me avisar que o verão colorido estava chegando ao fim.

A primeira chegou na segunda, um não educado e tão carismático que tive que ler duas vezes para ter certeza que era uma resposta negativa. O segundo não já não foi tão legal, e nem me dei o trabalho de terminar a ler a carta e acabar com a minha quarta feira. Na sexta chegou a terceira e última resposta, depois do almoço e na mesma hora que eu e Kyle chegávamos em casa. Até cumprimentei o carteiro, que já me conhecia depois de uma vez que Jenny fez assinaturas escondida de quatro revistas diferentes, e o coitado tinha que vir quase toda semana aqui.

Não quis deixar tão claro que estava ansiosa e agradeci pela casa estar vazia quando entramos e nos jogamos no sofá. Papai estava trabalhando e minha mãe tinha saído com Jenny para comprar roupas novas para quando as aulas voltassem. Já tem uns três anos que ela não faz isso comigo...

— Está nervosa? — percebi que minha tentativa foi falha quando a mão de Kyle pousou no meu joelho, tranquilizando minha perna que tremia inquieta no chão.

Balancei a cabeça afirmando, e relaxei um pouco em seu peito quando ele me puxou para um abraço. Não tinha pensando em nada que não fosse curtir minhas férias e Kyle nesse verão e agora aquela apreensão me atingia com tudo.

— Eu sei que não tem problema se eu não começar a trabalhar agora, mas... ah, amor, eu queria tanto.

— Não fale como se já tivesse acabado as chances. — ele pegou o papel das minhas mãos, e voltei a sentar quase ereta. — Ainda tem mais uma.

Minhas mãos suavam quando desisti de tentar resistir a tentação e abri o envelope. As palavras voaram sobre o papel, se embaralhando enquanto eu corria os olhos para tentar achar aquela específica. Eu já sentia Kyle sorrir atrás de mim quando finalmente a encontrei. Estava ali, em negrito, ao lado do meu nome completo e com as felicitações em seguida. Aceita.

Aceita. Em um dos maiores e principais estúdios de cinema de Hollywood.

Acho que passei tempo demais encarando aquela minúscula palavra porque só voltei quando senti as mãos do meu namorado em meus ombros. Seu toque quente me trouxe de volta a realidade, e só então tive certeza que não estava delirando.

—Eu te disse. — aquele sorrisinho convencido me fez sorrir também.

Joguei os braços ao redor de seu pescoço, deixando toda minha animação sair por meio de gritinhos e risadas descontroladas. Kyle me apertava em seu abraço, as risadas também saíam leves dele. Eu sabia que cada gota daquela felicidade era verdadeira.

— Ah, Summer, estou tão orgulhoso de você. O que você vai fazer lá?

Nos separamos finalmente e eu comecei a andar pela sala, sem conseguir conter a ansiedade que queria sair de alguma forma de mim.

— Vou pegar café, entregar correspondência, arrumar camarins... tudo o que qualquer pessoa poderia desejar. — brinquei ao dar a terceira volta na mesinha de centro da sala, e sua risada ecoou pelo cômodo. — Mas eu vou fazer isso tudo num estúdio enorme, com atores famosos que eu cresci vendo nos filmes ao redor, com os diretores que são meus ídolos bem de pertinho, com toda a tecnologia que o mundo do cinema pode ter.

Eu sei que meus olhos brilhavam enquanto eu falava porque Kyle sorria ao me olhar, sorria como se eu estivesse contando que tinha acabado de achar uma lâmpada mágica com direito a pedidos infinitos. Meu peito estava em pura euforia com a notícia, mas ainda assim senti meu coração esquentar com aquele olhar. Com o sorriso que podia iluminar meus dias mais escuros. Sabia que enquanto tivesse aquele olhar, estaria tudo bem.

Pensamos em sair para comemorar, mas desistimos logo depois. Entre as ideias de ver um filme, beber, comer o que tivesse na geladeira, decidimos apenas... ficar ali. Aproveitando os últimos minutos com a casa vazia - na sala, como minha mãe fez questão de frisar diversas vezes-. Em algum momento deslizamos do sofá para o tapete no chão e deitamos um ao lado do outro, encarando o teto enquanto falávamos de um assunto qualquer. Aquela posição, a tranquilidade do momento, quase tudo naquela situação me fez lembrar do nosso quase primeiro encontro. E como se ele lesse minha mente, Kyle me olhava dos pés a cabeça, da melhor forma que aquele ângulo permitia, um sorriso querendo despertar em seu rosto.

— Já disse que verde fica ótimo em você? — sim, ele tinha dito naquele exato momento que rondava minha cabeça. E soube que ele apenas falou aquilo porque também tinha se lembrado.

Dessa vez não tinha um animal desconhecido para nos atrapalhar, então nos beijamos até que a bandana verde caísse do meu cabelo e meu brilho labial estivesse até nas bochechas dele. Decidi ignorar esse detalhe até que ele mesmo percebesse. Voltamos a encarar o teto, os dedos de Kyle fazendo leves cócegas no meu braço enquanto subiam e desciam. Sua voz estava um pouco mais séria quando o mesmo voltou a falar, mas com uma pitada de excitação que me fez sentar para olhá-lo melhor.

— Sei que meu irmão fofoqueiro já falou com você que eu estava conversando com a minha tia.

— Ah. — não sabia bem o que responder naquele momento, nem seria rápida o bastante para inventar uma mentira convincente. — Não culpe ele, eu que perguntei.

— Tudo bem, eu sei. Eu só queria que você soubesse por mim que... se eu quiser posso ficar com ela, aqui. Em Los Angeles.

— Está falando sério?

Não tinha motivo para ele não estar, mas foi a única coisa que consegui pensar e que conseguiu sair da minha boca. Kyle se sentou e meneou a cabeça, afirmando.

— Tipo, sério mesmo? Você pode ficar aqui mesmo?

— Eu ainda precisaria falar com a minha mãe lá no Texas pra saber se está tudo bem por ela, mas... sim. — pela segunda vez em poucas horas eu estava sem palavras, sem saber como reagir. Apenas encarei aquelas orbes castanhas enquanto ele pegava minha mão e entrelaçava nossos dedos, sua mão tão firme em comparação com a minha. Nem sabia porque estava tremendo. — Se você quiser também, é claro.

Eu seria uma tola, uma das grandes, se dissesse que não. Há tantos dias estava tendo que acordar e dormir com aquele apertozinho no peito, aquela sensação que eu tentava ao máximo esconder, mas que uma hora sempre voltava. A sensação de ter um cronômetro contando cada minuto, cada segundo nosso que nos restava, como se com o fim do verão, nosso fim chegasse também. Mas se ele pudesse ficar de verdade... nada daquilo precisaria terminar. Todas as coisas que fantasiei enquanto sonhava acordada poderiam acontecer de verdade, e eu não precisaria dizer o adeus que me assombrava todas as noites.

Então o beijei mais uma vez, deixando que aquele ato transparecesse tudo o que eu estava sentindo e não conseguia colocar em palavras. Kyle ficaria. Por mim. De todas as coisas que já desejei, que já quis tanto que até doía, aquela era uma das maiores. E naquele momento, naquele mero segundo onde nada mais importava, jurei que ficaria tudo bem.

90 Dias Com EleOnde histórias criam vida. Descubra agora