Capítulo 4 - Estupro

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Acomodada no banco do passageiro, ela sorri simpaticamente me desejando um bom dia - retribui o sorriso e devolvi seu celular. - Então Melissa, eu saí de casa sem tomar café, que tal você me acompanhar? - minhas bochechas coraram, não acredito que a chamei para sair!

— Nossa, te acordei mesmo, né? - e sorriu com aquele jeitinho que parecia me provocar a cada movimento - Vou sim, será um prazer! - falou colocando o cinto.

Oi?! Ela aceitou?! Meu Deus, me segura que eu não quero demonstrar euforia... Dei partida no carro e fui rumo à praia. O assunto entre Melissa e eu fluía naturalmente. Falávamos sobre o meio ambiente, sobre história, cidadania, e quando falamos sobre a violência da cidade, ela citou o que havia lhe acontecido no dia que nos conhecemos. Disse que todas as noites tinha pesadelos com as vagas lembranças que lhe surgiam. Fiquei meio perdida sem saber o que dizer, ela parece ter percebido e mudou de assunto.

— E a Lívia? É sua namorada? — perguntou olhando para frente.

— O quê? — a olhei incrédula e ri — Não mesmo! A Lívia é minha melhor amiga e hétero ( uma hétero curiosa, mas hétero) haha! Por que? Ficou interessada, é?

— Claro que não! Eu também sou hétero (risos) — falou me olhando e sorrindo.

Merda, não podia ser... Enfim, a vida é feita disso, né? E agora? O que eu falo? Ufa, graças à Deus chegamos!

— Nossa, por que é tão difícil encontrar uma vaga por aqui?

— Ali tem uma! — falou apontando.

— Você é uma ótima copiloto!— risos.

Descemos do carro e sentamos numa barraca na beira da praia. Pedimos sucos, pães de queijo, uns sanduíches naturais e sorvete para sobremesa. Estávamos sentadas uma em cada lado da mesa, minha cadeira estava completamente virada para o mar, e meu cotovelo direito repousava na mesa. Estava a algum tempo distraída observando o mar e tomando meu sorvete de flocos quando a Melissa decidiu quebrar o silêncio:

— Você trabalha ou estuda? — indagou Mel.

Sabia que ia contar a história então decidi me ajeitar. Virei minha cadeira para a mesa e a olhei.

— Terminei a faculdade de Jornalismo há alguns anos atrás e atualmente trabalho como redatora de um jornal.

— Nossa que interessante! Estou tomando café da manhã com uma jornalista. - ela ironizou.

— No entanto, nem sei por quanto tempo continuarei nesse serviço. A vida dupla entre baladas ao anoitecer e trabalho ao amanhecer me esgota completamente. Uma depressão profunda me pegou e as vezes não sei como sair dela. - Melissa arregalou os olhos, e eu continuei - Três anos se passaram e eu só me preocupei em me manter viva. A Lívia me ajudou bastante a superar, me levava pra sair, me animava... Então minha vida meio que parou no aspecto profissional. Eu já fui uma grande redatora, hoje sou menos que mediana.

— Nossa, entendo! Mas qual foi o motivo da depressão? Perdoa se eu estiver sendo muito invasiva... — estava com um ar preocupado tão bonitinho...

Com essa pergunta eu refleti por um instante... Não pelo motivo da depressão, pois eu sabia bem. Mas refleti sobre esses dois dias em que a Melissa ''estava na minha vida''. Apesar de ter acabado de encontrá-la, e nunca termos ficado, e ela ser hétero e não ter a mínima hipótese de termos algo, ela estava aliviando meus sintomas de saudades da Clara desabafando sobre isso com alguém.

2 - Colorindo uma vida de tons cinzasOnde histórias criam vida. Descubra agora