Passaram dois meses.
Esteves sorria ao ver Rodolffo todo atrapalhado com as artes da lavoura. O homem andava todo desengonçado. Via-se o cansaço no rosto e até emagrecera alguns kilos, mas era esforçado. Perguntava quando tinha dúvidas e estava sempre pronto aprender.
Ao final do dia de trabalho fazia questão de ser ele a guardar todas as ferramentas para assim poder ficar só para ver a sua amada.
- Vejo-te muito cansado, Rodolffo. Tu vê lá não adoeças.
- Lá isso estou. Tão cansado que não vou poder fazer o que tinha vontade.
- Vai para casa e descansa. Hoje também não me sinto bem.
- O que tens?
- Creio que teremos que anunciar o nosso casamento mais depressa do que programámos.
- Vamos ser pais? Mas eu estava a pensar que era altura de pedir licença à tua tia para te cortejar!
- Teremos que saltar esse passo. Rodolffo, este mês as minhas regras não vieram e eu cuido estar de esperanças.
- Então foi por isso que quiseste voltar a morar aqui.
- Tia!!! Não a esperava. - os dois ficaram assustados ao ver entrar tia Henriqueta.
- Por sorte na aldeia ainda ninguém desconfiou. Tu queres ser mal falada, rapariga?
E o primo Rodolffo? Esses são os modos que os seus pais lhe ensinaram lá na cidade?
- As minhas humildes desculpas eu peço, mas as minhas intenções com Juliette são as melhores.
- Tia, fui eu que não deixei ele falar consigo porque a minha prima Cristina tinha uma paixão por ele. Eu não queria magoá-la.
- Por ele!! Por ele e por todos os moços casadoiros.
- A senhora sabia?
- Sabia. Agora parece que se acertou com o professor.
Vamos tratar do vosso casamento antes que essa criança nasça.
- A tia não está magoada?
- Porque haveria estar? Olho para ti e vejo-me ao espelho. Também eu tive sorte de encontrar um bom homem que não me abandonou. Nós mulheres agimos com o coração e pode dar muito errado. Imagina se esse meliante regressava a Lisboa e te deixava com uma criança nos braços.
- Tia Henriqueta, por quem me toma? Eu jamais faria isso.
- É bom que não faça senão obriga-me a ir atrás de si. Agora vou regressar. Já vi o que tinha a ver. Boas noites.
- Boas noites tia e obrigada por entender.
- Hummm, sussurrou Henriqueta saindo porta fora.
- Domingo iremos juntos à missa para que as pessoas vejam. É preciso acostumá-las.
A aldeia quando soube ficou admirada. Estranharam a rapidez dos acontecimentos, mas não ousaram proferir nenhum comentário depreciativo sobre a relação.
Pessoa sempre muito estimada, a fidalga dava emprego a mais de metade da aldeia assim como sua tia. Ninguém teria coragem para falar mal dela com medo de ficar sem trabalho.
Até mesmo os que não trabalhavam para ela. Juliette ajudava sempre os que precisavam e era comum cada morador daquele lugar receber uma cesta dos mais diversos produtos no Natal e Páscoa.
Para alguns era a oportunidade de terem uma ceia de Natal ou almoço de Páscoa digno.
Por tudo isto aceitaram a novidade e Rodolffo passou a ser visto com outros olhos pela população.
