019

379 26 15
                                        

ᴀɴɴᴀ ᴀʟɪᴄᴇ
📖 ꜱãᴏ ᴘᴀᴜʟᴏ, ᴄᴀᴘɪᴛᴀʟ

Cutuco de forma discreta a barra do short enquanto subimos pelo elevador, minhas mãos estão inquietas e eu tento meu máximo para não demonstrar que por dentro eu também estou. Não sei onde estamos indo, ou sequer que prédio seja esse. Enrolo meu indicador no tecido rígido do jeans enquanto olho pro painel que pisca, estamos atingindo o vigésimo andar.

Consigo sentir o olhar de Raphael passear pelo meu rosto algumas vezes, evito retribuir. Talvez por medo de me perder entre a imensidão castanha, então tento focar meu olhar em tudo. Menos nele. São quase quatro horas da tarde, mal havia saído da livraria quando nos encontramos. Seu carro estacionado na entrada me fez ter um leve surto por dentro, até por que eu ainda não tinha conseguido esquecer a carona de ontem. Foi tão inesperada, mas ao mesmo tempo parecia tão certo.

— Esse tal lugar não chega nunca? — desisto de esconder meu lado impaciente e me viro para Raphael que ri — É sério, faz um ano que estamos no elevador. Estamos quase atravessando a atmosfera da Terra, Raphael.

— Alguém já te disse que você é muito impaciente? — da risada se desencostando da parede de metal — Chegamos, senhora apressada — pisca um dos olhos e me estende a mão quando a porta abre.

Olho por alguns segundos pra mão gigante estendida pra mim, coloco meus dedos de forma leve sobre os seus e caminho para fora do cubículo de metal enquanto sigo seus passos. Aproveito esse momento para observar o lugar que parece ser um depósito abandonado, as paredes são brancas e não vejo nenhum móvel por perto. O caminho que seguimos nos leva a uma porta de correr com vidro escuro, que dificulta a vista para o outro lado. Percebo que nossas mãos se tocam por tempo demais e puxo a minha de volta, Raphael abre a porta e minha respiração foge dos meus pulmões.

É uma cobertura, daquelas gigantes mesmo. Daqui consigo ver o parapeito do prédio coberto com desenhos, a vista é de tirar o fôlego. A cidade de São Paulo toda sob meus pés e de frente pra mim, sigo de modo vacilante os passos de Raphael que seguem até uma toalha estendida no chão de frente a parede de vidro da cobertura.

— Que lugar é esse? — minha voz sai baixa enquanto continuo olhando pra cada cantinho.

— Descobri a pouco tempo quando tive uma reunião aqui — me olha de lado enquanto ajeita algumas coisas na toalha — Precisava respirar um pouco e subi aqui. A vista é linda, né?

Seu olhar ainda queima no meu e eu me esforço pra desviar, é desconcertante a forma como fico ao lado de Raphael. Isso não deveria acontecer, eu deveria agir de forma indiferente a tudo que está acontecendo, mas não consigo. Não consigo impedir que isso me atinja bem no fundo, os olhares, as frases inesperadas, a forma como ele parece saber cada coisa que eu vou dizer antes mesmo de eu sequer pensar.

— O que é tudo isso? — aponto para a toalha confusa.

— Senta — pede se ajeitando e eu imito seu movimento, cruzo as pernas e solto minhas mãos entre elas — Eu passei dias tentando pensar o que poderíamos fazer e algo que não fosse parecido com o roteiro que abandonamos — diz tudo isso enquanto espalha algumas coisas pelo tecido sob nós — E a única coisa que eu consegui imaginar foi que nós precisávamos conversar. Não sabemos quase nada um do outro e... Não sei, acho que combina com a gente agir fora do roteiro.

A explicação me cala, não sei o que pensar sobre tudo isso. Tem doces espalhados pelo chão, assim como caixinhas de suco e besteiras. Consigo notar também um dos meus doces favoritos da cafeteria que ambos frequentamos, alguns pães de queijo me fazem lembrar da primeira vez que conversamos de verdade.

— Eu sei que pode parecer besta ou simples..

— Não é — o corto — Não é nem um pouco besta. Eu gosto. — dou uma risada fraca e me apoio nas minhas mãos — Sobre o que vamos conversar?

— Sobre nós — engasgo de leve com a saliva enquanto olho pra ele, tenho certeza que meus olhos devem estar completamente arregalados — Eu não sei quase nada sobre você.

Ah, esse nós.

— Já vou te avisando que eu não sou uma pessoa muito interessante — brinco dando uma risada envergonhada — O que você quer saber?

— Como você soube que queria ser escritora? — joga a pergunta me olhando de lado enquanto separa alguns doces da toalha.

Pra falar a verdade, nem eu sei.

Sempre gostei de livros no geral, era o que me tirava do mundo confuso e bagunçado que eu vivia, pelo menos por alguns minutos. Acho que escrever surgiu do mesmo jeito, quando eu não tinha com quem conversar, era na folha de caderno que eu desabafava criando personagens fictícios e enredos.

— Não sei, parece que foi algo que sempre esteve ali mas ao mesmo tempo era como se faltasse — tento explicar — Eu sempre fui apaixonada por literatura. Qualquer coisa que envolvesse histórias e coisas do tipo eu amava, e as vezes eu ficava brincando de escrever. Sempre foi algo natural, bom. Pelo menos era pra ser.

Quando eu comecei a escrever Sedex, que foi o meu primeiro livro de verdade. Era tudo muito natural e fácil, eu passava horas pensando na história e nos personagens. Ficava ansiosa pra lessem logo, queria saber as opiniões e o que estavam achando. Mas depois que eu publiquei ela, alguma coisa mudou dentro de mim. Acho que a pressão de saber que eu realmente sou capaz de escrever e finalizar algo é o que me deixa mais frustrada, eu sei que se eu sentar e escrever, eu vou conseguir.

O que mudou é que agora eu não escrevo mais pra mim, eu não sou a minha única leitora. Na verdade, eu fui a minha primeira hater. Eu me auto sabotei dizendo que tinha que ser perfeita, ninguém nunca me cobrou isso além de mim mesma. Eu coloquei limites na minha própria mente e imaginação, eu quis colocar um rótulo em algo que deveria ser natural. É isso que eu sempre faço, eu roteirizo a minha própria vida e mente. E se algo sai do planejamento, eu desisto.

Agora a escrita não é mais um refúgio, e sim um método de tortura dentro da prisão que se tornou minha própria mente. Eu uso ela pra me punir, por que mesmo sabendo que eu sou boa naquilo, eu continuo repetindo todo santo dia que eu não sou capaz.

E esse é o motivo de todos os meus livros não funcionarem, por que todos são uma extensão dessa mente bagunçada. E ninguém gosta de ler sobre problemas e inseguranças, as pessoas leem romances por que gostam de acreditar naquele amor, muitas outras leem fantasia por que quererem ver um mundo diferente do nosso.

Mas quem iria querer ler sobre medos e inseguranças?

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Jun 21, 2025 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

𝑬𝑺𝑪𝑹𝑬𝑽𝑨-𝑴𝑬 • 𝑹𝑨𝑷𝑯𝑨𝑬𝑳 𝑽𝑬𝑰𝑮𝑨Onde histórias criam vida. Descubra agora