capítulo 19

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FELIX
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Depois de fazer Minho tomar seus remédios e o colocar para dormir, Han veio até mim.

— Obrigado por trazê-lo. Minho fica muito impulsivo quando está triste... — se sentou de frente para mim, me entregando uma garrafa de soju como havia dito antes que iria trazer. — O que aconteceu, Felix? Ele chegou transtornado, mal podia falar.

— Eu não sei bem, vieram atrás de mim para perguntar se poderiam permitir a entrada do meu pai e eu já achei estranho, ele está em Los Angeles, eu respondi que devem ter confundido o Lee. Há três na empresa.

— Ah, Meu Deus. — Jisung passou as mãos pelo cabelo, parecia nervoso.

— Então o levaram para sala de visitantes, quando passei por lá escutei muitos gritos, o homem saiu e eu escutei o barulho de vidro quebrando. Me preocupei e entrei. — suspirei. — Olha, eu sei que não deveria me intrometer por conta das circunstâncias em que estamos, mas o Minho... Parecia tão diferente de si, sentado ali, fragilizado. Não pude deixar de tentar ajudar.

— Você fez bem. Sabe, eu tenho quase a certeza de que aquele era o pai dele. — disse. — Só isso explicaria a situação dele e ah, como estou grato de não ter sido uma recaída.

— Espera. Desculpe por dizer, mas Minho havia dito que a única família que ele tinha era você e os meninos. E como assim recaída?

— Ele não mentiu. O pai dele abandonou os três, desde então ele não suporta mais ouvir falar sobre ele, foi em um momento muito complicado da vida dele.

Encarei a janela da sala dos dois só para ver o vidro embaçado com a chuva que se iniciou de forma repentina. Senti que o que Han iria me contar iria me mudar de alguma forma, seja ela positiva ou negativa.

— Eu não sei se estou pronto para ouvir o que eu acho que é. Não é sobre mim, mas vou me sentir muito mais infeliz ainda sobre o que eu disse antes. — a voz de Felix era baixa, quase um sussurro.

Percebi quando Han girou o anel no dedo, me lembrava um tique nervoso que Olivia tinha quando estava prestes a falar algo que preferia guardar. Seus olhos estavam fixos no líquido na garrafa que ele também segurava.

— Eu... não sei como — sua voz quebrou, e ele passou a mão pelo rosto, tentando se recompor. — Não sei como colocar em palavras algo que me destruiu tanto quanto destruiu ele.

Jisung respirou fundo antes de continuar.

— Foi uma noite... como qualquer outra. Ou pelo menos, eu achava que era. Minho estava estranho, mas quando ele não estava? Achei que fosse só cansaço, o peso do mundo em cima dele como sempre. Ele me disse que estava bem, e eu acreditei. — A risada amarga do mais baixo cortou o ar. — Eu acreditei, Lix.

Ele fechou os olhos por um momento, como se pudesse voltar no tempo e mudar tudo.

— A verdade é que eu não vi e talvez não queria ver porque sabia que ia doer muito. Não vi que ele já tinha desistido. Não vi que ele estava tão perdido que a dor era a única coisa que ele conseguia sentir. Eu fui para casa achando que no dia seguinte tudo ficaria bem, mas não ficou.

Segurei a respiração, sabia como aquela história terminava. Foi assim com a minha irmã também.

— Ele me ligou, Felix. No meio da madrugada. A voz dele estava... vazia. Ele disse que estava cansado. Que doía demais. Eu tentei falar alguma coisa, tentei fazer com que ele segurasse firme só mais um pouco, mas então... a ligação caiu. — Han apertou os olhos, como se pudesse afastar as memórias. — Eu nunca corri tanto na minha vida. Quando cheguei lá, ele estava... Ele estava...

A voz dele falhou. Ele não conseguia dizer em palavras o que tinha visto. Não conseguia descrever o desespero de encontrar seu melhor amigo à beira de um fim que ele não queria aceitar.

— Eu o segurei nos braços, Lix. Eu implorei para ele ficar. Eu disse tudo o que deveria ter dito antes. Mas... e se tivesse sido tarde demais? E se eu tivesse chegado um minuto depois?

Ele deixou escapar um soluço abafado, coloquei meus braços ao redor de seu ombro para demonstrar um apoio silencioso.

— Eu me pergunto todos os dias onde foi que eu errei — continuou, sua voz rouca de emoção. — Será que eu deveria ter notado antes? Ter perguntado mais? Ter insistido quando ele dizia que estava bem? Eu teria conseguido salvá-lo antes dele decidir que não queria mais ser salvo?

Engoli em seco. Não havia como eu dar as respostas para essas perguntas. Não havia um manual sobre como salvar uma vida antes que ela escorresse pelos dedos.

— Você esteve lá, Jisung. Você salvou ele e continua salvando.— Han balançou a cabeça.

— Mas e se ele ainda estiver se afogando e eu nem perceber?

— Então nós continuamos nadando com ele. Todos os dias.

Han fechou os olhos, quando abriu, olhou para a chuva que estavamos vendo cair cada vez mais forte.

— Não tem condições de você ir embora dessa forma. — disse, ao se levantar. — Vem, vou pegar uma roupa nova para você tomar um banho e ajeitar o colchão de baixo da cama do Lino.

— Dormir no mesmo quarto com... ele?

— Ele não vai te matar. — riu fraco, enxugando as lágrimas. — Ele precisa disso, no fundo Minho entende que você foi um babaca mas que se arrepende.

— Eu espero que você esteja certo.

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