Capítulo 22

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FELIX
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Quando todos foram embora, Olivia murchou no sofá e eu pensei sobre tudo que Han havia me dito sobre a depressão de Minho. Senti que precisava falar com ela sobre tudo isso.

— Ei, amor.

— Sim?

— Nós nunca conversamos sobre o que ocasionou toda essa dor que te consome. Acha que se sente confortável em desabafar sobre isso comigo?

— Se você prometer não ficar chateado comigo, eu me sinto.

— Por que eu ficaria?

— Porque de forma indireta, te afeta.

— Eu não vou ficar, eu te prometo. — estendi o mindinho e ela o apertou. Olivia respirou fundo.

— Eu sempre me senti deslocada na nossa família, parecia que todos ali tinham um lar, menos eu. Eu nunca pertenci a nada, nem ninguém, lugar nenhum, não parecia a minha família, entende? O papai e a mamãe me davam muita atenção quando eu era pequena, mas quando cresci, parecia que tudo era sobre você e a Rachel. Vocês importavam mais do que eu e eu parecia tão... irrelevante pra todo mundo ali.

Ela fechou os olhos.

— A gente criou tantas memórias como família, mas quando me lembro delas, nunca pareço ser uma participante e sim uma espectadora. Quando eu descobri sobre a ansiedade, pareceu irrelevante pra eles, mas quando foi com a Rachel... o mundo acabou. Eu não quero que você ache que eu pense que vocês não mereciam toda a atenção e carinho que tiveram, mas alguma vez você sentiu que precisava relembrar ao papai e a mamãe que também é filho deles? — neguei. — Eu senti isso. Sempre.

Apertei a sua mão.

— E teve um tempo em que eu realmente passei a implorar pra ter toda essa atenção, mas eu cansei. Eu nunca dei trabalho, sempre tive notas boas na escola e tentei nunca dar dor de cabeça. Eu descobri um transtorno alimentar sozinha e tentei cuidar disso sozinha, porque sabia que a minha dor nunca chegaria a ser algo interessante pros dois. Eu perdi totalmente a minha cabeça e ninguém percebeu.

— Liv... Eu nunca imaginei que você se sentia assim.

— Eu fiquei completamente insuportável quando descobri a depressão, tudo me deixava cansada e eu tentava ao máximo não brigar com ninguém, mas eu afundei tanto por me sentir assim que tudo me irritava. Meus irmãos nunca imploraram para serem amados e cuidados, porque eu tinha que fazer isso? — ela riu em escárnio. — Por que eu tenho que implorar para ser amada? Não é um amor simples e genuíno que nasce dos pais?

— Eles te amam, meu amor.

— Não do jeito que eles amam você e a Rachel. É justamente por isso que eu nunca falei como eu me sinto, você não sabe como é se sentir invisível porque você nunca se sentiu. Sabe o que eu fiz quando recebi o diagnóstico de depressão?

Neguei.

— Estava chovendo e eu não levei guarda chuva, sentei na calçada em frente ao hospital e chorei. De alívio, de felicidade. Porque eu tinha uma razão pra ser triste e cansada, não era preguiça ou drama, era uma doença.

— Você chorou de felicidade?

— Sim. Estranho, né? — ela riu. — Eu achei que eles me dariam o amor e atenção que eu recebia quando era criança.

— Você devia ter me dito que se sentia assim, Olivia. Eu sei que o meu amor nunca será suficiente para cobrir o vazio que a ausência de carinho dos dois deixou, mas eu farei e faço de tudo pra você se sentir amada. Você é a minha bebê, minha irmãzinha caçula e o maior presente que eu ganhei.

Senti o corpo dela se aproximar de mim e a envolvi em um abraço, acariciei seus cabelos e ela descansou ali.

— Eu te amo. Muito. E eu sou muito grata por ter todo o seu apoio, da Rachel e dos meninos.

— Você ainda fala com a Rachel? Achei que a briga de vocês tinha sido pra valer.

— Ela me liga todo dia, me dá sermão pra levantar da cama e tentar viver. Diz que tá com saudade e que apesar do nosso último encontro não ter sido bom, ela ainda me ama com todo o coração e que eu e você sempre seremos os melhores presentes que o papai e a mamãe deram pra ela.

— Olha, eu sei que o amor de pais é a coisa mais sagrada do mundo, mas você não precisa disso... não precisa deles. Sabe como foi a confusão quando eu me assumi e saí de casa, eles não me ligaram uma vez sequer desde tudo isso. Sangue não estipula família e eu aprendi isso depois de muito tempo, você não precisa deles pra ser feliz.

— Dizem que o amor de pais é o mais profundo, não é? Mas profundidade é relatividade e achar tudo relativo é nunca se identificar com nada, acho que talvez seja por isso que eu nunca me identifiquei com a nossa família, mesmo tentando muito.

— Eu te amo muito, Olivia. Você é a minha vida e saiba que sempre vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance pra te fazer feliz, qualquer coisa que me pedir, eu farei. Eu me importo muito com você e sempre vou.

— Eu também te amo, Lix. Muito.

Ela sorriu. Mas dessa vez foi um sorriso travesso. Um que fazia anos que eu não via em seu rosto.

— Fará qualquer coisa que eu pedir?

— Sim... Eu acho? — respondi, incerto.

— Namora o Minho, então. Ele seria um ótimo cunhado. — o sorriso se alargou. —E o Jinnie poderia ficar com o Han... Vocês são incríveis juntos.

— Liv... Não é simples assim.

— Eu sei, mas pode ser. São vocês quem complicam as coisas.

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