Ele não pretendia se atrasar. No entanto, por chegar tarde na primeira aula, acabou demorando mais na orientação de alguns alunos que estavam para se graduar e pretendiam fazer um trabalho teórico. Como uma cascata, continuou preso ao loop até o último horário. Ter que voltar para casa andando e arrastando uma bicicleta danificada também não ajudou muito.
Ainda não conseguia entender sua reação embasbacada da manhã com a loira. Nem mesmo conseguiu perguntar seu nome — não que quisesse saber, mas, bem, ela o havia atropelado afinal. Informar seu nome e deixar um número de contato era o mínimo.
E se ele de fato tivesse tido uma contusão?
"Por que está remoendo isso?", perguntou a si mesmo. Agachou para prender a roda traseira da bicicleta no suporte com a corrente. Duvidava muito que fosse roubada no estado em que estava. Porém, Shikamaru era um homem de hábitos.
Chouji, muito provavelmente, viria com uns papos loucos sobre clichês românticos de adolescente. Desde que havia se apaixonado, ficou obcecado pelo assunto, enchendo-o de perguntas, criando teorias bizarras sobre sua relação com Ino e, até mesmo, cometendo a audácia de cadastrá-lo em um site de relacionamento.
— Está atrasado! — foi a saudação de Neji assim que entrou em casa.
— Tive que vir andando. Levei um tombo hoje de manhã e minha roda empenou. — respondeu, fechando a porta do apartamento.
— Se tivesse comprado um carro, como sugeri, isso não teria acontecido. — O Hyuga colocava biscoitos, chá e café em uma bandeja na bancada da cozinha, enquanto reclamava da decisão de Shikamaru.
— Claro, porque um acidente de carro é menos prejudicial que um de bicicleta. — devolveu com um tom de tédio que sabia que o irritaria.
— Só precisamos da sua aprovação. Kiba está mais barulhento que nunca, mas está de acordo. Naruto também. — Sem poder refutar a resposta malcriada, Neji apenas ignorou. — Não sei exatamente a opinião do Sasuke, no entanto, como o quarto é seu, sua decisão tem mais peso.
— O que você acha? — perguntou Shikamaru ao amigo mais sensato.
— Não me importo realmente. Podemos dividir as despesas do Chouji entre nós.
— Kiba ficaria enchendo meu saco por ter que dividir um quarto com Naruto no lugar de poder ficar sozinho. — Na divisão original, o Inuzuka havia perdido nas negociações para Sasuke, sendo obrigado a ter um colega de quarto. Até hoje guardava certo ressentimento por isso. Sem falar que Shikamaru já podia ouvir perfeitamente o choramingo. — Aposto que ele usaria Shino como justificativa.
— Como se os dois precisassem de um quarto para transar. — respondeu o Hyuga, com a amargura de quem já vira mais de uma cena constrangedora do casal.
O Nara apenas tremeu com as lembranças dos próprios flagras.
— No fim, só iria trocar um colega de quarto potencialmente gerenciável pelo Naruto.
Shikamaru gostava do Uzumaki. Tirando Chouji, o loiro era seu amigo mais próximo. Entretanto, ele também era completamente desorganizado, barulhento, invasivo e, muitas vezes, não tinha a menor noção dos limites das outras pessoas.
Definitivamente, era uma complicação que não estava disposto a lidar.
— Qualquer coisa é melhor que o Naruto. — Com essa afirmação, Neji pegou a bandeja e se encaminhou para a sala. Shikamaru o seguiu.
Como se invocada de seus pensamentos, ali estava a loira que o havia atropelado. Sentada confortavelmente no sofá de três lugares, com as pernas cruzadas e um sorriso altivo — como uma rainha imponente. Naruto ao seu lado, rindo de algo; Kiba a encarava com óbvia adoração; Sasuke estava em pé, com o ombro encostado na parede, ostentando uma expressão arrogante — como sempre.
— Não te incomoda morar em uma república só de homens? — O moreno perguntou incisivamente.
— Tenho dois irmãos, então não tenho problemas em dividir espaço com meninos, — a loira respondeu com igual soberba. — Desde que não sejam um bando de pervertidos, ficaremos bem.
— Não precisa se preocupar com isso. — Kiba a tranquilizou à sua maneira escandalosa, apontando para Naruto. — Ele tem namorada. A rainha pomposa aí não gosta de humanos em geral, — falou, referindo-se a Sasuke — e, bem, Neji tá de rolo com a Tenten...
— Tenho certeza que Temari não precisa dessas informações demasiadamente pessoais, Kiba. — O Hyuga interveio com rispidez, trazendo a atenção da moça para si, ou melhor, para Shikamaru.
Os olhos verdes dela se prenderam aos seus, de início com surpresa, depois descrença e, por último, acusação.
— Talvez. — Inuzuka sorriu sem graça. — Err... Foi mal.
— Vocês se conhecem? — Sasuke perguntou, interrompendo Kiba.
A troca de olhares entre os dois era, no mínimo, estranha para o Uchiha que, além de ser anti-social, grosso e arrogante, tinha como melhor qualidade a percepção afiada.
— Ela me atropelou hoje de manhã. — confessou. Era melhor esclarecer logo aquela situação.
— Ow! Eu não atropelei ninguém! — Temari se defendeu. — Você que estava andando de bicicleta, em mão única, como se estivesse no mundo encantado da Disney.
Ela tinha razão, mas ele cortaria a própria língua antes de admitir algo remotamente parecido com aquilo.
— A prioridade era minha, — simulou paciência. — Faz parte da regra de trânsito: pedestre, bicicleta, moto e, então, carro.
— Isso não te dá aval para ficar andando no meio da rua observando o céu. — Ela o encarou com severidade. — E, outra, você nem se machucou.
— Você quebrou minha bicicleta. — salientou, algo dentro de si alertando sobre o perigo iminente de provocá-la, mas não pôde evitar.
— Mas me ofereci para consertar, — fez uma expressão exagerada de obviedade. — Você que recusou.
Shikamaru abriu a boca para rebater, porém, foi interrompido por Sasuke.
— Atropelar seu colega de quarto não me parece um início promissor.
Nara viu os olhos verdes dela se estreitarem e o rosto bonito avermelhar de raiva. Entretanto, para sua surpresa, a mulher apertou os lábios no lugar de retrucar.
Seja lá por qual motivo fosse, Temari queria mesmo aquela vaga.
— Não seja um cuzão, Sasuke. — A defesa partiu de Kiba.
— Só estou dizendo o óbvio. Não temos motivos para continuar perdendo tempo com essa entrevista. — O Uchiha encarou Shikamaru. — Além disso, não acho que Shikamaru iria querer dividir o quarto com uma mulher.
Ele tinha razão. Shikamaru não queria, mas, por alguma razão, não sentia vontade de colocar isso em palavras na frente de Temari — não que estivesse preocupado com sua desaprovação ou algo assim, assegurou-se.
— Qual o problema com o meu gênero? — Ela cruzou os braços na frente do peito e o encarou.
— Mulheres são problemáticas. — Foi tudo que pôde dizer.
— E homens não? — A loira revirou os olhos. — Tenho boas referências, estou disposta a fazer os depósitos exigidos, não tenho vícios ou antecedentes. — completou quando o Nara levantou uma sobrancelha com deboche. — Me ofereci para ajudar quando o atropelei, o que prova que não sou uma louca irresponsável, e estou aqui, me submetendo a essa entrevista sexista e desrespeitosa.
— Não somos sexistas. — Neji negou, ofendido.
— Ah, sim? — Ela o encarou com desafio. — Então me dê um motivo plausível para me recusar.
Não existia.
A pergunta era uma armadilha e eles haviam caído direitinho.
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Colega de quarto
FanfictionNara Shikamaru tinha a vida perfeita que todo preguiçoso crônico sonhava. Era professor universitário aos 21 anos, dividia seu apartamento com outros cinco amigos e mantinha uma rotina banal e minimamente notória. Até que seu melhor amigo, Akimichi...
