hostage

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Katherine Stepan:

Eu estava tão irritada que mal podia pensar direito. Meu corpo inteiro parecia uma mola prestes a se soltar enquanto atravessava os corredores da escola em direção ao pátio. O rosto de Billie não saía da minha cabeça – aquele olhar vazio, o jeito como ela se encolhia, como se quisesse desaparecer. Eu queria arrancar Troy daquela escola com minhas próprias mãos. A ideia de ele ter dito ou feito qualquer coisa para machucá-la me deixava fora de mim.

Desde que eu e Billie nos aproximamos mais, desde que aquele beijo aconteceu, eu sentia algo mais forte. Não era só a amizade de sempre, nem apenas preocupação. Era... paixão. Um desejo de protegê-la, mas também de fazer parte de tudo que ela era, do jeito único dela, com todas as cicatrizes que o mundo tinha deixado. Mas, ao mesmo tempo, havia uma raiva crescente dentro de mim por todas as vezes que a escola inteira, inclusive Troy, tinha tentado diminuir essa garota incrível que eu estava conhecendo tão profundamente.

Eu o vi antes que ele me visse. Encostado na parede com o celular na mão, Troy parecia tão relaxado, como se não tivesse feito nada. Como se a dor que ele causava não fosse nada além de um jogo. Aquilo me deixou ainda mais furiosa.

— Troy! — chamei, minha voz firme e alta, ecoando pelo pátio vazio.

Ele levantou os olhos, e, por um momento, a surpresa passou pelo rosto dele, mas logo foi substituída pelo mesmo sorriso convencido e irritante de sempre.

— Olha só, Katherine Stepan! — Ele guardou o celular no bolso, cruzando os braços como se estivesse prestes a assistir um show. — O que foi? Veio me dar uma bronca? Ou talvez... — Ele deu um passo à frente, com o sorriso ficando ainda mais torto. — ...veio me agradecer por dar um pouco de emoção para a aberração da sua amiga?

Minha visão escureceu por um instante, tamanha a raiva que me atingiu.

— Se você ousar falar dela assim de novo, Troy, eu juro que não respondo por mim.

Ele riu, um riso baixo, debochado.

— Ah, Katherine, calma. Não precisa ficar assim por causa de uma brincadeirinha. Todo mundo sabe que Billie... bom, não é exatamente normal, né? — Ele deu de ombros, como se estivesse dizendo algo óbvio.

— O que você sabe sobre ela? — perguntei, minha voz saindo mais alta do que eu pretendia. Eu dei um passo à frente, e agora estávamos perto demais. — Você não sabe nada sobre o que ela já passou. Sobre quem ela é de verdade. Você só gosta de se sentir superior porque, no fundo, você é um covarde.

Por um segundo, achei que minhas palavras tinham surtido efeito. O sorriso dele desapareceu, e ele ficou sério. Mas foi só por um momento. Ele se recompôs rápido, inclinando a cabeça como se me analisasse.

— Você gosta dela, não é? — Ele falou devagar, como se saboreasse a ideia. — Quer dizer, mais do que só como amiga. É isso?

Eu travei. Não porque tinha medo de admitir, mas porque sabia que, para ele, qualquer coisa que eu dissesse seria usada contra mim e contra Billie.

— Isso não é da sua conta, — respondi, tentando manter minha voz firme.

Ele riu de novo, mas dessa vez foi um riso diferente. Menos debochado, mais... intencional.

— Ah, isso explica muita coisa. Vocês duas, escondidas, achando que ninguém percebe. — Ele deu outro passo à frente, e agora estávamos tão perto que eu podia sentir o cheiro do perfume barato dele. — Mas, sabe, Katherine, eu acho que você está desperdiçando seu tempo. Você poderia fazer muito melhor.

Eu senti meu estômago revirar.

— O que você está tentando dizer, Troy?

Ele ergueu a mão e tocou meu braço, um toque que me fez arrepiar – não de uma forma boa, mas de puro desconforto.

PeachyOnde histórias criam vida. Descubra agora