Quando eles se separaram, o sorriso tímido de Luca espelhava o de Alberto, mesmo que eles ainda estivessem de olhos fechados.
Eles aproveitaram o resto da chuva de pétalas enquanto ela durou, então o vento voltou a soprar calmamente e as pétalas caíram de volta ao chão, e eles caminharam até perto da beira e se sentaram para aproveitar o dia.
Eles conversaram e riram e brincaram enquanto as horas passavam, aquele momento sendo congelado no tempo mesmo que o tempo ainda estivesse correndo.
Alberto estava correndo de Luca, ambos gargalhando, em uma brincadeira que faziam sempre. E Luca saltou nas costas dele, derrubando-o no chão gramado, rolando juntos até que suas roupas e cabelos estivessem com pedaços de grama e folhas e pétalas também.
Eles ainda riam quando pararam de rolar, o corpo de Luca por cima do de Alberto, ambos se contemplando e sabendo que haviam vários mundos para explorarem juntos; o mundo humano, o mundo que havia dentro um do outro e o mundo que eles construiriam juntos.
Alberto afagou o pescoço de Luca, puxando-o de encontro ao seu rosto, roubando um beijo que os fez rir outra vez.
Mas então Luca se afastou e dúvida apareceu em suas feições. Ele mordeu o lábio inferior e encarou Alberto de repente com milhares de perguntas nos olhos temerosos.
— Alberto... — começou, baixinho, e o moreno franziu as sobrancelhas com preocupação.
— Sim?
— Você acha que... acha que nós estamos indo rápido demais?
Alberto franziu ainda mais as sobrancelhas, observando-o com confusão.
— Rápido demais?
— É. Com tudo... Isso.
— Como assim?
— Sabe, nós dois... Isso. Não é estranho para você? Até alguns dias atrás nós éramos apenas amigos, e agora... Você não acha estranho? Ou que as coisas mudaram muito rápido?
Alberto observou-o em silêncio alguns momentos, parecendo pensar profundamente sobre algo.
— É estranho para você?
Foi a vez de Luca ficar em silêncio.
— Não... Na verdade, eu quero isso há muito tempo...
Então parou, parecendo que haviam mais coisas a serem ditas, e Alberto sorriu minimamente.
— Mas...?
— Mas é que... E-Eu... Eu soube que os relacionamentos humanos funcionam de maneira diferente. Soube que eles achariam estranho uma situação igual a nossa e... Bem, eu não sei de muita coisa, Giulia não quis me contar nada, mas eu li bastante livros sobre o romance humano e...
— Luca, olhe para mim — Alberto interrompeu-o com suavidade, tocando a bochecha corada com delicadeza.
E Luca olhou.
— Nesses anos aqui em Portorosso, eu aprendi muitas coisas sobre os relacionamentos humanos. Foi assim que comecei a entender o que sentia por você. Mas... Eu também percebi que os humanos complicam demais as coisas. Eles colocaram uma porção de regras, nomes, modos de conduta, expectativas e ilusões sobre algo que deveria ser livre. Livre como...
— ... como o vento soprando nas folhas, livre como as nuvens passando no céu e como a correnteza que vai até o mar, e como a vida que nada por ele. Você sempre me diz isso — Luca completou, sorrindo, e Alberto sorriu também.
— Isso. Livre. É assim que o amor deve ser, Luca. Os humanos colocaram tantas coisas ao redor dele que ele ficou sufocado, como um casco de tartaruga repleto de cracas. Regras sobre que tipo de pessoa você deve amar, como deve amar, por quanto tempo, em quais circunstâncias e tantas coisas mais... Nós não precisamos disso. O amor que sinto por você não diz respeito a mais ninguém além de nós dois, Luca, e eu quero que ele seja livre. Quero que nós decidamos o que é certo e errado para nós, que caminhemos em nosso próprio tempo, que façamos o que tenhamos vontade porque o que estamos construindo é algo apenas meu e seu, amore mio.
Luca sorria, sentindo todos os nós de dúvida desaparecerem pouco a pouco de seu peito, a voz de Bruno se silenciando a cada palavra proferida por Alberto que o acalmava outra vez.
— Então, se você achar que é estranho e que estamos indo rápido demais... — Alberto continuou, mas Luca o interrompeu com um beijo roubado.
— Não. Para mim, tudo está perfeito. Não há nada para ser mudado.
Alberto sorriu outra vez.
— Não precisamos complicar isso, Luca. Não precisamos dar um nome, nem estipular um período de tempo que é correto fazer determinadas coisas, nem usar argolas de ferro no dedo ou mesmo assinar um pedaço de papel para deixar registrado que estamos juntos. Porque eu te amo, Luca, e não preciso de nada disso para mostrar isso a você, por todos os dias pelo resto de nossas vidas, se você assim também quiser.
— Eu quero — Luca sussurrou, apoiando sua testa na do moreno, apreciando o calor reconfortante de seu corpo e as mãos grandes e pesadas em sua cintura e costas. — Ora e per sempre.
— Per sempre, amore mio. Vamos encontrar o nosso próprio modo de viver. E fazer o que der na telha.
— Com a nossa Vespa.
— Com a nossa Vespa, sim.
— E dormindo sob as anchovas todas as noites.
— E conhecendo o mundo todos os dias.
Eles voltaram para Portorosso quando sentiram fome e almoçaram em família. Giulia os observou e sorriu, mas nada disse. Ela parecia já saber e entender tudo o que estava acontecendo; era mais como se apenas estivesse esperando que finalmente acontecesse.
Quando anoiteceu, sem que ninguém soubesse, eles aprontaram mochilas com roupas, documentos e dinheiro, deixando-as na casa de Alberto para que ninguém desconfiasse. E subiram até o telhado, deitando sobre as telhas ásperas e ressecadas para observar os últimos raios de sol deixando o horizonte.
— Nossa viagem começa amanhã? — perguntou Alberto, seus dedos entrelaçados aos de Luca.
— Sim. Bem cedo.
— E para onde nós vamos primeiro?
— Para Genova. Quero te mostrar a cidade e o lugar onde estudo.
— E depois? — ele sorria, observando o céu e as anchovas que estavam acordando e começando a brilhar.
— Vamos para Verona, conhecer a cidade de Romeu e Julieta. E, depois, para Veneza.
— E nós vamos em todos os lugares legais. E comer muito trenette al pesto.
Luca riu, aproximando seu corpo do de Alberto quando uma brisa mais gélida passou por eles.
— Vai ter muito mais do que apenas trenette al pesto para você provar, Alberto. Eu soube que em Veneza eles tem polenta.
— Uhh, e o que é isso?
— Eu não sei, mas também quero provar.
E eles continuaram conversando sobre seus planos durante muito tempo. Então foram dormir, da mesma maneira que na noite anterior, com o rosto de Luca sobre o coração de Alberto e as pernas dos dois entrelaçadas juntas sob o lençol.
Na manhã seguinte, pela primeira vez em seis anos, Luca não teve que deixar uma parte de si para trás ao embarcar no trem.
Ele e Alberto entraram juntos.
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Sob as Anchovas
Fanfiction{Luca x Alberto} ...e eles voltavam para ela todos os anos quando Luca voltava para casa. E se deitavam lado a lado na plataforma de madeira do topo, olhando para as anchovas brilhantes acima deles enquanto Luca contava tudo o que havia para ser co...
