Quando você chegou

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Meu corpo parecia feito de vidro. Cada movimento era uma ameaça, cada respiração carregava o medo de se quebrar. A dor ainda estava entranhada na pele — não apenas a dor física, mas aquela que não sangra, que não deixa marcas visíveis, mas que corrói como ácido.

Sentei-me na beira da cama com dificuldade, os joelhos trêmulos, a mente pesada demais para sustentar qualquer pensamento linear. O quarto estava silencioso, exceto pelo som distante dos passos de Day no corredor. Eu sabia que era ele. Mesmo sem ver, eu sentia. O peso de sua presença me atravessava como uma onda de calor frio, contraditório, sufocante.

Ele havia saído antes, depois daquela crise que quase o fez despencar em pedaços diante de mim. Culpa. Era tudo o que eu enxergava nele agora: culpa pingando dos olhos, culpa nas mãos que hesitavam, culpa nos lábios que buscavam palavras, mas que se calavam no último segundo.

E no entanto... havia algo mais. Algo que eu me recusava a nomear.

A porta rangeu e, por um instante, eu quis que ele não entrasse. Mas ao mesmo tempo... meu corpo estremeceu de antecipação. Contradição. Sempre essa contradição me rasgando por dentro.

Day surgiu no vão da porta, os ombros largos ocupando o espaço como se fossem muralhas. Seu olhar, porém, não carregava a dureza de antes. Era um olhar quebrado, um olhar de homem despido da própria força.

— Itt... — sua voz saiu baixa, como se ele tivesse medo de falar mais alto e me despedaçar.

Eu não respondi. Apenas o observei, e nesse silêncio havia mais acusação do que qualquer palavra poderia conter.

Ele entrou devagar, como quem pisa em um terreno minado. Trazia uma toalha sobre o ombro e um balde com água morna. Eu o segui com os olhos, tentando decifrar seus gestos. Ele não se aproximou de imediato, apenas pousou as coisas sobre a mesa, respirou fundo e ergueu o olhar na minha direção.

Havia tantas coisas que eu queria gritar. Tantas perguntas. Tantos insultos. Mas tudo se transformou em silêncio, porque ao mesmo tempo em que eu queria feri-lo com palavras, havia uma parte de mim — a parte que me envergonhava — que queria correr para os braços dele.

Eu o odiava. Mas eu também...

Não. Eu não podia pensar nisso.

Ele se aproximou devagar, estendendo a mão como se pedisse permissão. — Posso...? — sua voz falhou, quase um sussurro.

Meu corpo reagiu antes da minha mente. Meus músculos se contraíram, como se gritassem "não". Mas meus olhos ficaram presos aos dele, e havia algo ali que me paralisou. Não era a arrogância de antes, nem o poder esmagador de um alfa-lupus. Era vulnerabilidade. Um homem implorando por um fragmento de perdão que eu não tinha para dar.

Sem esperar resposta, ele se ajoelhou diante de mim. Suas mãos — grandes, quentes, firmes — tocaram meus tornozelos com uma delicadeza que parecia impossível vindo dele. E foi aí que eu percebi como meu corpo estava frio. Eu tremia, mesmo sem querer.

Ele molhou a toalha e começou a limpar minhas pernas. Os movimentos eram lentos, cuidadosos, quase reverentes. Cada toque despertava uma lembrança — algumas dolorosas demais para suportar. Eu quis empurrá-lo, gritar, fugir. Mas ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que queria se afundar naquela sensação, porque fazia tanto tempo que eu não era tocado assim.

— Me perdoa... — ele murmurou, quase inaudível. — Eu juro, Itt... eu nunca quis... não desse jeito.

A toalha subiu pelas minhas coxas, e meu coração disparou. Eu estava confuso. Minha mente gritava que aquele homem havia sido meu carrasco, mas meu corpo ardia sob o toque dele. Era cruel. Eu odiava essa fraqueza.

Fechei os olhos, tentando afastar a enxurrada de memórias. Mas elas vinham mesmo assim. O quarto escuro. As mãos que me seguravam. As palavras ditas com raiva, cuspidas como veneno. A dor. O medo. A vergonha.

E agora... aquelas mesmas mãos me tocavam com cuidado, quase com devoção. Como se quisessem apagar as marcas que elas mesmas deixaram.

— Você não sabe... — minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. — Você não faz ideia do que fez comigo.

Ele parou. Eu senti a toalha estagnar contra minha pele. O silêncio se estendeu, pesado, sufocante. Então ele falou, e sua voz era um fio trêmulo:

— Eu sei. Eu sei, Itt. E é isso que me mata todos os dias.

Abri os olhos. Seus olhos estavam marejados. O alfa-lupus, o homem que sempre parecia inquebrável, estava ali, de joelhos diante de mim, pedindo perdão com lágrimas presas nas pálpebras.

Parte de mim queria acreditar nele. Parte de mim queria se jogar nos braços dele e esquecer. Mas eu não podia. Porque a dor ainda estava aqui. Porque o medo ainda me paralisava.

— Eu te odeio — sussurrei, e senti o gosto amargo da mentira na boca.

Ele não contestou. Apenas baixou a cabeça e continuou o que fazia, em silêncio, como se aceitasse meu ódio como punição justa.

O banho terminou. Eu estava cansado, exausto de corpo e alma. Ele me ajudou a deitar, ajeitou o cobertor sobre mim e saiu por um instante. Voltou com uma tigela de sopa. Sentou-se na beira da cama e segurou a colher diante dos meus lábios.

— Come um pouco — pediu, quase suplicando.

Eu hesitei. Mas meu corpo, fraco, não me deu escolha. Abri a boca e deixei que ele me alimentasse. Cada colherada era um gesto de cuidado que doía mais do que qualquer ferida. Porque parte de mim queria acreditar que aquele homem podia ser diferente.

Mas acreditar significava me expor de novo. E eu não tinha certeza se sobreviveria a outra queda.

Enquanto ele me alimentava, senti uma pontada forte no baixo ventre. Uma dor súbita que me fez arquejar. Ele largou a tigela imediatamente, os olhos arregalados.

— Itt? O que houve? — sua voz soou desesperada.

Levei a mão à barriga, ofegante. O medo subiu pela minha garganta como fogo. Eu sabia o que estava acontecendo. Eu sabia o risco que carregava dentro de mim.

— É o bebê... — murmurei, a voz quase sumindo.

Day congelou. Seus olhos me encararam como se o mundo tivesse parado. Então, sem hesitar, ele segurou minhas mãos, pressionando-as contra a barriga.

— Eu não vou deixar nada acontecer com vocês. Eu juro, Itt. Eu juro pela minha vida.

Eu quis acreditar. Quis me entregar àquela promessa. Mas as lembranças ainda estavam vivas, latejando dentro de mim.

Fechei os olhos e deixei uma lágrima escapar. Eu o amava. E o odiava. Eu queria fugir dele. E queria me perder nele.

Era essa a minha prisão.

E naquele silêncio pesado, entre dor, medo e desejo, percebi que não havia como escapar. Porque mesmo que eu tentasse negar... meu coração já estava atado ao dele.

Oi meus amores

Sumi né?

Gente eu tava viajando

Nossa como é bom viajar

Eu vou tentar terminar essa história até no máximo final do mês de outubro no máximo.

Então um beijo 😘😘

De mim mesma:

Uma voz na escuridão

 My Brands Day Itt Histórias para pegar e não largar. Descubra agora