Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
EU NÃO ME LEMBRO, MAS DEVE haver uma época em que a vida era simples, momentos em que eu não tinha medo de ser insuficiente, onde não existiam traumas ou feridas profundas. Eu tinha uma família feliz, também gostava bem mais de mim. Fui uma pessoa melhor, menos explosiva, mais bondosa.
A adolescência é fogo, mas os meus problemas começaram muito antes e parte disso é culpa do próprio tempo.
A infância é um período complicado também, mas se fala pouco sobre isso. É engraçado como tudo o que acreditamos sobre nós é moldado pelo que as outras pessoas dizem que somos. Se a minha mãe diz que sou uma boa desenhista, então eu sou a melhor entre todas as outras crianças. Do mesmo modo, se vou mal em uma prova e a professora diz que sou burra, não sou apenas isso, sou a mais burra de todas.
A nossa autoestima é moldada desde a infância e, apesar dessa lógica dos extremos ser superada ao longo dos anos, algumas noções sobre nós mesmos são quase impossíveis de serem desfeitas.
Desde pequena, eu nunca pensei que fosse boa o bastante em algo.
Meus desenhos eram bons, mas não eram perfeitos ou melhores que os dos meus colegas. Eu era uma boa jogadora de futebol, mas não o suficiente para derrotar o melhor do time dos meninos. Eu era uma boa filha, achava que sim, mas não o suficiente para os meus pais, porque logo chegou Hongjoo.
Aos seis anos, quando minha irmã nasceu, tive minha primeira grande perda: o amor e atenção total dos meus pais. Senti raiva dela por um tempo, aos poucos estava tirando tudo de mim. Não podia ficar no colo da mamãe, porque Hongjoo precisava ficar; não podia ir ao parque aquático, porque ela era muito pequena, não podia ouvir as histórias para dormir porque a mamãe estava desesperada tentando fazer ela parar de chorar e dormir.
Não é justo sentir toda essa raiva, principalmente porque os meus pais estavam tentando muito dar conta de tudo. Mas eu era apenas uma criança, não entendia nada disso. Para a pequena Yoonjoo, Oh Hongjoo era o problema de tudo. Foi ali que a nossa relação desandou, as brigas começaram, eu comecei.
Alguns nos depois, o pior aconteceu. Nosso pai nos deixou enquanto implorava para mamãe levar eu e Hongjoo de volta para a terra firme. Ele estava com ela no braço, a mais nova chorava com a chuva forte, papai gritava para a mamãe, mandava voltar. "Vai, não olha para trás", foram as ultimas coisas que eu ouvi ele dizer. É ruim ter essa memória, principalmente quando ela não vem mais acompanhada da sua voz, porque o tempo já se encarregou de me fazer esquecê-la.
Depois daquilo eu fiquei uma semana incomunicável, nenhum som saía da minha boca. Parece com como Hongjoo está agora. A nossa relação também piorou, porque eu comecei a culpá-la pelo acidente, porque se não fosse ela o papai poderia se preocupar unicamente em salvar a si mesmo e eu ainda teria o seu abraço todas as manhãs.