Desde as duas da manhã chove
E eu gosto de escrever sobre a chuva
As palavras molhadas são refrescantes
E camuflam bem as lágrimas
É muita água
É muita lágrima
É tanto frio que o edredom
[Grosso como ele é]
Não dá conta de acabar
E eu converso no escuro
Pensando no sol
Pensando em céu azul
E ainda é noite
E a chuva não tem a menor vontade
[A mínima que seja]
De acabar
A água desce do céu sem dó
Sem pena de quem dorme sozinho
Sem misericórdia com os abandonados
Sem se preocupar com a saudade de ninguém
Sem se importar com a tristeza do coração
Um puro fenômeno da natureza
[A dureza, a crueza]
Uma verdade que teimamos em negar
Enquanto o mundo pega fogo aqui dentro, em mim,
Lá fora continua a girar
