Você trabalha em um circo?

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Dor,

Até quando uma pessoa suporta a dor? Qual o nível limite de sofrimento? Quantos ossos precisam ser quebrados para que enfim, alguém desista? Desista de lutar, desista de querer viver, desista de ganhar.

O quão a teimosia de alguém que não se permitia morrer, poderia ajudar ela a sobreviver? Ou melhor, o quão forte ela deve ser para aceitar morrer?

Deitada de buço na cama de solteiro da enfermaria, relembro esses últimos meses de uma forma apática, a cama que está na minha frente ainda guarda resquícios da última pessoa que passou por ali, provavelmente tenha morrido a julgar pela quantidade de sangue que ainda manchava o lençol. A enfermeira numa falha tentativa de amenizar a minha dor, passa um algodão em minhas costas enquanto as solas dos meus pés pingam sangue.

Será quão feias serão as cicatrizes?

Onze centímetros do couro das minhas costas foram acarrancados no gilete, enquanto as solas de meus pés serviram de telas numa tentativa torturante de replicar uma teia de aranha, a dor era fina, tão grande que se tornava um nada, me deixava letárgica, numa sensação de embriaguez.
A raiva lutava para emergir, raiva do meu pai por ter me empurrado para esse mundo, raiva de mim por ter aceitado, raiva dessas pessoas que faziam isso. Mas a verdade era que eu não conseguia, não conseguia sentir nada, nem mesmo raiva.

Quatorze meses nesse inferno

Onde a única coisa normal e corriqueira é a dor, é o cheiro de sangue e o som dos gritos de desespero. Quase trezentos entrou comigo, mais de cento e cinquenta já estavam mortos, mais de cento e cinquenta famílias perderam seus filhos e não poderão nem enterrar já que ao entrar o corpo de cada um deles passava a pertencer ao clã, para ser mais objetiva passava a servir de carne para os lobos.

- Durma um pouco, pequena. Quando você acordar se sentirá um pouco melhor!

A enfermeira sussurrou a mentira com cautela, ela e eu sabíamos que isso não aconteceria, que eu não acordaria melhor mas permiti que ela aplicasse o calmante, permiti que o sono me arrebatasse.

Sete horas depois;

O Cloro, sangue e álcool,

Meus olhos ainda estavam fechados quando a união de cheiros veio com tanta violência que eu sentia o gosto em minha língua e não era bom. Minha cabeça doía e eu sentia que meus pés estavam incendiando, tudo se misturando e se concentrando em minhas costas que a cada respiração profunda parecia que iria rachar no meio. Pisquei tremendo as pálpebras tentando enxergar o mundo.

A primeira coisa que vi foi que a cama em minha frente estava ocupada, depois os fios conectados ao corpo dele e então, um garoto me olhando como se me estudasse, como se eu fosse uma peça de teatro.

- É bom ver que você não morreu!

Tentei sentar na cama, apoiando meu corpo com meus cotovelos, a dor em minhas costas me fez trincar os dentes e soltar um quase rugido. Enchi os pulmões de ar, memórias começaram a dançar em meu cérebro, Meu coração batia descompassado, forte, quase machucando o peito. Minhas costas latejavam forte e por um segundo pensei que fosse apagar. Fechei os olhos por breves segundos ouvindo minha própria respiração se alterar.

- Acho que não é uma boa ideia você se mexer, pode piorar sua situação, quer dizer, se é que pode piorar essa merda.

Quem era esse cara, pelo amor de Deus?

- Sabe, tava preocupado com sua situação!

Abrir meus olhos lentamente e olhei para ele, a sua situação não estava muito melhor que a minha, pelo menos eu não estava parecendo uma múmia, o cara estava praticamente todo enfaixado.

- Você deveria se preocupar com a sua situação, não é como se você estivesse melhor, não é ?

Ele riu da minha fala e olhou para si mesmo

- Pelo menos meu pau está intacto!

A naturalidade em que ele falou aquilo foi tanta que eu acabei rindo junto com ele, me arrependendo em seguida já que a dor explodiu, quis gritar mas me mantive inexpressiva, tanto que ele nem notou.

- Mas sério, estava achando que você iria morrer e porra, você é bonita de mais para morrer aqui, nesse inferno e ainda mais, ter que me fazer gritar para aquelas mulheres virem te tirar daqui, já viu o meu estado? Gritar iria me fazer sofrer de mais!

Ele disse enquanto balança a cabeça de um lado para o outro, desolado, o filho da puta estava desolado com a possibilidade dele sentir dor e não com a minha morte, sentir a incredulidade me tomar.

Que desgraçado filho de uma puta!

Novamente ele gargalhou, dessa vez jogando a cabeça para trás tamanha era a força que ele botava para rir, continuei parada apenas encarado ele por longos minutos, até que ele parasse, e me olhasse.

- Você trabalha em um circo?

Questionei passando a língua em meus lábios, ele levou a mão ao coração fazendo uma cara de triste, a enfermeira entrou no quarto carregando uma bandeja com utensílios de curativos e remédios.

- Olha, que bom que você acordou! Como você está se sentindo, melhor?

Suspirei sentindo minha cabeça latejar, minhas costas doerem e meus pés queimarem.

- Estou ótima!

Mentira

Mas isso não importava merda nenhuma, a pergunta dela não foi nada além de protocolo, sua preocupação era fingida igual a de todos ali.

- Vejo que vocês já se conheceram, isso é ótimo já que vocês irão passar muito tempo juntos, irão fazer companhia um para o outro!

Minha careta foi instantânea e ela sorriu, o meu colega de quarto por outro lado me olhou ultrajado, quase sorri com aquilo já que era bom saber que não foi apenas o meu ego que foi ferido. Mas o que eu não admitiria nem sob tortura é que a presença dele naqueles meses me mantéu sã, principalmente nas noites em que a infecção me abalou, a febre me consumiu e os delírios doeram mais que qualquer machucado que eu já tenha tido, ou teria. Os delírios, eles sim quase me fizeram morrer.

Mas felizmente me mantive de pé, me curei, voltei a me tornar forte, e aquele tempo longe de todo o tormento daquele lugar me tornou inabalável.

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