O hospital tinha cheiro de antisséptico, paredes brancas demais, frias demais. Um ambiente asséptico que parecia ao mesmo tempo seguro e sufocante. Eu estava deitado, preso ao lençol áspero, com o soro pingando lento em meu braço, e cada segundo parecia uma eternidade. Meus olhos vagavam pelo teto, mas minha mente vagava por labirintos muito mais sombrios.
Eu pensava em tudo que havia perdido. Minha mãe, cedo demais. Meu pai, arrancado de mim quando eu ainda precisava de um norte. O sonho da faculdade, que ficou no meio do caminho como um livro abandonado na prateleira errada. E agora… o corpo, a mente, o coração — todos fragmentados pelo peso de um passado que ainda sangrava.
E, no meio de tudo, o bebê.
Meu bebê.
A única luz dentro de mim.
Mas até mesmo essa luz estava atada a ele. A Day. O homem que me destruiu e que agora insistia em ser aquele que tentava me reconstruir.
A porta abriu devagar, e meu peito se contraiu. Eu não precisava olhar para saber quem era. O ar mudou. A presença dele tinha um peso próprio, quase animal, que atravessava paredes.
Day entrou em silêncio, segurando uma sacola com frutas e um casaco dobrado sobre o braço. Ele usava uma camisa simples, mangas arregaçadas, revelando os antebraços fortes que tantas vezes foram prisão para mim. Só que agora, quando ele se aproximava da cama, esses mesmos braços carregavam outra coisa: cuidado.
— Trouxe algumas coisas pra você. — A voz dele era baixa, rouca, quase como se tivesse medo de quebrar o ar entre nós.
Eu não respondi. Apenas desviei o olhar para a janela. Lá fora, a cidade seguia indiferente, e por um instante eu desejei ser um desses passantes apressados, alguém sem lembranças pesando no peito, alguém sem essa contradição dilacerante me corroendo por dentro.
Ele colocou a sacola sobre a mesinha e depois puxou a cadeira, sentando-se ao meu lado. Não havia pressa em seus movimentos. Apenas aquele silêncio pesado, como se cada respiração fosse um pedido de permissão.
Por alguns minutos, ficamos assim. Eu fingindo que olhava a paisagem, ele fingindo que não me observava. Mas eu sentia. Sentia o olhar dele grudado em mim, quente, incômodo, quase implorando para ser notado.
— Como está se sentindo hoje? — arriscou.
Engoli em seco. A pergunta simples me pareceu uma armadilha. Como eu estava? Eu estava despedaçado. Eu estava cansado. Eu estava cheio de ódio e, ao mesmo tempo, cheio de um desejo que me envergonhava. Mas nenhuma dessas palavras escapou da minha boca.
— Estou vivo — murmurei.
Ele suspirou, e o som pareceu carregar mais peso do que qualquer discurso.
Depois, inclinou-se devagar, ajeitando o travesseiro atrás de mim. Eu estremeci ao sentir seus dedos roçarem minha nuca, gentis, cuidadosos, e meu corpo reagiu antes da minha mente. Meu coração disparou, e eu me odiei por isso.
O bebê se mexeu.
Pequeno, quase imperceptível, mas eu senti.
E percebi que Day também sentiu, porque seus olhos desceram para minha barriga e se iluminaram com algo que eu não soube nomear.
Ele estendeu a mão, hesitando no ar, como quem pede permissão. Eu não disse nada, mas também não afastei. Quando sua palma pousou sobre meu ventre, o bebê reagiu de novo, como se reconhecesse a presença do pai.
Meu peito ardeu.
Era cruel.
Eu queria chorar, gritar, expulsar aquela sensação. Mas, ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que se agarrou a esse instante como quem se agarra a uma boia no meio do oceano.
— Ele sabe que estou aqui — Day murmurou, os olhos fixos em minha barriga. — Ele sente.
Fechei os olhos. Não queria ouvir aquela voz tão próxima, tão carregada de emoção, porque cada palavra dele era uma lâmina que cortava minhas defesas.
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My Brands Day Itt
FanfictionItt estava recebendo um castigo por algo que não fez. Ele não mandou fazer aquilo com o irmão de Day, mas levou toda a culpa por está no local errado. essa é um outra versão da história de Day e Itt, mas no mesmo nível de toxidade ou parecido. aqui...
