Kankuro

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Kankuro foi acordado por um grito, demorou alguns segundos para perceber que o som agonizante havia sido proferido por ele. Suado e ainda tremendo, respirou fundo na tentativa inútil de controlar as batidas do seu coração. Olhou para o relógio de cabeceira, 3h47.

Droga. Dificilmente voltaria a dormir.

Hoje em dia era raro ter pesadelos, entretanto o Sabaku odiava toda maldita vez que ocorria. No geral era a mesma merda: de volta em Suna, preso naquelas paredes de areia, gente ruim e leis arcaicas. Sempre envolvia ser descoberto pelo pai, sua morte, no entanto, variava entre o apedrejado em praça pública, ou o clássico enforcamento. Essas eram as penas determinadas quando se tratava de homossexualidade, sendo filho do monarca - pior, elegivel ao trono - a punição cruel não seria só questão de exemplo, mas uma forma de redimir a mancha que sua existencia representava para todo o país.

Miseráveis. Pensou com um velho rancor.

Sem acender o abajur do quarto, levantou-se - vacilante - e caminhou até o banheiro. Uma Lua Nova despontava do céu escuro no lado de fora da janela, banhando o pequeno cômodo numa meia luz prateada. Kankuro ligou o chuveiro e se meteu debaixo da água antes que ela esquentasse. Não era uma noite particularmente fria, porém, mesmo se fosse ele tão pouco se importava - apenas precisava ficar limpo, não só do suor, como das lembranças amargas do seu passado.

O físico foi fácil, com água e sabão tudo estava resolvido. A parte mental também, no fim eram meramente memórias distorcidas e suposições da sua cabeça traumatizada, porém o emocional foi realmente complicado. Não importava o quanto esfregasse - mesmo que sua pele ficasse vermelha ou sangrasse - ainda podia sentir o toque viscoso do medo.

Um pesadelo era o bastante para torná-lo aquela criança aterrorizada e indefesa que costumava ser. Incapaz de raciocinar, ou se defender.

No banheiro escuro, tendo como única testemunha a Lua, Kankuro chorou.

Não por si, mas pela pessoa que nunca seria. Ao longo da sua vida tentou ser o que esperavam dele: destemido, implacável e viril. Bem, um homem. Mas não conseguiu, desde muito jovem algo estava errado com ele, saber e tentar esconder isso só piorou as coisas, pois se tornou um covarde, quieto demais, solitário e apático. Seu pai queria um líder forte, Kankuro era um eremita sexualmente reprimido.

Recompondo-se, desligou o chuveiro. No escuro, secou-se e colocou a primeira roupa que encontrou no armário. Repetindo a rotina das noites de pesadelo, partiu para sua oficina nos fundos da casa.

De uma forma estranha seu trabalho era o perfeito reflexo dele. A imagem das marionetes de madeira eram esteticamente desconfortáveis, muitas possuíam membros extras - sejam braços, pernas, olhos ou bocas - suas formas humanóides causavam um certo medo, equilibrando-se em uma linha muito tênue entre a realidade e o macabro. No entanto, o interior das peças traziam uma verdadeira complexibilidade de mecanismos que lhes davam quase vida própria com um simples movimento de mão. Subestimado, mas extremamente perigoso, Kakuro havia equipado as obras com garras, lanças, espadas e facas ocultas.

À primeira vista, suas marionetes não passavam de esculturas bizarras, entretanto, uma vez revelada seu interior, tornavam-se verdadeiras obras de arte: únicas, ameaçadoras e absolutamente caras.

Minutos se transformam em horas, a Lua deu lugar ao Sol e um clima ameno para o verão.

O Sabaku não levantou a cabeça do que estava fazendo para dar as boas vindas quando Temari entrou no seu estúdio. Ela não precisava de cortesia ou convite.

- Trabalhando num domingo de manhã, que novidade - foi seu cumprimento irônico.

Ele continuou ignorando-a.

Colega de quartoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora