KATHERINE STEPAN:
O ginásio estava cheio de vida naquela manhã, como sempre. As meninas conversavam em voz alta enquanto amarravam os cadarços dos tênis ou ajeitavam os cabelos em rabos de cavalo apressados. O som da música ambiente reverberava pelas paredes, mas, para mim, tudo parecia abafado. Como se houvesse uma camada invisível me separando do resto do mundo.
Estava sentada no banco da arquibancada com as pernas cruzadas e o caderno de anotações no colo. Normalmente, seria meu momento favorito do dia: revisar os passos da coreografia, organizar os ensaios e colocar o time para trabalhar. Mas, naquele momento, nada parecia encaixar direito.
Peguei o celular ao meu lado e desbloqueei a tela pela quinta vez nos últimos minutos. Abri o chat com Billie. Nada. A última mensagem que enviei ainda estava ali, sem resposta: "Oi, tudo bem?".
Suspirei, guardando o celular de volta no bolso. Tentei me convencer de que era só coisa da minha cabeça, mas uma sensação estranha estava me incomodando desde cedo. Billie nunca demorava tanto para responder. Pelo menos, não quando sabia que eu ia ensaiar.
— Katherine! Tá na hora de começar, — Dora me chamou, do outro lado da quadra.
Assenti, fechando o caderno e me levantando. Não podia me dar ao luxo de ficar distraída agora. O time dependia de mim para fazer a coreografia funcionar.
— Certo, pessoal, todo mundo no centro! — chamei, batendo palmas para atrair a atenção delas.
As meninas se alinharam em duas fileiras no meio do ginásio, ajustando suas posturas. Caminhei até elas, tentando parecer mais animada do que realmente estava.
— Hoje, vamos focar nos giros e na transição para o final da coreografia. Quero ver todo mundo dando o máximo, entendido?
— Sim, capitã! — elas responderam em coro, arrancando um pequeno sorriso meu.
Era impossível não sentir orgulho delas. Mesmo nos dias mais difíceis, aquele time conseguia me fazer lembrar do porquê eu amava dançar.
Começamos o aquecimento com alongamentos básicos. Enquanto liderava os movimentos, meus olhos vagavam pela quadra, parando de vez em quando na porta do ginásio. Normalmente, Billie aparecia ali. Não dizia nada, só encostava na parede com aquele sorriso torto, como se quisesse me distrair de propósito.
Mas hoje, ela não estava lá.
— Katherine, tá tudo bem? — Dora perguntou baixinho, parando ao meu lado.
— Tá sim, — respondi rápido, sem olhar para ela. — Só quero que o ensaio saia perfeito hoje.
Dora me encarou por um segundo a mais do que o necessário, mas não disse nada. Ela sabia que, quando eu não queria falar, era melhor deixar pra lá.
Depois do aquecimento, passamos para a coreografia. Coloquei a música e ajustei o volume para que as meninas conseguissem ouvir os tempos. Os primeiros passos saíram meio desajeitados, como sempre. Era o começo, e elas ainda estavam se ajustando.
— Mais fluidez nos giros, Lilly! E, Noah, cuidado com os braços. Eles precisam acompanhar o movimento, ok?
Fui corrigindo uma por uma, tentando me manter presente no momento. Cada detalhe da coreografia dependia de mim, e eu não queria decepcioná-las.
No entanto, sempre que fazia uma pausa para observar, minha mente corria de volta para Billie.
Peguei o celular de novo. Nada. Aquele silêncio estava começando a me consumir. Billie não era de sumir assim. Pelo menos, não sem avisar.
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Peachy
Hayran KurguOnde Katharine Stephan Menezes, começa a reparar em Billie Eilish, a "aberração" de sua escola.
