Praia

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Desde o encontro que tiveram, seu irmão estava insistindo para que se reunissem e conversassem sobre voltar a Suna. Kankuro não havia sido abertamente contra — apesar de estar tão desconfortável quanto ela com toda a situação por seus próprios motivos, ele não sabia lidar muito bem com a quebra de expectativas alheia e preferiria tomar veneno, a dizer para o caçula que voltar a sua terra natal seria um completo desastre. Logo, cabia a ela o amargo papel de tomar a decisão.

Entenda, desejava profundamente essa reconciliação, porém, não sabia ao certo como se comportar com o caçula e isso a deixava insegura. Claro, saber que Gaara não a culpava pelo passado foi um alívio enorme, entretanto, parte do arrependimento pelas escolhas que fez ainda estavam lá e encarar de frente tudo isso — relembrar o lar que havia deixado para trás — era um evento que podia evitar por um tempo.

Por outro lado, se virasse as costas para aquela oferta tão inesperada, talvez não houvesse outra chance de recuperar uma parte tão importante da sua família. No fim, seu passado não era composto apenas de coisas tristes, sentia falta da sua cultura, pessoas, comida, por Kami, até do calor infernal do deserto.

E mesmo que mínimo, o sentimento de pertencimento.

— Não acredito que Neji tem uma casa de praia e essa é a primeira vez que convida a gente — Ino reclamou ao seu lado — burguês safado.

— Ele não é burguês — defendeu Hinata, do banco de trás.

— Querida, todos os Hyuga são — a loira rebateu — passo pano pra você porque é a pessoa mais adorável que conheço, mas você cheira a herança de família.

— E sonegação de imposto — Sakura completou, rindo da cara de indignada da morena.

— Pelo menos ele emprestou a casa — resmungou Tenten, não totalmente inclinada a defendê-lo.

— E não fez mais que a obrigação dele — Ino se inclinou no encosto do banco até poder encarar a amiga — está no estatuto perpétuo de amizade, parágrafo 2, inciso 4, "amigos ricos tem por obrigação prover a parte fodida da amizade".

Temari tinha certeza que a utilização dos termos jurídicos estava incorreta, porém, não comentou.

— Sasuke também é rico, mas não te banca.

— Ele é mais ferrado que eu — encontrou o olhar interrogativo da Sabaku — problemas com o pai.

— E quem não tem — Temari devolveu.

— É — Hinata concordou.

— Com certeza — completou Tenten.

— Eu não tenho — Sakura contrariou as amigas.

— Testa de marquise, você está transando com um homem que tem o dobro da sua idade, e poderia facilmente ser seu pai — deu uma olhada sugestiva para a amiga — sabe, não preciso ser aluna de psicologia pra saber que Freud tem vários livros sobre isso.

— Vai se fuder, Ino.

— Que Kami te ouça e não me desampare!

Temari riu da provocação. Elas continuaram uma conversa descontraída no carro, desviando sua atenção dos pensamentos mais profundos que carregava consigo. A brincadeira e o senso de camaradagem que compartilhavam aliviaram a tensão que vinha sentindo.

Enquanto o carro seguia pela estrada costeira, ela observou uma paisagem deslumbrante ao seu redor. As ondas quebravam suavemente na praia, o sol brilhava no céu azul e o cheiro do mar preenchia o ar, era o tipo de cenário que fazia a preocupação e o peso dos problemas cotidianos desaparecerem.

Chegando à casa de praia, as garotas desceram do carro e se espalharam pela ampla varanda, admirando a vista. A mansão era flutuante, com janelas amplas que permitiam uma visão panorâmica do oceano.

Temari sentiu uma mistura de gratidão e melancolia ao observar o cenário idílico. Aquele lugar representava um refúgio, um momento de escapismo da realidade e uma oportunidade para reavaliar suas escolhas.

Enquanto se dirigiam para dentro, Hinata puxou a Sabaku para um canto, longe dos ouvidos curiosos dos outros.

— Você está bem? — perguntou com preocupação genuína nos olhos.

Temari suspirou, agradecendo a atenção carinhosa.

— Estou — mentiu.

Hinata a encarou com obvia descrença, no entanto, não a pressionou. Com total naturalidade, se aproximou e abraçou a amiga, de início Temari ficou completamente estática, mas logo relaxou. Não estava acostumada a esse tipo de zelo, e ainda se surpreendia ao se deparar com o afeto acolhedor da Hyuga.

— Mesmo estando bem — afastou-se para que seus olhos se encontrassem — se precisar conversar, estou aqui.

— Obrigada — não conseguiu falar qualquer outra coisa.

Com um sorriso gentil, Hinata se afastou indo em direção a casa. A essa altura, Ino já havia encontrado o armário de bebidas e a caixa de som.

Pouco tempo depois o carro dos meninos chegou, e a festa ficou completa. Foi necessária uma dose de diplomacia, leves ameaças e xingamentos para determinar quem ficaria com qual quarto. Depois de tudo resolvido, o grupo se reuniu em volta da piscina de borda infinita.

Kiba e Naruto, como duas crianças hiperativas que eram, logo engataram numa brincadeira boba de quem dava o melhor salto. Ino obrigou o namorado, Sai, a segui-la por cada canto tirando fotos para suas redes socias. Neji aparentava ser o rico que era, óculos escuros, bermuda e camisa fina de botão, protetor solar até o talo e uma cadeira de Sol ao lado da piscina, para Temari, ele exalava a áurea de herdeiro. Tal qual Sasuke, que usava quase o mesmo look, no entanto, encarava tudo com seu usual ar de arrogância. Já Hinata, parecia um camarãozinho alegre, destemida, não havia passado protetor solar, então tinha o rosto — e corpo — vermelho como tomate. Mas parecia extremamente feliz rindo das babaquices do namorado.

Tenten e Sakura fritavam no Sol de 32 graus.

— É um bom lugar — a Sabaku comentou, estava recostada na borda de uma piscina menor e rasa, que tinha um mini bar no centro, o lugar havia sido idealizado com um grande guarda sol que projetava uma sombra fresca durante todas as horas do dia.

— Privilégios do dinheiro — Shikamaru nem mesmo abriu os olhos pra lhe responder, esticou as pernas na água, acomodando-se melhor.

— É, algumas coisas compensam.

— Voltou a conversar com seu irmão? — distraidamente, ele passou a ponta dos dedos pelo braço dela até encontrar sua mão e entrelaçar seus dedos.

Diferente da primeira vez que o Nara tinha feito isso, Temari não se alarmou, apenas aceitou o movimento.

Ultimamente ele havia adquirido esse habito. Nada grande, ou invasivo, porém, o suficiente para ser notado — um roçar mais gentil de mão ou lábio, entrelaçar seus dedos, um beijo sem motivo, as vezes quando estavam deitados o percebia respirar profundamente, como se para sentir seu cheiro. Os toques foram fáceis de lidar, afinal, Shikamaru era novo em tudo aquilo de intimidade, poderia só não saber o protocolo a seguir com um P.A, no entanto, também existiam os olhares. Do nada acordava e estava sendo observada atentamente, ou quando estava puta gritando e esbravejando, no lugar de rebater, ele ficava parado como um imbecil a encarando com um olhar estranho.

Ah, e com certeza o sexo tinha mudado.

Ainda era bom, as vezes desesperado, mas sempre prazeroso, entretanto, em certos momentos Temari sentia algo além de desejo vindo dele, era uma espécie de adoração.

Não vá por aí, Sabaku. Ordenou para si mesma.

— Ainda não, tenho tempo pra lidar com isso.

— Certo.

Ela sabia que ele queria perguntar e verificar se estava bem, sua crise de choro do outro dia o deixou em alerta sobre o assunto, porém — e era uma das coisas que mais amava sobre ele — Shikamaru não a pressionou.

Naquela noite, enquanto riam, conversavam e desfrutavam da companhia um do outro, Temari ouviu que estava exatamente onde precisava estar — rodeada por amigos verdadeiros, pronta para enfrentar seu passado e abraçar um futuro cheio de possibilidades.

Colega de quartoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora