E aí, estão preparados?
Boa leitura!
—
A casa estava escura, mesmo com a luz do dia se esgueirando pelas frestas da persiana mal ajustada. O som dos talheres já havia cessado há tempo — ninguém a chamou para o almoço. Não havia vozes, nem passos, nem sequer tosses. O silêncio ali não era paz, era punição.
Camila desceu os degraus como se pisasse em cacos. O chão estava frio, mas seus pés descalços pareciam não notar. Tudo nela pesava. O corpo. Os olhos. A consciência. O futuro.
O corredor até o quarto do pai sempre lhe parecera estreito, mas agora era sufocante. Cada quadro na parede parecia julgar sua ausência, cada móvel parecia ter ganhado olhos.
Parou diante da porta. Respirou fundo. Bateu de leve.
— Pai?
Ouviu um ruído baixo, arrastado. Abriu devagar.
O quarto estava com um cheiro doce e mofado, como se o tempo ali se recusasse a passar. O homem na cama era a sombra do que já fora. A pele amarelada. Os olhos fundos. Mas ao vê-la, abriu um sorriso frágil, que parecia condensar todas as memórias de quando ela ainda era só uma menina que corria pelos corredores do restaurante.
— Mia... — disse ele, com esforço.
Camila segurou as lágrimas. Se aproximou, com passos pequenos, como se a qualquer movimento brusco o pai pudesse se desfazer diante dela.
— Oi, papà.
— Veio... veio me ver hoje. Que milagre.
Camila sorriu triste. Tocou a mão dele, fria e oscilando entre presença e ausência.
— Me desculpa.
— Já passou, filha... a vida passa. Você ainda tem um casamento, não é? Essa é minha única alegria. Você está cuidando dos preparativos? Sua mãe tem dito que você não apareceu em casa por dois dias.
Ela apenas assentiu. Como se aquele futuro ainda fizesse algum sentido. Não tinha mais o que falar.
— Ele é bom rapaz. Vai cuidar de você. Vai cuidar da casa, do nome. Vai manter o restaurante. Vai...
Ele tossiu forte. Camila se assustou, pegou o copo de água ao lado da cama e o ajudou com cuidado. Depois o cobriu melhor, como se pudesse proteger ele do mundo inteiro.
— Ele vai continuar o que eu comecei — disse ele, cansado, voltando a fechar os olhos. — Só não deixe tudo desmoronar... é a nossa família.
Camila ficou ali, em silêncio. Sentou-se na poltrona ao lado e segurou a mão do pai por mais alguns minutos. Tentava imaginar uma vida com seu noivo. Uma vida de aparências, de obrigações, de domingos entediados e jantares com silêncio protocolar.
Pensou em Lauren.
Na maneira como ela dizia seu nome. No gosto dos beijos sem culpa. Na forma como tudo ali era livre, mesmo quando doía.
Sentiu a garganta fechar. Levantou-se e saiu devagar, como se carregasse o peso de mil promessas que nunca quis fazer ao seu pai.
...
A casa estava mais viva quando voltou ao corredor. Ou talvez só estivesse mais cruel.
A mãe surgiu na cozinha, ainda com o avental manchado de molho e raiva. Camila tentou passar sem falar, mas a voz dela veio como um corte.
— Então agora vai fingir que é filha? Vai se fazer de cuidadosa depois de sumir por dois dias?
Camila parou. Virou-se devagar.
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Noites de Inverno
RomanceItália, 1983. A era do romantismo. De um lado, Lauren Jauregui, uma fotógrafa boêmia de vida pacata na pequena cidade de Génova. Do outro lado, Karla Camila, uma burguesa romântica que sonha em ser uma bailarina. O que acontece quando dois mundos tã...
