Anna Júlia
Olhei-me uma última vez, pelo espelho embaçado do banheiro, ajustando a parte de cima do biquíni, quase me repreendendo por ter escolhido um tão aberto, minha preocupação a noite toda foi que mostrasse mais do que eu queria enquanto dançava.
Passei pelo corredor onde haviam várias cabines de fotos retrô distribuídas. caminhando de volta até onde eu estava, para me despedir de alguns amigos que já iam embora, ansiosa para depois disso, achar algum espacinho para encostar. Abracei um por um, que diziam algo como "nos vemos depois" mas as vozes se perdiam pelo som da música que ainda não havia reduzido nem um pouco, ficando cada vez mais envolvente.
Dispensei educadamente mais um garoto que chegou em mim e me parou no meio do caminho, antes era tão fácil, eu só tinha que mostrar a aliança e tudo se resolvia, agora tenho que inventar a maior desculpa e torcer para que seja boa o suficiente.
Meu corpo deslizou em um sofá fofinho e minhas pernas quase fizeram uma nota em agradecimento, após horas em pé. Abri a garrafinha com água que peguei antes de sentar, tomando quase tudo, enquanto me abanava com a outra mão, o local era climatizado, mas a quantidade de pessoas que tinha, fazia com que tudo ficasse quente.
Gabriel estava a poucos metros de mim, sentado no outro sofá que tinha naquela parte reservada, me analisando inteira desde o momento em que me acomodei, a única distancia entre nós era um bar improvisado bem ao meio do espaço.
Ao seu lado, uma ruiva, que ria exageradamente, sussurrando algo em seu ouvido, quase subindo no colo dele, eu poderia até duvidar do lance de "sou bom em esperar" e até seria mais fácil fingir que nada foi dito ou acreditar que sou apenas mais uma réplica das diversas meninas que ele dá em cima todos os dias, evitando assim alguma frustração futura, mas o fato de ter uma mulher se jogando pra ele e ele não conseguir desviar o olhar de onde eu estava, deixa mais que claro que quem ele quer, ao menos momentaneamente, não é ela.
Tamborilei os dedos na garrafa quando começou a tocar uma sequência de funk anos noventa, continuando a olhar tudo pela minha visão periférica, não daria para ele o gostinho de saber que em meio a tanta gente, meus olhos estão logo focados neles, diferente dele, que estava empenhado em mostrar que não iria desviar de forma alguma.
-costuma vir aqui com frequência? -A parte do sofá ao meu lado se comprimindo denunciava que alguém estava ali. Apertei os olhos, tentando conter o incômodo crescente, não queria ter que dispensar mais alguém.
-É a segunda vez -respondi e virei-me para olhar.
Não fode. Odeio rivais bonitos, o tipo de homem que não fazia esforço, e ainda assim conseguia ter uma presença absurda.
-Richard Rios -estendeu a mão. sei quem você é, lindinho.
-Anna Júlia -retribui o gesto.
-Ta sozinha, Anna? -Richard perguntou, fiquei tentada em pedir para que ele repetisse meu nome. A voz, o sotaque, minha nossa, deixa tudo melhor.
Eu tô sozinha? Mordi o lábio demorando demais para falar alguma coisa.
-Não está -ouvi uma terceira voz antes mesmo que eu pudesse responder e nem precisei olhar para saber de quem se tratava. Senti quando meu corpo foi puxado para cima, o braço tatuado me agarrando pela cintura, me afastando sem que eu pudesse ao menos me despedir. Foi tudo tão rápido.
Gabriel só parou quando estávamos no meio da escada, descendo do camarote. -ia ficar com ele? -os olhos tão intensos, parecia que iam me devorar. Cruzou os braços me encarando, seu corpo rígido e imponente.
-Você é louco? -O tom saiu mais ríspido do que eu pretendia. Meu cabelo grudado no pescoço pelo acúmulo do suor só aumentava o desconforto da situação.
Gabriel não se moveu.
-Ia ficar com ele, Anna Júlia?
-O que acha, hm? -o maxilar estava travado.
-Eu não acho nada, quero que me diga -olhou por cima do meu ombro tirando os braços de onde estavam e colocando-os ao redor do meu quadril descendo a minha saia, fazendo meu corpo contrair de forma involuntária. -é melhor a gente conversar lá embaixo.
A saia era curta e se alguém passasse por ali subindo, veriam mais que o necessário.
Gabriel pegou minha mão e fomos juntos até o lado de fora, pegos pelo vento frio, o mar agitado, meu corpo encolheu chegando mais perto dele.
-Vem, vamos pro carro -o estacionamento era bem ao lado.
Me acomodei no banco do carona, Gabriel não desviava os olhos de mim. Eu sabia que ele queria algo. Esperava algo.
-Não ia, Gabriel -saiu como um sussurro. -e você sabe muito bem disso.
-Mas vocês estavam tão próximos -a expressão suavizando aos poucos.
-Claro que estávamos, ele sentou do meu lado e começou a conversar.
-Vai dizer que ele não deu em cima de ti? -riu pelo nariz.
-Ele já chegou dando em cima-fui sincera. -mas eu -apontei para mim. -não queria -meu perfil queimava, por que ele não desviava de mim um segundo sequer. -mas por que você quer saber?
eu sabia do jeito dele, como agia quando algo o incomodava, o jeito de querer ter posse e controle sobre tudo que rodeia sua vida.
-Por que depois do seu namoradinho -riu sem humor algum. -serei o primeiro a estar com você -engoli em seco, tentando não vacilar.
de repente o calor se instalou em mim novamente, aumentando cada vez mais.
-Gabriel -coloquei minhas mãos uma em cada lado do seu rosto. -você não pode me dar ordens. -ele tentou desviar. -olha pra mim -minha voz saiu um pouco mais áspera. -nunca mais me tire de um lugar sem me perguntar primeiro.
-Foi por impulso -me recostei no banco deslizando um pouco, recolhendo minhas mãos de onde estavam, ele reprovou o ato, puxando-as novamente. -ele chegou perto demais de ti e.. -a pausa foi quase insuportável, suas mãos subiram até o meu rosto, me fazendo virar pra ele. -só não quero que fique com ninguém por agora.-o rosto dele cada vez mais próximo, a voz grave, desceu distribuindo cheirinhos pelo meu pescoço, não recuei, pelo contrário, meu corpo amoleceu. -por favor, olhos lindos, me deixa te beijar.
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𝙄𝙍𝙍𝙀𝙎𝙄𝙎𝙏Í𝙑𝙀𝙇, 𝘼𝙉𝙉𝘼 𝙅Ú𝙇𝙄𝘼 | 𝙂𝘼𝘽𝙄𝙂𝙊𝙇
Fanfictionvocê foi o amor mais bonito que me aconteceu. Indiscutível, indescritível e predominante
