Gilbert Walter
A chuva desabava sobre o pátio do manicômio de Monte Massive, um dilúvio frio que transformava o chão de pedra em um espelho escorregadio. Gotas pesadas encharcavam os cabelos castanhos de Gilbert, colando-os à testa pálida. Ele permanecia imóvel, como se o peso da tempestade o prendesse ao solo. Seus olhos, arregalados, fixavam uma fonte no centro do pátio. A água que jorrava, agora tingida de vermelho, misturava-se ao sangue de corpos espalhados — pacientes e guardas, cujos membros retorcidos compunham uma cena de carnificina silenciosa. O ar cheirava a ferrugem e morte.
O coração de Gilbert martelava, mas suas pernas se recusavam a obedecer. O medo, como um veneno gelado, parecia infiltrar-se em suas veias, paralisando cada músculo. Então, uma memória emergiu das profundezas de sua mente, tão vívida quanto a chuva que o encharcava. Ele se viu novamente em uma loja no centro de Leadville, anos atrás.
O som de tiros ecoava em seus ouvidos. Dois criminosos haviam invadido o estabelecimento, suas vozes roucas gritando ordens. Um policial, com a arma em punho, reagiu. Os disparos rasgaram o ar, e Gilbert, apenas um garoto na época, ficou petrificado. O terror o dominou, roubando-lhe o fôlego. Quando finalmente recobrou os sentidos, correu para os fundos da loja, onde desabou, o corpo trêmulo, incapaz de se mover enquanto uma crise de ansiedade o consumia.
A lembrança desvaneceu, mas a sensação era a mesma. A fonte ensanguentada diante dele parecia sugar sua coragem. Gilbert cerrou os punhos, forçando o ar a entrar nos pulmões. Não podia ficar ali, exposto, vulnerável. Com um esforço que parecia arrancar sua alma, ele se virou e rastejou de volta pelo buraco na cerca por onde havia passado. O pátio, agora um campo de batalha, fervilhava com o caos. Dois homens — Josh e Chris Walker, nomes que ele ouvira em sussurros aterrorizados — trocavam golpes brutais a poucos metros dali. Aproveitando a distração, Gilbert correu, os pés chapinhando na lama, até alcançar um portão entreaberto.
O portão rangeu ao ceder, revelando uma escada iluminada por lâmpadas brancas, cuja luz fria lançava sombras compridas nas paredes. Ele subiu, cada degrau ecoando o som de seus passos apressados. A escada o levou à ala feminina do manicômio, uma parte abandonada onde o tempo parecia ter parado.
Corredores estreitos, parcialmente destruídos, exibiam marcas de um incêndio antigo: paredes carbonizadas, detritos espalhados e um cheiro persistente de cinzas. Raios cortavam o céu lá fora, iluminando o interior em breves clarões que faziam Gilbert estremecer. Ele avançava com pressa, o coração na garganta, até chegar a uma porta no fim do corredor. Ao abri-la e fechá-la atrás de si, pensou que estava seguro — até perceber que não estava sozinho.
Um homem nu, com a pele pálida como cera, caminhava em sua direção. Era um dos gêmeos, figuras temidas que Gilbert ouvira mencionar em murmúrios pelos outros pacientes. O homem segurava um pedaço de madeira na mão esquerda, os dedos apertando-o com força deliberada. Gilbert recuou, o piso frio sob seus pés enviando arrepios por sua espinha.
Antes que pudesse planejar o próximo movimento, passos ecoaram às suas costas. Ele girou, apenas para encontrar o segundo gêmeo, este empunhando uma faca de cozinha, a lâmina reluzindo sob a luz fraca. O gêmeo avançou, rápido e preciso. Gilbert tentou desviar, mas a faca rasgou a carne de seu braço direito, deixando um corte superficial que ardia como fogo. Um grito escapou de sua garganta, mas ele engoliu o pânico e correu.
Os corredores da ala feminina, um labirinto de escombros e escuridão, pareciam engoli-lo. Ele se lançou para uma sala lateral, o peito ofegante, e se escondeu atrás de uma pilha de móveis quebrados. Então, ouviu algo que fez seu estômago revirar: gemidos abafados, acompanhados de um som rítmico e perturbador. Cauteloso, ele espiou por uma fresta na porta. A cena que viu o deixou nauseado. Um paciente, com o rosto desfigurado e olhos vazios, estava inclinado sobre o cadáver de um soldado da Murkoff, violando-o em um ato grotesco de necrofagia. Horrorizado, Gilbert se afastou, a bile subindo à garganta. Não havia tempo para processar o que vira. Os passos dos gêmeos ecoavam mais perto.
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Outlast - Another Story
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