Agonia

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Oi! Um pouco mais cedo hoje...
Tô atualizando diariamente porque quero chegar logo no capítulo 38 e 39. Vai ser uma fase interessante, então quero correr.

Eu p r e c i s o saber o que vocês estão achando, sei que não to numa posição de cobrar até pelo tempo que se passou, mas seria de grande valia pra mim saber o que vocês estão achando e como estão recebendo a história.

Não vou me alongar muito, espero que tenham uma boa leitura. O capítulo está um pouco curto, mas ele é apenas uma ponte para o próximo capítulo.

Música para leitura: "Águas de Março" – Elis Regina e Tom Jobim

Gênova, Maio de 1983

Camila atravessou o portão de ferro com a alma nos calcanhares. Dois dias fora, e parecia ter voltado de outra vida. A chave girou com dificuldade, como se a fechadura também a reconhecesse de volta ao cárcere disfarçado de lar.

A casa estava quieta, mas viva de ausências. O corredor exalava aquele cheiro velho de erva-doce misturada com verniz, e havia uma sombra na cozinha — talvez sua mãe, talvez só a culpa.

O tempo que passou com Lauren ainda vibrava no corpo. O toque dela nos ombros, os olhos demorados no meio da noite, as palavras sussurradas como quem tem medo de ser feliz. E, entre uma madrugada e outra, a carta. A carta de Patrícia.

Camila viu Lauren com o envelope na mão, hesitante. Era da amiga no Brasil — aquela que escrevia como se as palavras tivessem cheiro. Camila não leu, mas sentiu. Sentiu o silêncio que ficou entre elas depois da leitura. Sentiu a ausência momentânea no olhar de Lauren, como se uma janela tivesse sido aberta e um vento do passado passasse por ali.

Ela não perguntou. Também não precisava. Algumas dores se respeitam com silêncio.

Camila deixou a bolsa no sofá da sala e seguiu direto para o quarto. O relógio ainda marcava quatro e vinte, e uma cortina mal fechada deixava a luz do fim da tarde escorrer pelo chão.

Sentou-se na cama. O mundo parecia menor agora. A casa, mais apertada. E o peito, cheio demais.

Não teve tempo de respirar. A porta do quarto se abriu com violência, e a mãe apareceu. Os olhos dela, outrora fatigados pela rotina, agora estavam afiados como faca.

— Então resolveu aparecer? — a voz dela era uma linha reta, sem curvas de afeto.

Camila não respondeu.

— Você tem ideia do que causou? Seu pai teve febre. Tremores. O restaurante ficou fechado. A gente teve que dizer que você estava com pneumonia! — ela riu, nervosa. — Nem isso você teve coragem de avisar?

Camila apertou os dedos entre as pernas, como quem tenta se ancorar no próprio corpo.

— Todo mundo perguntando de você, e eu com essa cara de idiota. Sua irmã chorando. E você? Aonde você estava, Camila? Com quem? Com aquela aberração? Nem quando seu pai está morrendo você faz algo que orgulhe-o! — Sua mãe dizia exasperada, não media suas palavras mesmo que se arrependesse em algum outro momento, mas não ali, não agora.

Silêncio.

— Você abandonou seu pai. Abandonou a família. E quer o quê agora? Subir as escadas e fingir que nada aconteceu?

Camila ainda não falou. Nem levantou o olhar. Sabia que qualquer palavra soaria como desculpa — e a mãe não lidava bem com falas trêmulas.

A mãe bufou. Fechou os olhos por um instante como se buscasse paciência num canto escuro da alma.

Noites de InvernoOnde histórias criam vida. Descubra agora