Entre o Medo e o Desejo

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A noite havia sido pesada. Mesmo com os olhos fechados, eu não havia realmente dormido. O beijo da noite anterior queimava em meus lábios como uma cicatriz invisível, algo que eu não conseguia apagar da mente. Era um gesto simples, mas que havia despedaçado minha resistência. E eu não sabia como lidar com isso.

Quando abri os olhos pela manhã, a primeira coisa que vi foi Day. Ele estava sentado na poltrona ao lado da cama, o corpo curvado, como se tivesse passado a noite em vigília. O sol entrava tímido pelas cortinas, iluminando seu rosto de uma forma cruel: porque mesmo cansado, ele parecia tranquilo. Como se o simples fato de estar ali, próximo a mim, lhe bastasse.

Eu virei o rosto, tentando ignorar a sensação de calor que crescia em meu peito. Eu não podia me permitir aquilo. Não depois de tudo. Não depois de tantas noites escuras em que o mesmo homem que agora me oferecia silêncio já havia me oferecido dor.

Mas quando tentei me mover, um peso na barriga me lembrou da verdade. O bebê. Nosso bebê. Eu levei a mão até o ventre e fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Ainda estava cedo demais para sentir movimentos constantes, mas nos últimos dias, cada toque, cada emoção intensa, parecia despertar algo nele.

— Está bem? — a voz de Day cortou o silêncio, baixa, cautelosa.

Eu não respondi de imediato. Fiquei apenas olhando para o teto, tentando encontrar uma resposta que não entregasse a confusão que eu sentia.

— Estou vivo — murmurei, repetindo o que já havia dito antes.

Dessa vez, ele não suspirou. Apenas se levantou, aproximou-se e ajeitou o lençol sobre mim, como se esse pequeno gesto fosse um escudo contra o mundo.

— Quer levantar um pouco? O médico disse que andar pelo corredor pode ajudar na circulação.

Meu primeiro instinto foi dizer não. Mas meu corpo estava cansado de ficar preso à cama, e talvez me mover ajudasse a aliviar a pressão dentro de mim. Assenti em silêncio.

Day estendeu a mão, hesitante, e eu a encarei como se fosse uma corrente. Parte de mim queria recusar. Parte de mim queria aceitar. No fim, meus dedos se entrelaçaram aos dele.

Ele me ajudou a sentar, devagar, com uma paciência que parecia impossível vindo de alguém tão grande, tão intenso. Quando meus pés tocaram o chão frio, uma tontura leve me fez vacilar. Imediatamente, ele segurou minha cintura, sustentando meu peso com firmeza.

O contato me fez estremecer. O calor dele contra minha pele atravessou camadas que eu havia jurado proteger. Eu podia sentir sua respiração, lenta, contida, como se ele lutasse contra algo dentro dele também.

— Devagar — murmurou. — Eu estou aqui.

E essa frase simples, dita sem arrogância, sem imposição, foi como um soco em meu peito. Eu estava acostumado a ouvi-la em outros tons, como uma ameaça, uma sentença. Mas agora ela soava como promessa.

Andamos pelo corredor, passo após passo. Ele mantinha a mão firme em minha cintura, guiando-me com cuidado. Cada toque, cada gesto, era um conflito para mim. Porque meu corpo não recuava. Pelo contrário: parecia buscar proximidade.

O bebê reagiu de novo. Uma pressão leve, um movimento discreto, mas suficiente para me arrancar o fôlego. Parei, levando a mão à barriga.

— Ele se mexeu? — Day perguntou, a voz carregada de emoção.

Assenti, sem conseguir falar.

Ele se ajoelhou diante de mim, sem se importar com o olhar curioso de uma enfermeira que passava ao longe. Colocou a palma da mão sobre meu ventre, e como se respondesse ao chamado, o bebê se mexeu outra vez.

O rosto de Day se iluminou com um brilho que me cortou. Era felicidade pura, crua, sem máscaras. Eu não lembrava de já tê-lo visto assim.

— Ele sente você — sussurrou, olhando para minha barriga como se fosse algo sagrado. — Ele sabe que sou o pai dele.

Meu coração disparou. Eu queria odiar aquelas palavras, queria me agarrar ao rancor que me mantinha de pé. Mas ver aquele homem — o mesmo que tantas vezes me havia sido sinônimo de dor — ajoelhado diante de mim, emocionado com a vida que crescia em meu ventre, desmoronava todas as minhas barreiras.

Eu virei o rosto, tentando conter as lágrimas que ardiam em meus olhos.

— Não faz isso. — Minha voz saiu trêmula. — Não me mostra esse lado, Day. Eu não consigo lidar.

Ele ergueu o olhar, e por um instante vi em seus olhos não apenas culpa, mas súplica.

— Eu não estou fingindo, Itt. Eu nunca estive tão verdadeiro quanto agora.

As palavras ecoaram dentro de mim. Eu quis recusar, quis me fechar, mas meus dedos traíram minha mente. Eles buscaram o ombro dele, segurando-o com leveza, como se precisassem de um ponto de apoio.

O tempo parou. O silêncio do corredor se tornou absoluto. Ele ergueu-se devagar, e quando ficou diante de mim, nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir o calor de sua respiração.

Meu instinto gritou para recuar. Mas meu corpo permaneceu imóvel. Meu coração batia descompassado, e o bebê, dentro de mim, reagia de novo, como se também sentisse a intensidade do momento.

Day ergueu a mão e roçou os dedos em minha bochecha. O toque foi delicado, quase reverente, e eu fechei os olhos, permitindo-me sentir.

— Eu não mereço você — ele murmurou. — Mas eu quero passar o resto da minha vida tentando ser digno.

Eu não aguentei. Meus olhos se abriram, encontraram os dele, e naquele instante toda a culpa, todo o medo, todo o desejo contido explodiu.

Eu o beijei.

Dessa vez não foi um beijo hesitante. Foi profundo, carregado de todas as contradições que me dilaceravam. Amor e ódio, dor e desejo, culpa e entrega. Minha mão agarrou sua camisa, puxando-o para mais perto, enquanto a dele se firmava em minha cintura, sustentando-me como se eu fosse frágil demais para o mundo.

Quando nos afastamos, meu peito ardia. Eu estava ofegante, as lágrimas escorrendo sem controle.

— Eu te odeio… — sussurrei de novo, mas a frase soava cada vez mais vazia.

Day encostou a testa na minha, os olhos marejados.

— Então me odeie. Mas deixa eu te amar.

As palavras dele se cravaram em mim como ferro em brasa. Eu queria recusar, queria fugir. Mas, no fundo, eu sabia: parte de mim já havia se rendido.

Voltamos para o quarto em silêncio, mas não era um silêncio pesado. Era um silêncio cheio de coisas não ditas, cheio de promessas que eu ainda não sabia se queria aceitar.

Deitei na cama, exausto. Day ajeitou o lençol sobre mim, e quando se afastou, minha mão o segurou sem que eu pensasse. Ele me olhou surpreso, e eu apenas desviei o olhar, envergonhado.

Ele não disse nada. Apenas se sentou ao meu lado, segurando minha mão até que o sono finalmente me venceu.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu adormeci não apenas com medo. Adormeci com o coração em guerra, mas com uma chama nova queimando em meio às ruínas.

Uma chama que eu ainda não sabia se seria redenção ou condenação.

Oi meus amores 😙

Tudo bem com vocês?

Estamos nos preparativos para o últimos caps

Um beijo 😘 😚

De mim mesma:

Uma voz na escuridão.

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