Família

5.9K 557 284
                                        


Maldito acomodado. Temari pensou ao pegar a bicicleta de Shikamaru, ainda com a roda ruim, e colocar na caçamba da sua picape.

Já havia passado muito tempo desde o acidente e ele ainda não havia consertado aquilo. No fundo sabia que não deveria se meter, afinal fez seu papel de boa samaritano ao oferecer ajuda para consertar a bicicleta no dia do atropelamento, e ele recusou. Mas acontece que o Nara não estava se movendo para resolver o problema, e alguma coisa precisava ser feita a respeito.

Resmungando sobre homens preguiçosos e sua idiotice, a loira entrou no carro e partiu para sua missão.

Era verdade que procurava um motivo válido para sair de casa — admitia a si mesma. O resto da semana havia se convertido rapidamente no seu inferno particular, pois mal conseguia encarar Shikamaru sem sentir uma vergonha mortal, e ignorá-lo era uma tarefa extremamente difícil, visto que dividiam o mesmo quarto.

É claro, Temari não era burra, percebia que ele também estava tomando algumas medidas para ficar o mais afastado possível dela — Shikamaru chegava em casa cada vez mais tarde nos últimos 3 dias. E parte de si — uma que tratou de sufocar — sentia falta da rotina que tinham estabelecido, não era como se fossem bons amigos, mas aquele constrangimento incômodo era irritante, a deixava apreensiva durante o dia inteiro para no fim das contas recompensá-la com a amarga decepção, pois o Nara não lhe dirigia nem mesmo uma palavra.

— Droga — liberou sua frustração buzinando, de forma impaciente, para uma minivan que não saia de sua frente.

Ela era uma pessoa de conflitos e discussões, não conseguia lidar com a Guerra Fria que sua relação havia se transformado. Porém, para resolver a situação, teria que encarar a realidade. Além do flagra, o que mais a perturbava, era a forma morena, sensual, com cheiro de hortelã e tabaco que sua mente havia invocado no auge do seu prazer.

Não conseguia encarar o colega de quarto, ainda mais sabendo que havia sido a imagem dele que lhe deu um orgasmo espetacular.

(x)

O trânsito de sábado era tranquilo, não foi muito difícil atravessar a cidade até os subúrbios. Estacionou no meio fio, em frente a uma casa de dois andares que, diferente das vizinhas, era feita de tijolos. Não tinha muito gramado entre a rua e a porta de entrada, mas eram bem cuidados — igual as trepadeiras que subiam pela lateral do imóvel, seguindo a calha até a pequena varanda do quarto. Não era muito grande e o bairro também poderia ser mais seguro, no entanto, Temari sorriu ao sentir o contentamento no coração.

Era seu lar, mais do que tijolos e telas nas janelas, a casa representava a libertação das regras sufocantes do pai, ou do próprio país natal. Não fora nem um pouco fácil sair de Suna, ou enfrentar suas leis para tirar Kankuro das garras de Rasa, entretanto, a Sabaku era inteligente e assim que o irmão completou 18 anos, tratou de correr atrás da emancipação e partir sem olhar para trás. Às vezes sentia falta de Gaara, perguntava-se o que teria acontecido com o caçula depois da sua saída, mas o medo dele ter se transformado numa cópia do pai a impedia de entrar em contato.

— Oras ora, parece que alguém encontrou o caminho de volta — seu irmão saiu pela porta, carregando uma sacola de lixo na mão.

Apesar de fazer tranquilamente 30 graus, Kankuro usava calça de moletom preto e um casaco da mesma cor, com o emblema de alguma banda de rock que a loira desconhecida.

Na primeira semana que pisaram em Konora, onde eram completos anônimos, os irmãos tiveram um surto provocado pelo excesso de liberdade. Temari acabou por perder a virgindade com um completo desconhecido e Kankuro — mais radical — tatuou o rosto. As linhas roxas em volta dos olhos, acima da boca, nariz e bochechas, lhe davam uma aparência marcante — perfeito para o artista excêntrico que era.

Colega de quartoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora