Dever de amigo

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Será que não posso ter nem mesmo um dia de paz?

Shikamaru se perguntou ao ouvir Temari gritar seu nome com raiva. Pelo amor de Kami, era domingo — o único dia da semana em que não precisava acordar cedo — e a mulher já estava se esgoelando às, levantou a cabeça para olhar o relógio, 7h43.

Complicado.

— Não finja que está dormindo, seu preguiçoso — esbravejou ela. — Quantas vezes vou ter que dizer para abaixar a tampa da privada? E que, se sujar algo, limpe. — Puxou as cobertas dele, furiosa. — Nós dois sabemos que o que tem entre as suas pernas não é grande o bastante para dificultar sua pontaria.

Shikamaru se preparou para retrucar — principalmente porque tomava muito cuidado para que ela não visse o que ele, de fato, tinha entre as pernas — mas reconsiderou. A loira era uma guerreira, gostava de conflitos e, se ele desse corda, ficariam ali por horas nesse jogo cansativo. Ok, ela tinha razão, às vezes — e só às vezes — ele se esquecia de abaixar a tampa. Já a sujeira era mais rara ainda, só fazia quando ia mijar de madrugada — com muito sono para ser cuidadoso. Era só Temari relevar e abaixar — ou limpar — da mesma forma que ele fazia com a maior parte das manias que ela tinha. Talvez devesse começar um show toda vez que a Sabaku fizesse algo que não o agradasse, assim ela não pensaria que era uma colega de quarto perfeita que merece o mesmo em contrapartida.

— Tudo bem, vou resolver isso hoje. — Jogou a coberta dele no chão e marchou a passos firmes até o banheiro.

Shikamaru se encolheu para aquecer o corpo, porém, depois do silêncio suspeito da mulher problemática, resolveu espiar entre os cabelos desgrenhados pelo sono para ver o que estava fazendo. Pulou da cama num instante quando a viu limpando a privada COM A SUA TOALHA.

— O que pensa que está fazendo? — Tirou o pano da mão dela.

— Ué, limpando sua sujeira.

— Com minha toalha? Eu seco o rosto com isso, Temari.

— Pois é. — Colocou as mãos na cintura. — A próxima vez que pegar esse vaso sujo, vou limpar com sua escova de dente, e você não vai saber se fiz realmente até ser tarde demais.

— Mulherzinha irritante e problemática!

— PORCO!

— Cacete, por que simplesmente não transam? — Um Naruto mal-humorado entrou no quarto, usava só a calça do pijama e tinha a cara amassada. — Aguentar as preliminares de vocês a essa hora da manhã é um saco.

— Idiota! — Shikamaru e Temari repetiram em uníssono, no entanto, a interferência do Uzumaki funcionou.

A loira voltou a entrar no banheiro, batendo a porta com força, e o Nara foi para a cozinha, incapaz de encarar ela ou o amigo com o constrangimento que sentia. Não tinha mais 12 anos de idade, não deveria ficar tão envergonhado com uma menção a sexo. Obviamente, não existia a menor possibilidade de fazer algo assim com Temari, porém...

Complicado.

Apesar de ser tarefa de Shino, resolveu fazer o café da manhã — já que tinha perdido o sono mesmo. Estranhou quando Naruto sentou na mesa, deitando a cabeça em cima da mesma.

— Por que está dormindo no sofá?

Desde que haviam se mudado, Kiba e Naruto tinham um acordo: aos fins de semana — por conta de Shino — o Inuzuka tinha o quarto só para si. Por esse motivo, quase sempre Naruto acabava dormindo na casa de Hinata ou no quarto de Sasuke — que tinha uma cama King Size que tomava conta de mais da metade do cômodo.

— Sasuke brigou comigo, — Naruto apoiou os cotovelos na mesa e sustentou a cabeça nas mãos para encarar o amigo. — Tivemos uma baita DR, quase perdi a aula de segunda porque ficamos até de manhã discutindo.

Isso explicava o arroubo de fúria do Uchiha no seu quarto no início da semana, por isso ele tinha sido o primeiro a ouvir o despertador — e não Neji — pois ainda estava acordado.

— O que você fez? — Depois da manteiga derreter na frigideira, Shikamaru começou a colocar os ovos.

— Por que eu tenho que ter feito algo? — O loiro respondeu na defensiva, mas quando só recebeu o silêncio, resolveu admitir. — Chamei ele para fazer um ménage comigo e a Hinata.

— Você o quê?! — Virou tão rápido para encará-lo que quase queimou a mão na frigideira.

— Ei, foi a Hinata que pediu um ménage com o Sasuke. — Entregou, mas quando pensou que pudesse colocar a namorada como culpada, consertou a fala. — Quer dizer, não pediu exatamente o Sasuke, só queria fazer com outro cara e, desde que ela aceitou fazer comigo e a Ino da última vez, não era como se eu pudesse ser um cuzão e dizer não.

— Fizeram um ménage com a Ino? — Era muita informação, muita mesmo, não queria ter toda aquela imagem na cabeça.

— É, elas não quiseram muito explanar a coisa, e como foi uma ideia minha... — Naruto deu de ombros, completamente alheio à palidez repentina do amigo, ou aos ovos fritos que ele deixou queimar. — Para ser sincero, ele não foi minha primeira opção, pensei em chamar você, mas a Hina não se sentiria muito à vontade, aí escolhemos o Sasuke.

— Naruto, eu não sou bi! — Seja racional, Shikamaru, seja racional no meio dessa conversa louca. Começou a recitar as palavras como um mantra. — Muito menos o Sasuke.

— É, sei disso.

— Olha, você sabe exatamente como funciona um ménage com dois caras? — Perguntou como se falasse com uma criança.

— Claro que sei, Shikamaru. — O loiro respondeu com arrogância. — Não sou burro.

— Um instante. — Levantou um dedo para que ele calasse a maldita boca, apagou o fogo da frigideira e saiu da cozinha. Voltou alguns segundos depois com o celular na mão. Digitou o endereço de um site pornográfico popular, procurou até achar a categoria "gay", escolheu um vídeo aleatório e adiantou a cena até um momento muito específico.

Um silêncio contemplativo caiu entre os dois — uma mistura de surpresa e constrangimento.

— De três, uma: ou você vai enfiar alguma coisa no Sasuke, ou ele vai enfiar algo em você, ou ambos vão enfiar na sua namorada! — Explicou com uma calma que não sentia realmente. — Você tem certeza, absoluta, que está preparado para fazer esse tipo de coisa com seu melhor amigo, homem e muito, muito complicado?

A resposta demorou para vir, e mesmo quando aconteceu, foi em um tom de insegurança.

— É, talvez não.

— Pois é, converse com a Hinata e conte que não está preparado para esse tipo de coisa. — Sentia vontade de agredi-lo, entretanto, se controlou. — Mesmo que ela tenha cedido, Naruto, você não é obrigado a fazer o mesmo se não se sentir confortável. — O assunto resolvido, voltou a ligar o fogo. — E pelo amor de Kami, peça desculpas ao Sasuke, implore se for necessário.

Às vezes odiava profundamente seu dever de amigo, no entanto, parte de si ficava feliz — e aliviado — pelo idiota do Naruto ter alguém para enfiar sensatez na sua cabeça oca.

Colega de quartoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora