Ser seu guardião

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Durante toda nossa vida,

A maior certeza que temos é que um dia morreremos, sabemos com isso também que obviamente as pessoas que amamos e que prezamos ter do nosso lado, um dia também partirá.

Ter uma vida com essa certeza deveria ser suficiente para que quando o momento chegasse, estivéssemos minimamente prontos. Mas infelizmente, quando partimos para a realidade a coisa se torna diferente.

Ninguém quer morrer, mas acima de tudo, ninguém quer sentir o vazio e a solidão de enterrar um ente querido, a dor de perder alguém é individual. O luto é impossível de ser descrito em palavras. Para mim, a pior parte é a negação, é você se iludir pensando que nada daquilo é real, que a pessoa pela qual você sofre a perda aparecerá e sorrirá afirmando que tudo não se passava de uma tola brincadeira. É quando seu subconsciente te prega peças para te ajudar a alimentar esse pensamento, e isso dói, dói muito.

Eu não presto atenção no que o padre fala enquanto encomenda as almas dos meus pais e muito menos foco no rosto de todas as pessoas que caminham até mim para me desejar condolências, os dois caixões de madeira cara sendo exibidos em minha frente roubam todo o meu foco. O vento frio balança meus cabelos, o tecido grosso do meu vestido preto balança seguindo o ritmo e eu sinto que vou surtar.

- É lastimável essa situação, tão jovem e já passando por uma dor tão grande!

Alguém sussurra numa inútil tentativa de não ser ouvido, o que me faz querer revirar os olhos e rosnar, literalmente rosnar, para todos eles.

Na real, não conheço metade dessas pessoas e duvido muito que elas conheciam de fato meus pais. A impressão que tenho é que tudo isso aqui se tornou uma espécie de evento social, no qual a elite dessa cidade tenha vindo para entrar nos holofotes e esbanjar suas joias caras e falsas lamentações.

Meu irmão havia sumido, talvez ele esteja escondido em algum lugar desse cemitério, culpado de mais para se aproximar e se despedir decentemente de quem deu a ele a vida, ou, quem sabe, ele esteja em algum lugar arquitetando um plano psicopata para acabar finalmente com a minha vida, já que as duas últimas vezes que ele tentou, falhou.

O padre aparentemente terminou a oração e formando uma cruz jogou água benta encima dos dois caixões que aos poucos, lentamente, foram sendo colocados em dois buracos fundos, um ao lado do outro, dei um passo a frente, ciente de todos os olhares em minha direção, então, dei mais um passo respirando fundo, buscando cortar as cordas que estão segurando as minhas emoções. Eu deveria estar chorando, me debulhando em lágrimas. Deveria estar homenageando com gotas salgadas a partida das duas pessoas que eu mais amei na vida, mas eu estava apenas em pé, olhando eles irem para um lugar que eu nunca mais os veria, e sem sentir ou demonstrar absolutamente nada.

Os óculos escuros que cobrem meus olhos não são para esconder minhas lágrimas, para preservar minha intimidade, mas sim, para esconder que meus olhos estavam estupidamente secos, vazios.

Terra começou a cobrir tudo a minha frente, o cheiro impregnou minhas narinas, os caixões caros foram escondidos embaixo de muita terra, abrir a boca respirando fundo, os vultos das pessoas indo embora se tornaram insignificantes diante as flores que enfeitavam aquelas lápides, dei uma risada descrente, finalmente me dando conta que tudo aquilo era verdade, que eu realmente estava vivendo, passando por aquela merda, me ajoelhei, a terra fofa acariciou meus joelhos e minhas mãos se fecharam em punhos, pegando uma boa quantidade daquele material marrom, frio e de certa forma, doloroso.

- Você não deveria estar chorando?

Me assustei ao me dá conta que não estava sozinha como imaginei e ergui minha cabeça rapidamente, encarando o desconhecido que me olhava como se eu fosse um bichinho prestes a entrar em extinção, levantei em um pulo, batendo minhas mãos uma na out...

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Me assustei ao me dá conta que não estava sozinha como imaginei e ergui minha cabeça rapidamente, encarando o desconhecido que me olhava como se eu fosse um bichinho prestes a entrar em extinção, levantei em um pulo, batendo minhas mãos uma na outra para tirar os resquícios de sujeira.

- Quem é você?

Questionei quando ele começou a olhar de mais para as lápides, especialmente para a que guardava o corpo do meu pai, o homem caminhou até estar perto o suficiente para tocar a estrutura de mármore, e mesmo que os olhos dele estivessem cobertos por óculos escuros eu soube que ele havia fechado os olhos, sussurrando ele murmurou algumas palavras, beijou as pontas dos dedos e tocou novamente a lápide do meu pai, estranhei e fiquei em alerta.

- Seu irmão não deveria estar aqui?

Questionou ignorando a minha pergunta anterior, olhou ao redor confirmando que estávamos sozinhos e então, focou sua atenção em meu rosto.

- Estranho, encontro você rindo quando obviamente você deveria estar fazendo o oposto e sozinha? Seu irmão, deveria estar aqui como você, não é?

O homem cruza os braços obviamente esperando uma resposta que sinceramente, não seria dada por mim. Pelo menos enquanto eu não soubesse e entendesse o que ele estava fazendo ali e quem malditamente esse homem era.

- Você pode me chamar de Siriús, sou um velho amigo do seu pai!

A informação não me convenceu e não fiz questão de esconder tal coisa, o que fez ele dá um pequeno sorriso de lado e balançar a cabeça como se esperasse exatamente essa reação minha.

- Seu pai me avisou que você seria... Difícil.

Uma dor fina criou uma teia em meu coração ao vê-lo falar do meu pai com tanta devoção, engoli em seco, sentindo meu peito comprimir em agonia.

- Ariel! Não estou aqui apenas para me despedir do meu amigo, vim aqui para cumprir uma promessa.

A voz dele era extremamente cortante, fria. Era como se ele estivesse ali para me dá uma sentença, algo que não importava o quão eu não quisesse, iria acontecer, dei um passo para trás quando ele deu um passo firme para frente, seus olhos cobertos por uma escuridão demolidora, me preparei para lutar, embora algo sussurrasse para mim que não seria com meu corpo que eu lutaria naquele momento.

- Que promessa?

Ousei questionar indo contra meus instintos, ele se aproximou, os óculos presos na mão direita.

- Ser seu guardião!

Aquilo tinha som de caixão selado, bateu dentro de mim como ácido, corroendo tudo, queimando. Pisquei incerta, confusa e perdida, abrir a boca e fechei, abrir de novo e nada disse, nada questionei.

Ser seu guardião!

Ele havia dito com firmeza e bem claro, mas guardião de quê? Para quê? Por qual razão?

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