Consulta dolorosa

61 9 125
                                        

Gilbert Walter

Nos túneis fétidos dos esgotos do Asilo Mount Massive, Gilbert Walter avançava com passos hesitantes. O jovem de cabelos castanhos e olhos alertas, vestido com um uniforme cinza-azulado rasgado, sentia o ar úmido e pútrido pesar contra sua pele. Comparado ao inferno que Miles Upshur enfrentara, aquele trecho parecia menos grotesco, mas o fedor de mofo e morte ainda impregnava suas narinas. Ele não sabia quem era, nem por que estava ali — apenas que precisava descobrir, como se uma força invisível o guiasse por aquele labirinto de horrores.

Seus tênis chapinhavam em poças escuras quando ele avistou uma escada espiral enferrujada, subindo em direção a uma promessa de liberdade. Com o coração acelerado, escalou os degraus, o metal gemendo sob seu peso. A escada o levou a um galpão no pátio do manicômio, onde a tempestade começava a rugir.

Um trovão estilhaçou o silêncio, fazendo Gilbert congelar, os olhos arregalados enquanto examinava o espaço. Ferramentas quebradas e caixas cobertas de poeira jaziam abandonadas, e o vento uivava pelas frestas, como vozes de pacientes há muito esquecidos. Ele precisava de coragem. Não apenas para sobreviver, mas para entender o vazio que corroía sua memória.

Gilbert caminhou até a porta principal do galpão, a madeira inchada dificultando sua abertura. Quando finalmente cedeu, ele se deparou com a escuridão parcial do pátio. As montanhas ao redor gemiam sob a ventania, um coro sobrenatural que arrepiava sua nuca. Ele respirou fundo, o ar gelado queimando seus pulmões, e avançou pela lateral do galpão, onde uma lâmpada solitária tremeluzia, iluminando apenas o hall de entrada.

Um raio cortou o céu, caindo próximo à encosta, e o estrondo o fez recuar para dentro do galpão, o coração disparado. Então, um som diferente — um estalo seco, vindo das sombras atrás dele. Girando o corpo, Gilbert viu uma janela explodir em cacos, e o Walrider, uma massa negra de nanobots pulsando com energia maligna, invadiu o espaço.

O pavor o dominou. Gilbert correu, trancando a porta atrás de si com dedos trêmulos. Seus pés bateram contra a ponte de metal que cruzava o pátio, os primeiros pingos de chuva gelada molhando seu rosto pálido. O vento da montanha bagunçava seus cabelos castanhos, enquanto ele fugia, o zumbido do Walrider ecoando em sua mente como um pesadelo vivo. À distância, uma luz amarela brilhou — uma lanterna. Era o Padre Martin, sua silhueta inconfundível movendo-se com propósito. Para Gilbert, porém, ele não era um aliado, mas outro monstro em um lugar onde todos pareciam querer sua morte.

Exausto, Gilbert se jogou atrás de uma caixa enferrujada, o metal frio contra suas costas. Sua visão escureceu, o cansaço vencendo-o. Ele desmaiou, o som da chuva abafando o mundo. Minutos depois, acordou com o coração na garganta, vendo Martin passar correndo ao lado, a lanterna balançando como um farol em meio à tempestade. Gilbert segurou a respiração, rezando para não ser visto. Ele não podia confiar em ninguém — não naquele inferno.

---

Miles Upshur

A poucos metros dali, Miles Upshur jazia no chão frio da cozinha, a cabeça latejando após o golpe de Richard Trager. O ex-executivo, agora um variante sádico com um sorriso retorcido, pairava sobre ele, a voz carregada de deboche:

— Ei, você é o cara do padre de merda, não é? A tal “testemunha” dele. Deve estar exausto, hein? Que tal um martini, um bate-papo?

Miles tentou se mover, mas seu corpo não respondia. Trager, com um grunhido de esforço, ergueu o jornalista e o jogou em uma cadeira de rodas, as amarras cortando seus pulsos.

— Mais pesado do que parece — zombou Trager. — Um pouco de cardio não te mataria, parceiro. Braços e pernas dentro do carro o tempo todo.

Arrastando a cadeira pela cozinha, Trager atravessou o corredor principal da ala masculina, o chão pegajoso com sangue seco. Ao passar por uma porta que dava para o pátio, ele parou, o ar da montanha invadindo o espaço com um frio cortante.

Outlast - Another StoryOnde histórias criam vida. Descubra agora