BILLIE EILISH:
O som constante do monitor cardíaco era irritante. Aquele bip bip parecia zombar de mim, como se dissesse: "Olha você aqui, viva, mesmo quando talvez preferisse não estar."
Minha cabeça estava pesada, latejando. O corpo todo parecia triturado, e o gosto de ferrugem na boca só confirmava o que eu já sabia: eu estava fodida. De novo.
Abri os olhos com dificuldade, piscando contra a luz branca e impiedosa. Eu odiava hospitais. Tudo ali parecia estéril, mas cheio de segredos. Era como se aquelas paredes fossem cúmplices de todos os horrores que as pessoas traziam para dentro delas.
Foi então que a vi. Katherine.
Ela estava sentada na poltrona ao lado da cama, com as pernas dobradas de um jeito que só ela conseguia fazer parecer confortável. O cabelo bagunçado e a maquiagem borrada mostravam que ela não tinha saído dali há horas — talvez dias. Era estranho vê-la assim, tão desarmada. A Katherine Stepan que eu conhecia era sempre impecável, confiante, quase intocável.
Mas ali, naquele momento, ela parecia tão... humana.
Quando me mexi, um gemido escapou, e ela levantou a cabeça na mesma hora. Seus olhos estavam vermelhos, e o alívio no rosto dela foi tão imediato que me fez sentir alguma coisa que eu não sabia nomear.
— Billie? — A voz dela saiu meio rouca, como se ela tivesse chorado e gritado muito.
Eu tentei responder, mas minha garganta estava seca, como areia. Ainda assim, forcei um sussurro:
— Oi...
Ela soltou uma risada nervosa, misturada com lágrimas que não paravam de cair.
— Meu Deus, você tá acordada... Eu achei que... — Ela balançou a cabeça, tentando se recompor. — Não importa o que eu achei. O importante é que você tá aqui.
O olhar dela era intenso, e eu senti algo estranho no peito. Algo quente, mas também pesado. Não era só por causa da dor ou da humilhação da noite anterior. Era porque Katherine estava ali, olhando pra mim como se eu fosse importante.
Mas, mesmo com aquele momento, as lembranças começaram a voltar.
Troy. Seus amigos. A sala de artes.
Meu estômago revirou, e eu senti a bile subir, queimando minha garganta. Fechei os olhos com força, tentando afastar as imagens. Eles rindo. Me empurrando. Me chutando enquanto eu implorava para que parassem.
— Ei, calma. — Katherine segurou minha mão, o toque dela firme, mas gentil. — Você tá segura agora. Eles não vão te machucar mais.
Eu queria acreditar nela, mas a verdade era que aquelas palavras soavam vazias. Não porque Katherine não fosse sincera, mas porque eu sabia que não era tão simples assim. Não era só sobre o que eles fizeram comigo fisicamente. Era sobre tudo.
Ser chamada de aberração desde que me entendo por gente. Ser o alvo de risos e cochichos toda vez que entrava em um lugar. Ter que esconder partes de quem eu era porque o mundo parecia não ter espaço pra pessoas como eu.
— Eles... — minha voz saiu fraca, e eu engoli em seco, tentando continuar. — Eles me chamaram de aberração.
Os olhos de Katherine escureceram, a mandíbula travando de raiva.
— Eles são uns filhos da puta, Billie. Eles nunca deveriam ter encostado um dedo em você.
— Mas eles encostaram... — Minha voz quebrou, e as lágrimas vieram antes que eu pudesse segurá-las. — E riram. Como se eu fosse só um brinquedo.
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Peachy
FanfictionOnde Katharine Stephan Menezes, começa a reparar em Billie Eilish, a "aberração" de sua escola.
