A decisão

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Shikamaru estava completamente despreparado para aguentar as consequências das decisões que tomou, melhor dizendo, não havia planejado aquela consequência em especial ao montar o plano de ação para resolver o "problema Temari". Não levou seus próprios sentimentos em consideração e agora estava pagando caro por isso.

O Nara pensou que a atitude distante da Sabaku se limitaria a festa do Shino, afinal, levar Shiho como acompanhante tinha pego todo mundo de surpresa — em uma escala de reações, sendo Sasuke o mais indiferente e Ino, sendo Ino. Mas não imaginou que Temari fosse lhe dar um gelo que já se arrastava por quase três semanas.

De primeira, estranhou quando ela passou a chegar em casa muito tarde, e parou de reclamar das coisas — algo realmente preocupante em se tratando dela. Porém, convenceu-se que, por conta das provas do fim de semestre, a loira devia estar mais focada nos estudos e, por isso, não interagia com ele, ou com os rapazes — até mesmo Naruto e Kiba, deixaram de lado as distrações para se enfiar no meio dos livros.

E então, a segunda semana veio.

As provas passaram, e o próprio Shikamaru acabou sendo envolvido em uma onda exaustiva de trabalho, já que, diferente dos alunos, era a semana seguinte as provas que representava o verdadeiro inferno para um professor: dezenas de correções a fazer, trabalhos e notas para lançar, apresentações finais para assistir e choramingos de pontos extras para gerenciar. Para um preguiçoso crônico como ele, aquilo era um pesadelo, mas ainda assim, sentia o incômodo do afastamento dela.

O entendimento de que estava sendo evitado permaneceu ali no fundo da sua mente, por mais que ignorasse e voltasse seus pensamentos para a quantidade absurda de tarefas, reparava que Temari tratava os outros com a naturalidade de sempre. Não tinha o menor problema de discutir com Sasuke por coisas bobas, ajudar Kiba e Naruto em qualquer empreitada, ou perder tempo cozinhando com Neji.

O que só tornava gritante a diferença de tratamento que vinha recebendo.

Desejava no seu íntimo conversar com ela, entretanto, o que exatamente diria? Que não deveriam ter se beijado? Pedir desculpa por ter entrado em pânico e engrenar numa relação — ou seja lá o que aquilo fosse — com outra menina? Que sentia a falta dela, e da convivência que costumavam ter?

Nenhuma dessas opções lhe parecia boa o bastante, na verdade, o fato delas passarem por sua cabeça já era muito complicado.

— Um chocolate por seus pensamentos — Shiho disse ao seu lado, voltavam para a casa da professora depois de jantarem no Ichiraku Ramen.

A noite estava fresca, e a rua surpreendentemente vazia para um sábado a noite. O Nara soltou a mão dela para que pudesse acender o cigarro que tinha nos lábios.

— Não estou pensando em nada — mentiu, dando uma tragada profunda, a mulher ruborizou e desviou o olhar dos dele quando a encarou.

Foi impossível para Shikamaru não fazer certas comparações: diferente de Temari, Shiho não se importava com seu hábito de fumar, mas ele suspeitava, isso tinha mais a ver com o fato da Hisajima preferir não contrariá-lo, que sua tolerância ao cigarro — o que de certa forma deveria agradá-lo, entretanto, não fazia. Além disso, apesar de ambos fazerem parte do corpo docente da faculdade, não tinham muito sobre o que conversar, afinal, ele era um professor de física, e ela, assuntos relacionados a história e literatura. Na maior parte do tempo, a loira respondia com monossílabas ou acenos de cabeça.

Porém, sem dúvidas, o pior eram os beijos.

Se uma palavra pudesse resumir tudo, seria constrangimento. A timidez excessiva de Shiho sempre fazia com que se sentisse um tarado avançando o sinal, pois por mais recatado que fosse o contato, ela ficava muito nervosa e atrapalhada, o que acabava lhe contagiando, e a ação se transformava em algo desajeitado, confuso e embaraçoso — nada prazeroso.

Complicado.

— Duvido muito — Shiho devolveu, num gesto aflito, empurrou os óculos que haviam deslizado para a ponta do nariz — aposto que está pensando nela.

— Nela? — perguntou, voltando-se para encarar o rosto vermelho da Hisajima, estranhando mais a tagarelice, que o significado das palavras em si.

— Não sou burra, Shikamaru — não parecia irritada ao pronunciar as palavras — vi a forma como olhava pra Temari no dia da festa — o fitou com intensidade, como se pudesse decifrar sua alma da mesma forma que fazia com os livros, algo tão inesperado vindo dela, que o deixou no mínimo inquieto — e tá tudo bem, não sou uma má perdedora.

— Shiho...

— Deixe-me terminar — pediu gentilmente — te quis desde o primeiro momento que o vi entrando na universidade, e com a relação de trabalho para nos aproximar, a curiosidade se transformou em... fascínio — disparou as palavras rapidamente, num só fôlego, seus dedos brincavam nervosamente um com o outro — provavelmente tenha sido esse sentimento que me fez fechar os olhos para todos os sinais, você nunca esteve atraído por mim ou absurdamente interessado, como acontecia nas minhas fantasias.

Ele deveria negar, mas as palavras de Ino voltaram a sua mente fazendo com que a culpa pesasse sobre sua cabeça, realmente não nutria um interesse genuíno pela Hisajima, só a estava usando — e isso não era justo com nenhum dos dois.

— Sempre soube que minhas expectativas eram bem altas, quando não foram cumpridas só me enganei com a desculpa de ser o esperado — deu uma risada sem humor, tentando esconder o desalento — entende? Não tenho muita experiência nessas coisas, então não era um grande problema — seus olhos azuis melancólicos encontram os castanhos — até que vi a forma como olhava para ela.

Shikamaru abaixou a cabeça, concentrando-se na nicotina entrando em seus pulmões, rezando para conseguir fazer suas mãos pararem de tremer. Não era só culpa, sentia-se miserável, o pior dos vermes por magoar uma mulher como Hisajima Shiho.

— Sinto-me como se o meu shipp favorito tivesse ficado junto, tornando canon todas as fanfic que li e escrevi — o Nara não entendeu as referências, mas não a interrompeu — só que não foi como o esperado, não me parece algo certo, apenas decepcionante.

— Desculpa.

— Está tudo bem, ainda gosto de você e te acho fascinante, mas algumas pessoas simplesmente não são feitas para ficarem juntas — deu um pequeno sorriso.

Jogando o cigarro fora, Shikamaru se aproximou dela para fazer a única coisa que podia; a abraçou com delicadeza.

— Você é incrível — disse quando Shiho correspondeu com carinho.

— Eu sei, e só para que saiba, nas minhas histórias teríamos filhos lindos e inteligentes, então é isso que está perdendo.

A brincadeira o fez sorrir, deixando seu coração um pouco mais leve. Os olhos dela ainda refletiam tristeza, mas agora também tinha uma pitada de humor e resignação.

Estava acabado.

Shikamaru pensou sobre todas as possibilidades que estava perdendo com aquele término, sua vida pacífica e harmoniosa ao lado de alguém descomplicado, muito diferente do relacionamento da mãe e do pai, um plano que nutria desde a adolescência.

Entretanto, por algum motivo — que jurou, não tinha nada a ver com uma mulher problemática —, não conseguiu ficar lamentar por isso.

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