Gatilho; anorexia.
O frio é doloroso,
O quarto está congelando, o ar condicionado no máximo em conjunto a porra da água que passa por baixo da porta do banheiro deixa a temperatura ainda mais baixa. A respiração trava em minha garganta quando dou passos longos até a porta, a fechadura parece queimar a palma da minha mão.
Trancada
A maldita porta está trancada, não penso quando jogo meu corpo contra a madeira, a dor é mínima, me afasto e chuto a porta duas vezes, até que a fechadura quebre e a porta abra.
Dor.
Desespero.
Pavor.
Pena.
Raiva.
Uma cena que é capaz de desencadear sentimentos tão profundos, que congelam meus pensamentos. É como se meu cérebro se desprendesse do meu corpo, meus movimentos são no automático, nem penso, não raciocínio, nem mesmo respiro.
Minha mãe está no chão, o vestido longo azul claro está encharcado grudado na sua pele, a água que está transbordando da banheira cerca o corpo dela, resquícios de comida boiam no chão, o vômito seco que mancha seu queixo e bochecha me dá um sinal óbvio do que aconteceu ali, lentamente me aproximo, posso jurar que meu coração não está funcionado corretamente, sua pele está fria, fria de mais. Seus lábios roxos, toco seu pulso e a pulsação tá lá, sentir o sangue correr em suas veias trouxe uma quantidade considerável de oxigênio ao meus pulmões. Ergo ela em meus braços, correndo para fora do quarto, indo contra o tempo.
- Killian... Ô, meu Deus!
Suzi me encontra no meio do caminho, mas não paro para olhá-la ou falar alguma coisa, ao chegar no carro coloco cuidadosamente minha mãe no banco de traz ainda desacordada e corro para o banco do motorista, dirijo até o hospital mais próximo e a cada segundo que passa perco um pedaço do meu coração, a cena dela no banheiro congelada em minha mente me trazendo um desespero cruel.
Cento e oitenta minutos, três horas passaram em minha vida como um borrão, não me lembro como cheguei ao hospital, quem me recebeu, o que disseram, nem mesmo lembro como cheguei ao quarto, como sentei nessa poltrona, ou, quem me deu a porra de um comprimido e um copo d'água.
- Filhoo...
A voz que eu tanto amo me faz querer chorar, está fraca, rouca. Levanto os olhos e encontro uma imensidão de verde, eu amo esse tom de verde, o verde dos olhos dela, dos olhos da minha mãe. Mas hoje, estão doloridos, os olhos completamente vermelho, machucados. Pelo esforço ao vomitar uma veia se rompeu e a mancha vermelha tomou conta de toda a parte branca dos olhos dela, dói ver.
- Oi, mãe. Como você está se sentindo?
Tranquilizei minha voz mesmo que uma tempestade nublasse meu coração, minha mente, minha alma. Ela tentou sorrir mas o sorriso morreu quando notou que estava tomando soro. Ela olhou para mim com um desespero tão grande que me ergui, levantei imediatamente tentando entender o que estava errado. Com uma mão ela puxou o escalpe de sua veia, o movimento brusco rasgou sua pele, lágrimas inundaram seus olhos e ela gritou em pavor;
- ISSO ENGORDA, EU NÃO POSSO TOMAR ISSO, ISSO ENGORDA, ENGORDA!
Sangue infectou todo o quarto, os gritos soando mais fortes, mais violentos, mais altos;
- ELE NÃO VAI ME AMAR NUNCA SE EU NÃO FOR MAGRA IGUAL A ELA, LINDA IGUAL ELA, NÃO DEIXE... NÃO DEIXE ME DAREM ISSO DE NOVO, NÃO... NÃO!
Quiz morrer e acima de tudo quis matar meu pai naquele momento, quis incendiar o mundo, incendiar tudo. A dor era intensa, crua de mais.
- Mãe, por favor... Por favor, se acalme.
Supliquei quando o médico e a enfermeira entraram no quarto e sem delongas injetaram um calmante nela, lentamente ela vai soluçando baixinho, fechando os olhos com calma.
- Ele ama ela, ele ama ela.
Em delírio ela sussurrava com dor;
- Ela é uma sereia e por isso ele ama ela. Ele não me ama. Mas ama ela, eu não sou... Não sou bonita suficiente, não como ela!
E apagou
O médico me olhou com pena, ignorei. Não precisava que ele me dissesse o óbvio, a anorexia da minha mãe já estava se tornando alarmante, a maldita compulsão pela perfeição a deixou doente.
...
Braços me puxam para trás, cego, tento bater em quem me segura, sinto a dor do meu punho contra o osso de alguém, um arquejo e um palavrão.
- Irmão, sou eu cara. Sou eu!
Pisco, meu peito dói, massageio lentamente respirando fundo. A névoa em meus olhos vai diminuindo, primeiro encontro os olhos confusos de Ezra, a testa dele sangrando, depois os olhos incrédulos de várias pessoas que estão ao nosso redor e então o corpo de Asher, desacordado, sangrando.
Merda, merda do caralho.
- Relaxa, ele está vivo.
A voz de Ezra me tranquiliza um pouco, gotas de suor caem do meu cabelo, minha blusa está toda molhada do líquido salgado, grudando em minha pele, suspiro passando os dedos em minha cabeça.
- Vamos sair daqui, cara. Tu precisa respirar!
Não respondo mas obedeço e o sigo quando ele se movimenta para sair dali, puxo o ar pelo nariz e solto pela boca, abro e fecho os punhos, até que as batidas do meu coração estejam calmas de novo.
- Irmão, o que foi aquilo? Porra, se eu não tivesse te tirado de cima do Asher você teria matado o filho da puta.
Entramos em nosso quarto, sento em minha cama e cubro meu rosto com as mãos sujas ainda cobertas pelas faixas brancas. Meus ombros sobem e descem lentamente.
- Você pareceu ter sido abduzido. Não, você parecia ter sido possuído pelo demônio!
Tiro as faixas brancas de minhas mãos e minhas roupas, sem me importar com minha nudez. Vou para o banheiro, entro no box e ligo o chuveiro. A água gelada refresca meu corpo, uma onda de choque vibra em minha pele, fechos os olhos, jogo a cabeça para trás deixando a água molhar meu rosto. Imagens dançam em minha mente, minha mãe naquele banheiro, minha mãe naquele hospital, minha mãe morta dias depois, minha mãe naquele maldito caixão, naquele buraco, naquele lugar.
Respiro fundo e sopro fazendo a água pular batendo na parede em minha frente.
Ela é uma sereia...
Ariel...
Maldita Ariel, maldita sereia.
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O que será que aconteceu entre Ariel e o pai de Killian? Será que ela é realmente a sereia?
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Exspiravit
FanfictionNasci para ser uma rainha, uma herdeira do mais poderoso dos impérios. Fui criada pelo pior e mais sombrio dos homens, a crueldade ja nasceu em mim, impregnada em cada uma das minhas células. Me conhecem como a dona da noite, a rainha do gelo. Me te...
