Quem é vivo sempre aparece, não é?
Obrigada a todos que ainda estão aqui. Esse capítulo e os próximos, dedico a vocês.
Boa leitura.
Música sugerida:
"Cold Little Heart" - Michael Kiwanuka
Génova, Maio de 1983
1 mês havia se passado. 30 dias angustiantes para Camila.
A cidade parecia respirar com dificuldade naquela semana. O inverno já não era feito de neve leve nem de tardes poéticas: era um peso, úmido e denso, que invadia os ossos e a alma. Camila mal sentia os próprios pés. Andava pela pizzaria como quem caminha dentro de um sonho exausto, carregando bandejas de pizzas que nem sabia mais o nome, limpando mesas com as mãos trêmulas, e sorrindo com a educação de quem se mantém inteira por fora, mas só Deus sabia como por dentro estava em ruínas.
Desde que seu pai adoeceu — de forma brusca, irreversível, e cruel — tudo parecia ruir em câmera lenta. Alejandro, o gigante que carregava a família nos ombros, agora mal conseguia levantar da cama. Tossia sangue, e a doença avançava como uma guerra silenciosa dentro de seu corpo.
Camila estava em mil lugares ao mesmo tempo: acordava antes do sol para organizar os ingredientes do dia, preparava o café da irmãzinha com uma calma que não sentia, treinava sorrisos no espelho antes de entrar no salão da pizzaria e, depois do expediente, corria para o quarto do pai com compressas, termômetros e orações que pareciam não ser ouvidas.
Sinu, sua mãe, estava em colapso. À beira. A mulher outrora firme, que cuidava das contas, do cardápio e dos horários, agora tremia diante da realidade. Suas mãos viviam ocupadas em preparar chás e caldos que Alejandro já não conseguia engolir. Chorava escondida atrás do fogão. Camila via. E não podia chorar junto. Sua mãe havia mudado, ela só não sabia o quanto.
E como se tudo isso não fosse suficiente, havia a proposta — ou melhor, a imposição. O casamento.
Era algo que pairava sobre sua cabeça como uma sombra inevitável. Um acordo. Uma expectativa. Uma ordem velada, disfarçada de solução. Diziam que era o certo a se fazer. Que era o que seu pai queria. Que seria o melhor para a família. Mas tudo dentro dela gritava.
Camila não se via casando. Não daquele jeito. Não com alguém que ela não amava. Não agora. E, talvez, nunca.
O medo a corroía de dentro para fora. Medo de decepcionar os pais. Medo de falhar com a pizzaria, com a irmã, com tudo. Medo de Lauren não compreendê-la. De Lauren achar que ela estava escolhendo um outro caminho. Quando, na verdade, ela só não conseguia respirar.
Do outro lado da cidade, em sua casa, Lauren não sabia como havia chegado até aquele momento. Havia dias em que se sentia perdida dentro de si mesma, como se o peso de suas dúvidas sobre o futuro fosse uma montanha impossível de escalar. Ela olhou para a carta em suas mãos mais uma vez. A resposta de Patrícia não foi longa, mas cada palavra parecia carregar o peso de uma eternidade. Mesmo que não tenha sido dita diretamente, Lauren podia sentir a dor nas entrelinhas. Patrícia, com seu coração silencioso, sabia o que significava o amor não correspondido, mas sabia também o que significava querer que alguém fosse feliz, ainda que isso significasse abrir mão de seus próprios sentimentos.
"Eu sei que o que você sente por Camila é verdadeiro, Lauren. Eu sei disso da mesma forma que sei que você é uma mulher incrível, mesmo que não consiga ver isso ainda. Não se culpe por não ser perfeita. O que importa é o que você pode dar a ela. E, acima de tudo, o que você pode oferecer a si mesma. Não seja tão dura consigo mesma. Não deixe a insegurança roubar a felicidade que pode existir entre vocês. Camila precisa de alguém que a ame, e você já está fazendo isso."
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Noites de Inverno
Любовные романыItália, 1983. A era do romantismo. De um lado, Lauren Jauregui, uma fotógrafa boêmia de vida pacata na pequena cidade de Génova. Do outro lado, Karla Camila, uma burguesa romântica que sonha em ser uma bailarina. O que acontece quando dois mundos tã...
