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Portuga
- Tu tá passando nego do movimento agora - Lobão jogou meu baseado longe e me jogou na parede, me prendendo pelo colarinho - tá ficando maluco?

- Não faz barulho caralho - o empurrei e ajeitei minha camisa - a mina tá aí

- Que mina? Que mina? - ele andava de um lado pro outro com a arma em mãos

- Os cara iam estuprar ela lá no bar, se quiser conferir pergunta lá pro dono, fiz o que tinha que ser feito, é a lei do morro e tu sabe disso

- Jae - ele guardou a arma e passou a mão pela boca

- Qual foi?

- Tá sabendo do Dendê e do piloto?

- Não

- Não?

- Não, ele tirou o dinheiro dele que tava investido no comando

- Calma aí, calma aí? Como assim, como assim ele tirou o dinheiro e tu não ia avisar nada não, Portuga?

- Calma, isso foi ontem a noite cara. Ele falou que ia encontrar com o Dendê inclusive, falou com ele? - ele balançou a cabeça negativamente e começou a bolar um - também achei estranho essa retirada do nada, mas o dinheiro é dele, não tinha o que fazer. Fala porra, tá tudo bem com o Dendê?

- Tá. Consegui falar com ele, ele falou vai colar aqui - ele deu um trago - mas por hora é pra segurar tudo, sem comércio e carregamento

- Jae

- E me avisa se você souber alguma coisa do piloto lá

- Jae. Me avisa também, por favor

- Por que? Por que? - ele voltou a ficar nervoso

- Como assim por que? O cara faz parte do meu esquema, se deu merda com ele, eu tenho que arrumar outro esquema - ele me examinava, não convencido - qual foi, Lobão? Tá achando que to contra o Dendê? - desde a saída dele da favela, movimentos pra tirar ele do comando vinham acontecendo, essa parada tava deixando nós desacordado

- To achando nada não, só to te passando uma visão

- Ata - permanecemos de frente um pro outro

- Te amo moleque - ele me deu uma chave apertada - ela tá aí dentro?

- Tá - dei três tapas em seu braço, o fazendo me soltar

- Deixa eu ver - ele tentou entrar e o fechei com o corpo

- Ver o que porra

- Se não é a garota que tão procurando lá embaixo

- Que garota é essa

- A filha de coração de Dona Sônia, sumiu depois do pai tentar apagar ela - ele apertou os lábios um no outro, balançando a cabeça de um lado pro outro, negativamente

- É ela - apertei a testa

- Caralho - ele levou as mãos na cabeça - depois de uma coça ainda ia ser traçada pelos vagabundos

- Se liga na pika

- Pika? Caralho Portuga, pika é o que eu tenho, isso aí é uma piroca

- Qual foi cara - ria ainda encostado na parede - vou resolver

- É, vai mesmo, Dendê ficou sabendo e quer que a gente passe ele

- Caralho - passei a mão pela boca

- Cabeleira já tomou a ordem

- Cabeleira o caralho - ele riu enquanto tragava

- Vou ralar - ele amassou o baseado e o jogou longe - quando tu for pra dentro, pede pra ela dar uma ligada pra dona Sônia

- Beleza

- Falô moleque - ele deu de costas, seguido de mais três homens fortemente armados

Entrei pra dentro e a vi debruçada nas escadas com a cabeça entre os braços

- Desce aí - assoviei voltando sua atenção pra mim

- Não tava lá quando acordei - ela apontou pra cima e se jogou no sofá

- Eu tava aqui o tempo todo - puxei o celular da cintura e dei em sua mão - você tem que ligar pra dona Sônia

- Gostei das suas tatuagens, doeu pra fazer? - ela desviou do assunto, passando a mão pelo meu braço

- Aí - segurei sua mão com força e ela logo a puxou de volta, assustada. Passei a mão pela boca, percebendo o que acabara de fazer

- Eu vou embora - ela levantou com a mão na barriga, agora, de cara fechada

- Pra onde? - levantei atrás dela rapidamente

- Pra algum lugar - ela me deu de costas e foi para a porta

- Pra onde? - fui pra frente dela, bloqueando sua passagem

- Não sei, pra casa da dona Sônia, pra da Maria Luiza, eu não sei - ela apertava testa

- Tu não pode ir agora não

- Não posso? E por quê? - ela se debruçou sobre mim

- Ordem do comando - a afastei

- De me prender aqui contigo? Não mesmo - ela correu pro celular no sofá, rapidamente fui pra cima dela e começamos a lutar pelo aparelho

- Larga

- Larga você, o que tá fazendo?

- Nós não achou o velho ainda - subi em cima dela e estendi a mão ao alto com o celular

- Sai - ela me empurrou com força e caímos no chão, invertendo as posições

- Minha cabeça porra - me contorcia de dor com dificuldade, com ela em cima de mim

- Eu falei pra sair - ela pegou o celular e começou a apertar impacientemente os botões - como que mexe nessa coisa? - ela continuava tentando

- Tá de sacanagem - começamos a rir alto, ela logo saiu de cima de mim, se deitando ao meu lado

AMANTESOnde histórias criam vida. Descubra agora