Shikamaru não estava acostumado com a inquietação, simplesmente não fazia parte da sua personalidade. Toda vez que tinha um problema, respirava fundo, se acalmava e pensava em várias possibilidades de como resolver a situação. Geralmente tendia para a mais fácil, aquela que menos exigisse dele, mas no fim, não ficava ansioso durante o processo. Porém, desde que conheceu uma mulher problemática, havia experimentado uma infinidade de novos sentimentos. Alguns eram muito bons — precisa admitir — outros, no entanto, representavam um verdadeiro inferno.
Esperar Temari enquanto ela tinha uma conversa complicada com o irmão na cozinha, se enquadrava no top 3 de eventos perturbadores. O problema não era o cara em si, não havia sentido uma intenção ruim partindo dele nos poucos minutos que o conheceu, mas a Sabaku.
Durante os meses em que partilharam o quarto, havia presenciado muitos dos humores dela, da completa raiva — quando descobriu que Naruto tomava seu café escondido — a felicidade desmedida — no dia que venceu Sasuke num jogo e ficou inflada como um pombo por semanas. Porém, nunca havia visto aquele olhar no rosto de Temari até aquele dia.
Tinha medo — apenas um pouco —, culpa, do tipo que lhe despertou todos os instintos de proteção, no entanto, o que mais o preocupou foi a dor. Pesada, crua e dilacerante.
Shikamaru não queria ter deixado ela sozinha, mas fez. Algo no seu interior lhe dizia que ela precisava daquilo, e ele nunca foi do tipo de questionar sua intuição.
Continuou andando de um lado para o outro no quarto por algum tempo, logo sentou-se na cama e começou a tentar pensar em outras coisas. Talvez devesse mandar uma mensagem para Chouji, ou Ino. Eles com certeza saberiam o que fazer naquela situação.
Pegou o celular e entrou no grupo que dividiam, voltou a bloquear a tela e guardou o aparelho. Descartou a ideia, pois não tinha como pedir ajuda sem expor Temari.
O tempo foi passando e o Nara acabou pegando no sono. Acordou num sobressalto quando a Sabaku se aconchegou ao seu lado. Ele estava com uma perna esticada na cama e a outra para o lado, com o pé tocando no chão. Sua posição era meio sentada, com as costas encostadas na cabeceira, então tudo que ela precisou fazer foi deitar e passar o braço por cima da barriga dele, colocando a cabeça no seu peito.
Shikamaru não falou nada, apenas a envolveu com os braços. De alguma forma estranha, Temari parecia pequena — frágil.
Isso era assustador para um caralho.
Foi paciente, aguardou em silêncio até que ela estivesse preparada. Não gostaria de estar em nenhum outro lugar, além de com ela.
— Suna não é igual Konoha — sua voz não passava de um sussurro rouco, Shikamaru não precisava ver seu rosto para saber que ela havia chorado — na minha infância, quando minha mãe era viva, ainda existiam coisas boas — fungou — mas com o tempo meu pai enlouqueceu e o país todo se tornou opressivo.
— Kankuro e Gaara são meus irmãos por parte de pai, a poligamia é algo aceito, desde que seja o homem a ter mais de uma mulher. Sou filha da primeira esposa, minha mãe veio de família nobre, porém teve complicações depois que nasci e não pôde dar um herdeiro digno ao meu pai — ele pode sentir sua amargura em cada palavra — um dia ela não aguentou as humilhações que sofria e simplesmente... partiu. Meu pai era tão cruel que não lhe dedicou nem mesmo um enterro digno, não pude me despedir, fui ordenada a parar de falar sobre ela e pronto. Sinceramente, não foi difícil obedecer, porque eu estava com tanta raiva por ter sido abandonada, que a culpei de todas as merdas que me aconteciam. E mais do que tudo, me lembrar que minha mãe preferiu morrer a ficar do meu lado, me fazia indigna, não fui o suficiente pra fazer ela ficar.
— Isso não é verdade.
— Hoje sei disso, mas naquela época eu era jovem e estúpida — tentou sorrir com a auto depreciação, porém não conseguiu.
"Kankuro tinha pouco mais de 2 anos, quando ele fez 4, meu pai mandou executar a mãe dele por traição. Para falar a verdade, até hoje não acredito nisso, ela o venerava e temia como todo o povo. Como eu. Acho que meu pai a matou porque não podia fazer o mesmo com meu irmão, afinal, ele era um herdeiro homem" divagou.
"Em Suna, o amor não é algo livre e se você é da realeza, seu único propósito é firmar acordos vantajosos. Meu irmão preferia meninos e isso é inaceitável, uma vez que um reinado só sobrevive através de seus herdeiros. Meu pai sabia que tinha algo diferente com Kankuro, mesmo criança. Até os serviçais comentavam quando achavam que ninguém podia ouvir e conforme fomos crescendo os sussurros também ganharam força e coragem."
Temari cerrou os punhos com força, Shikamaru vivenciou algo que raramente havia experimentado antes: completa impotência. Odiou o pai dela, o país de onde veio, e os adultos que não cumpriram seu papel de cuidar dela.
— O casamento com a mãe de Gaara talvez tenha sido uma forma que meu pai encontrou de silenciar todo mundo, ou só sua necessidade perversa de ter mais alguém para atormentar.
"O fato é que desde o primeiro instante que soube que havia nascido um novo herdeiro homem, temi pela vida de Kankuro. A corte era um lugar terrível, você tinha que ter cautela até com seus pensamentos. Ninguém era confiável. E sendo exposta a isso tudo desde sempre, minha cabeça sabia como as engrenagens ali funcionavam. De forma traiçoeira, brutal e rápida."
A Sabaku se calou, como se sua mente a tivesse prendido nas lembranças dolorosas do passado e precisasse de um momento para se desvencilhar. O peso de tudo que foi dito os envolvia com uma atmosfera angustiante.
Lentamente, o Nara começou a acariciá-la — suas costas, cabelo, cabeça, rosto, pele, tudo que pudesse tocar — até trazê-la de volta para ele.
— Eu amo meus irmãos, os dois de igual forma — declarou com veemência — mesmo que tivéssemos uma cultura machista e hierárquica, sempre os vi como meus para proteger e assim fiz.
"Quando Gaara tinha pesadelos, quando Kankuro precisava fugir, quando línguas maldosas colocavam a vida de ambos em risco. Ensinei para eles tudo que podia, como se defender, o que falar e como falar, assumia a culpa para não serem castigados. Mas meu poder era limitado, e quanto mais velho Gaara ficava, menor era o tempo que Kankuro tinha. Então tomei a decisão de escapar."
Shikamaru sentiu as lágrimas dela molhando sua camisa. Sua vontade era dizer que ela não precisava visitar esse lugar e compartilhar essa parte do seu passado — não algo tão triste assim. Entretanto, novamente, ela precisava daquilo. Portanto, só a abraçou forte por um momento.
— Não trazer Gaara comigo foi a coisa mais difícil da minha vida, não tive escolha, porque era uma das condições da pessoa que me ajudou a sair de Suna. Mas sinto essa culpa todos os dias da minha vida.
— Você fez o que era necessário, Temari.
— Sei disso, mesmo assim, ele era só uma criança num ninho de cobras e eu o deixei.
Não sabia o que dizer, por isso deixou que suas ações falassem por si. A abraçou e a acalentou, murmurando palavras incoerentes de consolo. Quando as lágrimas deram lugar a soluções, beijou seu rosto vermelho, e afagou sua bochecha com delicadeza.
— Você fez o que era necessário — repetiu com uma gentileza que não pensou que possuía.
— Gaara me disse o mesmo — ela respondeu, com a sombra de um sorriso — ele não me culpa — completou.
— Seu irmão é um cara sensato, com certeza não é algo de família — isso suavizou a tormenta.
— Meu irmão ainda me ama — essa frase veio acompanhada do sorriso mais deslumbrante que Shikamaru já viu na sua vida.
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Colega de quarto
FanfictionNara Shikamaru tinha a vida perfeita que todo preguiçoso crônico sonhava. Era professor universitário aos 21 anos, dividia seu apartamento com outros cinco amigos e mantinha uma rotina banal e minimamente notória. Até que seu melhor amigo, Akimichi...
