Com certeza ela me chamou de babaca convencido no seu pensamento. Tudo bem, eu me divirto com isso, minhas oportunidades de conversar com a Raven vieram quando ela passou a me odiar.
No começo, eu me dediquei ao máximo para impressionar ela, mas pelo jeito ela se sentiu ameaçada, confesso que acho divertido toda vez que ela me fuzila com aqueles olhos castanhos, o jeito como o seu olhar faz com que ela se pareça superior a todos, como se ela vivesse na mais alta hierarquia do próprio mundo, fazendo todos ao seu redor a admirarem, pra mim, ela é uma rainha destemida. Raven está sempre usando um casaco de couro, diria que é a marca dela. Mas ela não se encaixa em nenhum rotulo, ela é apenas a Raven. Ela tem a pele escura e cabelo preto e cacheado até a cintura, sempre faz penteados loucos e criativos com o próprio cabelo, não há nenhum dia que eu não me impressione.
Vejo ela saindo da sala, gostaria de ao menos receber um "tchau" as vezes, mas reconheço que é carência demais da minha parte, ninguém da tchau pra quem não gosta.
Termino de guardar minhas coisas e ligo para minha irmã mais nova, Mel. Ela atende no segundo toque.- Oi maninho - sorrio comigo mesmo, amo quando ela me chama assim.
- Eai, ratinha. Vai querer alguma coisa do mercado?
- Acabou o leite, e se puder trazer uns donuts pra mim, vai me deixar feliz. – Tento não mimar muito Mel com doces e presentes, mas é quase impossível, normalmente ela se comporta na escola, faz os afazeres e sempre deixa o quarto organizado (no conceito de organizado dela, é claro). Eu tento dar uma boa educação para ela, pra mim nunca funcionou essas coisas de castigo e bater, isso não é educação. É a maneira que os pais acham de ter controle sobre os filhos e acaba resultando em medo da parte da criança. Não seria melhor ter o respeito e admiração do seu filho?
- Passa o celular pra Sônia. –digo para Mel.
- Tá bom.
- Alô? - Sônia fala tão baixinho que preciso aumentar o volume do celular.
- Oi, Sônia. A Mel se comportou? Acha que ela merece um doce?
- Claro, Justin. Hoje ela foi elogiada pela professora, disse que ela tirou a maior nota da turma na prova.
- Tudo bem, obrigado por avisar. Chego em 15 minutos. Tchau, Sônia.
-Tchau, Justin.
Sigo em direção ao meu carro, fico admirando ele por um instante, é um Hyundai Accent vermelho, era da minha mãe, sou muito apegado às coisas que ela deixou, com o tempo o rosto dela vai se apagando da minha memória, não lembro mais o tom da voz dela, isso me mata por dentro, é como um parasita apagando tudo sem eu perceber. Com o tempo, percebo que qualquer resquício que ela deixou aqui é como uma lembrança de que ela está comigo. Entro no carro e começo a dirigir para o mercado.
Meu coração se enche orgulho por Mel, porra. A maior nota da turma! Sempre tive medo que os nossos traumas afetassem Mel nos estudos também, mas ela é uma menina forte.
Tudo ficou muito difícil depois que nossa mãe faleceu com leucemia. Meu pai parou de existir, acredito que parte dele se foi com minha mãe. Três meses após a morte da minha mãe, nosso pai nos abandonou. Talvez eu tenha sido um fardo maior do que ele pudesse suportar, talvez só a minha mãe seria forte o suficiente para continuar por nós...
Mel fez muitas perguntas quando percebeu que nossos pais não voltaram da suposta "viagem". E eu fui sincero com ela, afinal, Mel tem 10 anos. Expliquei que mamãe tinha ido para o céu e que nosso pai foi morar longe. Não é justo mentir pra ela. Eu vejo que ela sente muita falta da nossa mãe, mas Mel deposita todo afeto dela em mim agora, eu faria qualquer coisa por essa menina.
Desde então eu arranjei um estágio em uma biblioteca, eles gostaram do meu trabalho e me promoveram a atendente. A biblioteca é meu paraíso na terra. Como um leitor eu posso dizer que nunca me cansaria dos livros, é como se eu pudesse respirar novamente quando estou em meio às páginas.
Finalmente chego no mercado e decido gastar um pouco mais hoje, pela Mel, ela merece. Comprei as coisas para o dia a dia e mais umas guloseimas que eu sei que a Mel ama.
Pago tudo no caixa e levo as sacolas para o porta malas do carro.
Dirijo até casa. Quando estaciono o carro, Mel ouve o som na garagem e corre para abrir a porta e vem correndo na minha direção. Aí está, a única razão pela qual eu aguento tudo, me abraçando como se eu fosse o universo dela.
Passo às mãos pelo seu cabelo loiro, e dou um beijo no topo.
- Você demorou! - ela soa indignada.
- Claro, ratinha. Se eu não faço as comprar nós passamos fome, dã.
- Hum, faz sentido.
Sônia aparece na porta e sorri. Ela está com sua bolsa pronta para ir embora. Sônia tem 40 anos, com cabelo preto e preso em um coque. Ela sempre cuida de Mel quando estou na faculdade. Ela sempre foi uma grande amiga da família.
- Se cuida, filho. Deixei o jantar pronto pra vocês.
- Não precisava, Sônia. Você é muito gentil, obrigado. Acho que vou te apresentar para o porteiro da faculdade, ele vive perguntando sobre você depois que você foi na minha apresentação. Sou um bom cupido, se tiver interesse.
- Ah... por favor, Justin. Você não é bom nem com sua vida amorosa, filho.
- Ual, golpe baixo - começamos a rir e ela se despede de Mel com um beijo na bochecha.
Mel me ajuda a pegar as sacolas do carro e entramos para dentro de casa. Caminhamos até a cozinha e guardo as coisas na geladeira com a ajuda de Mel. Assim que ela percebe a sacola dos doces o rosto dela se ilumina como uma estrela, a mais linda delas.
Ela solta gritinhos e me abraça.
- Parabéns pela melhor nota, ratinha.
- Eu achei que ganharia um doce só, mas isso é um banquete!
- Então vamos jantar primeiro e depois nos banqueteamos com seus doces enquanto assistimos um desenho, ok?
- Ok. - Ela diz enquanto admira os doces nas embalagens.
E ficamos acordados até às dez horas assistindo desenho. Nós acabamos dormindo no sofá mesmo, ela com a cabeça no meu colo e minhas mãos acariciando os seus cabelos loiros até eu pegar no sono também.
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Ouço as batidas do seu coração
RomanceRaven é uma mulher muito fechada e cautelosa. Devido a sua deficiência auditiva ela aprendeu a observar tudo ao seu redor com mais atenção. Raven aprendeu da pior maneira a desconfiar de todos ao seu redor, não aceita gentileza, detesta pessoas que...