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A louca teoria

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David entrou no consultório de Patrícia. Uns minutos depois chegou Miguel. Após Patrícia apresentar todos, sentaram-se á volta da secretária.

 
Patrícia começou então, dirigindo-se para o investigador:
- Aqui, o meu amigo David, elaborou uma teoria sobre os desaparecimentos. Contei a ele sobre toda a situação. Sei que nos pediu descrição sobre o assunto, mas contei a ele pois também é psicólogo e psicanalista como eu, e pedi-lhe a opinião. É possível que ache a teoria um pouco louca e surreal, mas ouça-o, se faz favor.

 
Miguel olhou para o David com alguma curiosidade. David olhou para Patrícia, depois para Miguel.

 
- A minha tese pode ser um tanto difícil de entender, mas vou tentar explicar de forma que possam entender. Desde que tenho um consultório, recebo vários pacientes com problemas de depressão, ansiedade e distúrbios de sono. Notei que os pacientes com depressão não sonhavam durante a noite. Observei que tinham problemas no seu subconsciente. Propus-lhes sessões de hipnose para conseguir reverter o processo. Grande parte deles me diziam, que depois das sessões sentiam-se como se tudo fosse um sonho á noite. Alguns até me relatavam que durante o dia tinham uma espécie de alucinações, como se estivessem num sonho. Acompanhei alguns deles, com depressões mais profundas, em sessões noturnas de hipnose e audição do sono, e tivemos de parar algumas vezes a terapia durante as experiências, pois estes entravam numa completa catarse, como um coma profundo. Os sinais vitais iam para mínimos históricos.

 
David fez uma pausa, todos olhavam para ele, com curiosidade estampada no rosto á espera do resultado da conversa. Miguel fitava-o com ar incrédulo, mas sereno.
- Já fiz várias terapias de sono com pacientes com ansiedade e problemas do sono, mas nunca tinha visto resultados assim. Uma das raparigas até ficou assim por dois dias, quando acordou disse-me que tinha estado no sítio mais feliz da vida dela. Relatou-me que todo o sonho foi algo que sempre desejou. Todos de nós que acompanhavam as terapias ficámos fascinados com os resultados, mas com muito receio de continuar, pois cada vez mais os sintomas durante o sono eram preocupantes demais. Então deixámos de fazer aquele tipo de terapias. Acho que o caso dos desaparecidos seria o resultado final se tivéssemos continuado.  

 
- Ok, até um certo ponto acho que era viável a teoria - argumentou Miguel – mas se dizes que quem tem depressão não consegue sonhar, então como é possível os que desapareceram entrarem nesse mundo dos sonhos, se nem sonhar conseguiam.

 
- Sabes, há pelo menos três assuntos que o conhecimento e compreensão do ser humano ainda é ínfimo. O universo, os oceanos e a mente humana. Por mais que conhecemos e estudarmos esses três assuntos, ainda haverá muito por descobrir e desvendar. No caso da mente humana, ainda estamos aquém de um profundo conhecimento seu. Há muitas teorias e teses, mas, ainda temos muito para estudar e compreender. É um assunto complexo demais. A esse estado da depressão, em que nem sonhar conseguem. Mas há estados diferentes desta. Como o caso do suicídio, em que a mente desliga literalmente vários alarmes de sobrevivência que o nosso cérebro tem, assim como o caso de apatia e catarse em que esses pacientes se encontram. Há casos de pacientes, que antes de cometerem tal loucura, já estão tão convencidos, que o seu estado é confundido com pura recuperação. Assim como, um estado de depressão, que aliado a ansiedade, lhes confere um índice elevado de imaginação, o que poderá se revelar estes casos, penetrando mentalmente em outro mundo mental. Mas como digo, tudo, muitas vezes, passa por pura especulação. Toda a mente humana é ainda algo complexo de se compreender.
Miguel foi ouvindo com atenção, todos os argumentos dele.

 
- Mas há um aspeto premente e indiscutível. O facto que nem nós, investigadores, conseguimos explicar. Os corpos? Para onde foram? Para lá?
- Essa parte não tenho nada para argumentar. Acho que sim, mas tentar fundamentar isso, parecia demasiado louco, não?

 
Paulo, que esteve em silêncio até então, perguntou a David:
- Haveria a possibilidade de fazeres a terapia comigo? Mas completa. Para de uma vez por todos sabermos se a teoria está certa. Eu posso voluntariar-me e assinar um termo de responsabilidade, se for preciso. O desaparecimento da minha filha deixou-me mal demais e, agora, ouvir esta teoria, que poderá ser a única explicação para os desaparecimentos, poderá me levar á loucura se não tentar. Já estou disposto a tentar de tudo por ela.

 
Patrícia olhou estarrecida para o Paulo. Toda aquela reunião estava a ser surreal e cada vez mais subia para uma loucura fora de série. Mas. Era isso que estava a acontecer mesmo. A situação cada vez parecia ser mais louca.

 
- Eu também quero tentar isso. Tenho de o fazer pela minha irmã – disse ela, prontamente.
- Têm certeza? Não vos posso garantir total segurança clínica. Nós parámos a terapia por causa disso. Iríamos entrar em algo ainda desconhecido.
- Sim, quero tentar. Poderá ser a única hipótese de salvar as pessoas e quero tentar. - respondeu ela, com certeza na voz.

 
- Então, quando querem tentar isso? – perguntou David, já mais convencido da decisão deles.
- Pode ser já esta noite. Vamos jantar juntos, discutimos todo o processo, e vamos para o consultório iniciar a experiência. - disse Paulo.

 
Todos concordaram.
Jantaram juntos num restaurante ali perto.
Durante o jantar conversaram sobre as circunstâncias dos desaparecimentos.
- A tua teoria é um pouco maluca, - afirma Miguel – mas poderá ter alguma lógica dentro dela. Eles desapareceram durante o sono. Foi aí que parámos a investigação. Daí para a frente, a lógica não nos dava fundamentos.

 
- Também nesse aspeto, estou fora da minha zona de estudo. Uma coisa é a mente viajar nos sonhos, na imaginação, outra coisa completamente diferente, é o corpo ir atrás. O sonho e a imaginação é um mundo mental, não material. Não consigo arranjar uma explicação lógica para o corpo desaparecer. Mas creio que foram para esse plano juntos.
Todos continuavam admirados por tal acontecer em vários espaços ao mesmo tempo. Era uma coincidência muito curiosa.

 
Sentia-se o nervosismo premente entre eles. Pensavam em vários cenários. O desconhecido da ciência esperava-os. Será que iriam fazer história ou iam abrir uma caixa de Pandora. Todo aquele futuro oculto os amedrontava.
Depois de jantar, dirigiram-se para o consultório de David.

 
Miguel seguiu-os também. Queria estar de perto, para acompanhar o processo e estava curioso de ver o resultado. Embora tivesse só trinta e cinco anos já tinha um vasto historial de contatos com coisas e acontecimentos bizarros. Além de que queria poder ajudar a desvendar aquele mistério dos corpos desaparecidos e por mais loucura que aquela teoria parecia, era a única teoria até então. "Para algo anormal, só uma teoria surreal" pensou ele.

 
Era um investigador competente, tinha dado provas disso durante a sua carreira como investigador. A sua intuição tinha-o levado longe. Mas agora, todo aquele caso estava a surpreendê-lo. Mas tinha sempre uma mente aberta para tudo. Durante todas as investigações, optava sempre por colocar todas as explicações plausíveis, mesmo aquelas que tinham pouco fundamento e pistas.

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