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Não era como se convivência fosse sinônimo de vínculo afetivo.

Minho não mantinha contato com algumas pessoas, não frequentemente, e isso não anulava o laço que possuíam por consequência, por bem ou por mal. Ele estava se questionando sobre isso quando levou um susto assim que Jisung afundou na poltrona ao lado, dentro do carro.

Ainda absorvendo que estavam se encontrando após semanas, cauteloso Minho voltou-se para Jisung e suspirou ao entrar em contato com sua natureza refrescante e beleza imensurável. Os cabelos dele eram escuros e apresentavam um comprimento considerável, coberto por um boné branco. Ele não havia se vestido adequadamente para aquela ilustre ocasião. Usava um moletom preto, calça jeans e All Stars preto.

Repentinamente Minho constatou que preto era a sua cor favorita. Ele adorava azul, mas preto soava mais atraente.

Com dois meses de gestação, não era como se algum contorno fosse mudar muito na aparência de Jisung. Ele não engordou, não ganhou mais volume nas bochechas, apenas teve a concessão de bons aspectos como pele reluzente e cabelos sedosos. O que o diferencia dos outros dias, fisicamente, era um inchaço tímido em seu abdômen. No entanto, era quase que imperceptível. Jisung estava bem, parecia saudável.

— Antes que você brigue comigo, eu esqueci de comparecer ao último ultrassom.

O ultrassom do primeiro mês.

Jisung sabia que os procedimentos eram importantes para Minho. Contudo, honestamente, precisou tirar um tempo. Ele queria assimilar sua decisão final e se acostumar com a ideia sem surtar. De fato, ele decidiu que não enxergaria a sua paternidade indesejada como o fim do mundo. O problema estava exatamente em ela inevitavelmente fidelizar a presença de Minho em sua vida.

De longe, não estavam em um relacionamento. Eles conviviam, na verdade. Desde o último encontro dramático em que discutiram e perderam ao menos dez anos de vida cardíaca, Jisung apenas informou por ligação que estava bem em seguir em frente e que estava com medo. Minho ficou tão nervoso, que desligou a chamada e nunca mais retornou.

Por isso, ambos não se encontraram para irem juntos ao consultório médico realizar os procedimentos do pré-natal. Jisung postergou, ele foi negligente de propósito. No segundo mês, Minho o ligou e pediu para acompanhá-lo — ele marcou as consultas periódicas, cuidando de absolutamente tudo e sem comentar com Jisung, que se sentiu irritado por ter sido abandonado. Se Minho não fosse constante, se ele não pudesse ser consistente em seus posicionamentos, Jisung não iria se dar ao trabalho de tentar contar com ele.

Minho era obcecado por trabalho, pelo mundo jurídico, tudo fora disso estava longe de ganhar um foco relevante. Ele se sentia mal por isso, porque sabia que estava agindo como um idiota porque ele tinha mais problemas internos do que vontade de resolvê-los. Tentava e tentava muito; por isso ele nunca quis colocar ninguém em sua vida, não gostaria de prejudicar outra pessoa com suas manias, seus bloqueios e os demais sintomas relacionados a sua condição.

— Não vou brigar com você — respondeu calmo, ligando o carro. — Sinto muito por não ter ligado.

Para Minho não era difícil pedir desculpas e reconhecer um erro, mas ele detestava lidar com as consequências de suas ações insensíveis. Ele tinha tempo para refletir sobre a paternidade, porém Jisung não teve esse espaço, essa alternativa, e isso era injusto.

Virando de lado, Jisung deu de ombros e focou na paisagem que passou a se desenhar do outro lado das janelas fechadas. O dia estava nublado. Era sua estação favorita. Ele adorava a natureza morta.

— E o Haru?

Eles não falavam sobre o Haru. Realmente, funcionava como se o bebê fosse o filho perdido o qual não abriam mão da memória. Jisung queria Haru de volta e Minho sabia, mas discordava da ideia e considerava que seria melhor se esquecessem tudo o que aconteceu, porque era mais seguro e precisavam focar na criança que estava na barriga de um deles.

VERÃO AUSTRALIANO | CHANLIXOnde histórias criam vida. Descubra agora