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A parte mais difícil de ser uma pessoa autista, ao menos no ponto de vista de Lee Minho, era viver em um mundo à parte do restante.

Ele pensava que sua mente era quadrada; se existia uma norma, 100% dela deveria ser cumprida à risca. Abrir exceções não apresentava grande sentido. Parágrafos são criados para esse tipo de situação. Mas quando não se estava falando de leis, Minho se perdia um pouco mais. Ele soava um pouco mecânico, se esforçando para decodificar o código de outras pessoas para processar o que era "adequado".

Lembrava-se que sua carreira era marcada por atos "inadequados". Ele era convidado por seu chefe quase que mensalmente para conversar sobre o porquê Minho falou de um jeito ruim com o cliente — para questionar o seu comportamento, a seleção das palavras e o quanto pareceu fora do que inicialmente do proposto. Minho não era flexível, era direto demais e por vezes causava mal-entendidos por sua inaptidão emocional e social. Minho nem notava, apenas quando algum colega de trabalho o cutucava ou mandava mensagem lhe dizendo: "respire ou você vai soar ainda mais indelicado".

Minho não sabia quando era para responder, quando era melhor ficar em silêncio ou esperar. Ele seguia procedimentos, pois era o que foi apresentado como seguro para ele desde que jamais considerou sua mente confiável para lhe guiar, embora fosse inevitável.

Isso lhe rendeu sofrimento. Escutar que ele precisava mudar deixava um sentimento residual de mágoa e impotência. Quando ouvia de seus colegas algo como "Oh, Minho é estranho, ele é meio grosseiro e parece maltratar os outros... mas não o demitem porque ele trabalha bem". O que ele era como pessoa não era bom, afinal?

Seu dia era produtivo se não tivesse que interagir em reuniões. Optava por ler cem páginas contratuais ao ter que partilhar uma hora com outra pessoa. Minho tendeu a se isolar muito e a exceção da regra foi Chan, o seu melhor amigo.

Chan amava Minho como ele era. Minho podia ser quem ele era sem que uma represália fosse iminente. Se ele dissesse algo que não passou por seu "setor emocional", Chan iria evidenciar de um jeito como: "Olha como fala porque eu sou seu melhor amigo!" e o ajudava a reformular, para reproduzir em situações similares. O motivo para Minho ser maleável era: Chan era seu melhor amigo e genuinamente se importava consigo, com o seu bem-estar, era compreensível com as condições de seu diagnóstico, suas particularidades, e não o cobrava exaustivamente nem mesmo quando Minho não respondia suas mensagens.

A caixa de mensagem do celular de Minho estava cheia. Ele não era simpatizante de conversas virtuais, apenas conversava online o que era indispensável ou prendia absolutamente o seu interesse. As pessoas diziam que era difícil manter contato com ele sendo que ele só estava fazendo o que era mais confortável para si.

A terapia era o seu principal método de tratamento. Ele gostava de seu terapeuta norte-americano e passava três horas mensais muito bem aproveitadas. O terapeuta dizia que Minho era excelente em colocar a terapia em prática e que a cada vez mais ele estava avançando. Minho arriscava dizer que — mesmo sem querer — construiu uma amizade agradável com o senhor Mill.

Se não fosse pelos tratamentos e pelos agentes positivos presentes na vida de Minho, ele julgava que viver seria tão insuportável, que iria desistir.

— Eu trouxe leite de banana.

Chan adentrou o escritório particular de Minho com duas caixinhas nas mãos e um sorriso fofo como se estivesse indo visitar uma criança. Minho sorriu para ele e autorizou que entrasse, trazendo sua empolgação consigo.

— Como você está tão feliz em uma reunião onde vamos falar sobre uma ação judicial de penhora e Direito de Família? — disse e pegou uma das caixinhas, observando o outro sentando-se na cadeira do outro lado da mesa. — Você parece um peixe-dourado.

VERÃO AUSTRALIANO | CHANLIXOnde histórias criam vida. Descubra agora