A escola nunca foi um lugar fácil para mim. Desde que eu me entendo por gente, parecia que sempre tinha algo errado comigo aos olhos dos outros. Mas nos últimos anos, as coisas ficaram muito piores. Todo mundo sabia que eu era intersexual. Não foi uma escolha minha contar, foi algo que simplesmente escapou e virou o principal assunto da escola. Desde então, eu não era mais "Billie". Eu era "aquela esquisita".
Naquela manhã, caminhar pelos corredores parecia ainda mais difícil. As pessoas não precisavam dizer nada. Era só o jeito como olhavam, como se eu fosse alguma coisa errada que eles precisavam evitar. Mas claro, algumas pessoas faziam questão de falar.
— Olha lá, a aberração chegou — alguém sussurrou perto do meu armário, mas alto o suficiente para que eu ouvisse.
Respirei fundo e tentei ignorar. Isso era o normal. Isso era todo dia.
Mas então veio Troy. Ele sempre foi o pior. Alto, forte e com aquele sorriso cruel que nunca saía do rosto. Ele era o tipo de pessoa que adorava ver os outros se sentirem pequenos.
— Ei, Billie! — ele gritou, parando no meio do corredor. Todo mundo automaticamente olhou para mim.
Tentei fingir que não ouvi e continuei andando. Talvez ele me deixasse em paz se eu não reagisse.
— Ah, está fugindo? O que foi? Está com vergonha de ser... bom, sei lá o que você é? Nem dá para chamar de gente direito, né?
As palavras dele ecoaram pelo corredor, e algumas pessoas começaram a rir. Não foi só uma risadinha tímida. Foi aquele tipo de risada alta, cheia de crueldade, que fazia o meu peito apertar.
— Deixa ela em paz, Troy — uma garota disse baixinho, mas ele nem ligou.
— Por que eu deixaria? Todo mundo aqui pensa a mesma coisa, só eu que falo alto. Não é verdade, pessoal?
Ele olhou ao redor, buscando aprovação. E o pior? Ele conseguiu. Algumas pessoas balançaram a cabeça. Outras riram ainda mais.
— Olha pra você, Billie. O que você é? Nem homem, nem mulher. Um erro, só isso.
Senti os olhos arderem, mas segurei as lágrimas. Chorar na frente deles só ia piorar tudo. Queria sair correndo, mas minhas pernas pareciam presas no chão.
— Vai dizer que eu estou errado? — Troy insistiu, agora mais perto de mim. Ele estava tão perto que eu podia sentir seu hálito quente.
— Deixa ela, Troy. Já chega! — a voz veio de um canto. Era Odessa. Ela sempre tentava me defender, mas isso só fazia com que Troy ficasse ainda mais irritado.
— Não se mete, Odessa. A gente está só se divertindo. Não é, Billie?
Eu não consegui responder. Só queria desaparecer, virar poeira e sumir daquele lugar. Meu coração batia tão rápido que parecia que ia explodir.
Finalmente, meu corpo reagiu. Empurrei alguém que estava no meu caminho e corri. Corri o mais rápido que pude até o banheiro. Era o único lugar onde eu sentia que podia me esconder.
Entrei em uma das cabines, tranquei a porta e desabei no chão. As lágrimas que eu estava segurando finalmente vieram, e eu chorei tanto que perdi a noção do tempo.
Enquanto isso, Stepan notou um burburinho pelo corredor, e por algum motivo, eu acho que ela entendeu que era sobre mim. Ela sempre foi muito atenta, especialmente quando se tratava de minha pessoa. Quando a aula começou e eu não estava lá, ela sentiu que algo estava errado.
— Alguém viu a Billie? — ela perguntou para Odessa, que estava sentada na fileira ao lado.
Odessa hesitou.
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Peachy
FanfictionOnde Katharine Stephan Menezes, começa a reparar em Billie Eilish, a "aberração" de sua escola.
