KATHERINE STEPAN:
A casa dos O'Connell tinha algo mágico. Talvez fosse o cheiro de biscoitos recém-assados que se espalhava pela cozinha ou o som suave de uma playlist natalina tocando ao fundo. Ou talvez fosse a maneira como cada canto parecia ter uma história, como se as paredes guardassem todas as risadas e conversas que já aconteceram ali.
Eu estava na cozinha com Maggie, que agora posso chamar de minha sogra, tentando acertar a textura de uma massa de biscoito pela terceira vez. Isso porque a primeira ficou líquida demais, e a segunda? Bom, parecia cimento. Mas Maggie tinha uma paciência infinita e continuava sorrindo, mesmo quando eu, claramente, era uma catástrofe culinária em potencial.
— Relaxa, Kath. Isso aqui é para se divertir, não para ser perfeito — ela disse, observando enquanto eu, mais uma vez, mexia a massa com determinação exagerada.
Eu ri, meio sem graça.
— Não é minha culpa se quero que os biscoitos da Billie sejam os melhores do mundo.
Ela arqueou as sobrancelhas com um sorriso.
— Billie já tem os melhores biscoitos do mundo. Ela tem você.
Corei na hora. Maggie sabia como transformar qualquer situação num momento de carinho. Desde que comecei a frequentar a casa, ela e Patrick sempre me trataram como se eu fosse parte da família. Era impossível não sentir um calor gostoso no peito ao estar ali.
Do outro lado da sala, pude ouvir Finneas discutindo com Billie sobre... um filme? Algo sobre Duro de Matar. Billie estava com os braços cruzados, encarando o irmão mais velho com um olhar exasperado que eu já conhecia bem.
— Não vou assistir Duro de Matar, Finneas. Não é um filme de Natal! — ela protestou, a voz baixa, quase tímida.
Finneas não desistia fácil.
— Como não é um filme de Natal? Tem neve, tem Natal, tem... explosões. Isso é o espírito natalino!
— Explosões não têm nada a ver com Natal, Finneas! — ela rebateu, enquanto a namorada dele, Claudia, ria ao fundo. Finneas conheceu Claudia em um evento de música, eles conversaram praticamente a festa toda, e alguns meses depois, apareceram namorando, Claudia é uma garota incrível, super se adaptou a família, e todos a acolheram muito bem.
Sorri de onde estava. Billie era assim: um misto de determinação e timidez. Eu sabia o quanto ela odiava chamar atenção, mas, ao mesmo tempo, adorava debater com o irmão quando se sentia confortável. Esse contraste era uma das coisas que eu mais amava nela.
Eu amava muitas coisas na Billie, na verdade.
Foi estranho, no começo. Quando nos conhecemos, ela era tão fechada, tão na dela, que parecia incompreensível. Lembro como foi difícil quebrar aquela barreira. Tudo começou com aquele trabalho de escola sobre a mente humana. E todos a nossa volta, ficaram surpresos com o fato de eu não me "negar" a fazer o trabalho com ela.
Eles não sabiam como ela era incrível, claro. Para eles, Billie era "a aberração". E eu odeio até hoje o fato de ela ter sofrido tanto preconceito, simplesmente por ser intersexual. Eu nunca entendi como as pessoas podiam ser tão cruéis com algo que nem sequer entendiam.
Mas eu sabia. Sabia o quanto aquilo a machucava.
Uma coisa que nunca sairá de minha cabeça, é o acontecimento com Troy e seus amigos, logo após o ataque que eles fizeram com Billie, acabaram sendo presos já que todos ali eram maiores de idade, foi um alívio para todos nós, logo o assunto foi comentado na escola, todos olhavam para Billie com um olhar de pena, hipocrisia do caralho, e logo depois disso, minha garota teve a paz que sempre pediu.
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Peachy
FanfictionOnde Katharine Stephan Menezes, começa a reparar em Billie Eilish, a "aberração" de sua escola.
