Ele não

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Amanda

Quando eu decidi que daria um jeito em minha vida, resolvi que focaria em meus estudos e seria dona do meu próprio dinheiro, e assim não dependeria do meu irmão jogador. Me formei em Fisioterapia, e atuava com um projeto do governo viajando pelo país atendendo as comunidades mais carentes. Passava 15 dias viajando, e 15 dias em casa.

Mas dessa vez havia pedido férias, desde 2019 trabalhando incasavelmente não era brincadeira. Oscar estava chegando da Europa, afinal ainda estava decidindo seu futuro em algum outro time, e eu estava morrendo de saudades do meu irmãozinho.

A última parada foi em uma comunidade ribeirinha do Amazonas. Logo depois fomos de barco para a capital onde cada um dos membros do projeto voaram de volta às suas cidades. Fui para São Paulo, e do aeroporto peguei um uber para a casa da minha família.

Eu tinha meu próprio apartamento, mas quando eu chegava de viagem gostava de ficar os primeiros dias com minha mãe, e agora que Oscar estava chegando eu tinha um motivo a mais para ficar, até porque assistiríamos os jogos da Copa juntos.

O carro parou em frente ao condomínio, peguei minha mala e mostrei minha credencial na portaria. Assim que minha entrada foi liberada, eu andei por duas quadras até chegar em casa. Dei duas apertadas na campainha e logo a minha mãe abriu a porta.

- Mand! - ela disse e me abraçou calarosamente. - Como mamãe estava com saudades de você! - ela me apertou em seu abraço, mas logo me soltou.

- Foram só quinze dias, mãe. - dei uma risadinha. - Vivemos isso há três anos!

- Eu sei, mas sempre parece uma eternidade. - ela disse e rimos juntas. - Mas é bom saber que você está fazendo bem ao próximo...

- Papai ficaria orgulhoso. - sorri e o olhar da mamãe se encheu de lágrimas.

- Eu não tenho dúvida. - ela sorriu e pegou em minha mão. - Vem, quero te mostrar uma surpresa.

Ela disse me puxando para dentro de casa. Assim que cheguei na sala já avistei meu irmão, sua esposa e seus dois filhos. Não estava acreditando naquilo. Ele simplesmente saiu de onde estava e me abraçou.

- Surpresa! - ele disse ainda abraçado comigo, mas logo nos separou e ficou segurando meus ombros. - Não te vejo desde o Natal passado. Pintou o cabelo, está tão linda...

- Onw, gentileza sua. - sorri e segurei seu rosto. - Porque não disse que viria hoje? Eu achei que ia te esperar no aeroporto...

- Eu quis fazer surpresa! - ele disse rindo.

- Então era bom ter ido me buscar no aeroporto. - falei jogando o corpo para frente mostrando está cansada.

- Eu falei, mas Oscar nunca me escuta. - Lud disse e revirou os olhos andando em minha direção, Oscar me soltou e sua esposa pôde me abraçar. - Estava com saudades, baby.

- Ah, eu também estava, cunhadinha favorita. - falei apertando o abraço e rimos.

- E única, por favor! - ela falou separando o abraço e rindo.

- Já que tocamos nesse assunto: quando que Amanda vai trazer um pretendente? - Oscar perguntou e eu revirei os olhos sentando ao lado de mamãe no sofá. - Achei que quando chegasse aqui eu teria um cunhado!

- Tem o marido de Dani, maninho. Sossega! - falei e todos riram. - Falando em Dani, onde ela está?

- Vem apenas amanhã, para assistirmos a abertura da Copa. - disse mamãe.

- Ai, Copa do Mundo... - falei e respirei fundo. - Tantas lembranças... em dois mil e quartoze estávamos todos na abertura. Exceto Lud pois tinha acabado de ter Júlia, agora a pequena tem oito aninhos, temos Caio de seis... e a espera de mais um Emboaba.

- Tantas lembranças. - mamãe disse e suspirou. - Boas e ruins.

- Eu quer o diga. - sorri fraca. - Mas não temos que nos lamentar por nada. Nossa seleção tem mais uma chance do Hexa!

- Tem razão! - Lud disse animada. - Mal posso esperar para assistir aos jogos com vocês.

- Ah, chamei alguns amigos para assistir a abertura com a gente. E alguns jogos também. - disse Oscar e mamãe e Lud ficaram animadas.

- É sempre bom ter a casa cheia. - mamãe disse. - Vou pedir para prepararem algumas coisas para suas visitas então.

- E para sua filhinha que acabou de chegar de viagem? - perguntei fazendo biquinho e mamãe riu.

- Sempre fazendo chantagem! Isso não vale, desde criança você faz isso! - Oscar disse e eu revirei os olhos, e em seguida mostrei-lhe a língua fazendo mamãe rir da cena.

- Calma, crianças. - mamãe disse. - Tem bolo de cenoura para todo mundo!

- Bolo de cenoura? - perguntei animada e mamãe assentiu.

Encarei Oscar, e ele entendeu meu olhar. Saímos correndo até a cozinha, nos batendo em disputa para ver quem chegaria primeiro como se fóssemos crianças. Chegamos na cozinha e cada um pegou um pedaço em um pratinho, e depois retornamos para a sala. Minha afilhada Júlia apareceu e ficou agarrada comigo um bom tempo.

Ficamos todos reunidos na sala colocando o papo em dia um bom tempo, até que o cansaço bateu. Já era início de noite, então me despedi de todos e fui com minha mala para o quarto. Tomei um banho,

coloquei um pijama quentinho, e sem pensar duas vezes me joguei na cama. Só queria dormir.

•••

O dia seguinte parece que chegou mais rápido que o esperado. E do meu quarto eu já sentia cheiro de churrasco, escutava vozes falando no quintal, e a música estava nas alturas. Tinha esquecido que sempre que Oscar estava em casa havia dessas coisas.

Levantei um pouco irritada por ter o sono interrompido, fui para o banheiro, tomei um banho rápido e escovei os dentes. Coloquei uma roupa fresca pois parecia que o clima lá fora estava torrando.

Peguei meu celular, e sem seguida saí do quarto e desci as escadas. Passei pela sala e não havia ninguém, e então fui para a sala de jantar que estava cheia. Minha e Oscar estavam recebendo algumas pessoas... e eu sabia quem eram aquelas pessoas.

E os conhecia muito bem.

Regina, Ladislau, Isabelle... e David.

David Luiz estava bem ali.

Depois de oito anos.

Seu olhar se cruzou com o meu, e seu sorriso morreu. Ele estava usando uma touca que prendia todos os seus cachos descoloridos.

Eu senti minha garganta ficar seca, minhas pernas bambas e um frio percorrer o meu corpo... depois de tanto tempo! Oscar não podia ter trago ele aqui, não mesmo!

Dei um passo para trás, e quando todos eles me olharam eu corri de volta pelo caminho que havia chego.

- Amanda! - escutei mamãe gritar atrás de mim. - Amanda!

Fingi que não estava escutando. Subi as escadas rapidamente, bati a porta do meu quarto e tranquei a mesma. Deslizei ali, e fiquei respirando fundo tentando controlar a respiração, meu peito doía e eu só queria pensar em fugir dali.

- Amanda! Abre a porta, precisamos conversar! - escutei a voz de Oscar, e em seguida suas batidas frenéticas na porta.

- Eu não quero falar com você, Oscar. Sai daqui! - gritei com toda a raiva que eu estava sentindo.

- Mands, já faz oito anos. - Oscar disse do outro lado da porta e eu dei uma risada irônica.

- Podem se passar dez, quinze, vinte anos. Eu não quero saber, Oscar! - falei ainda com raiva.

- Eu não vou sair daqui até conseguir falar com você.

- Então fique pronto para passar o dia aí. - falei.

Continua...

eterno • david luiz (CONCLUÍDO)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora