Camille
- Meu Deus!! Não acredito que era isso que ele estava querendo dizer.- grito baixinho no meu quarto.
Hoje não trabalhamos, estou deitada e como está bem quente, estou apenas com um blusão, durante a semana não consegui tirar da cabeça o enigma de Johnnie, por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em nada!
- Beijo, um beijo!!! Será que é realmente isso que ele quer?- tô andando pelo quarto me refazendo essa pergunta inúmeras vezes.- afinal, além dos livros só tinha escrito: Beijos carinhosos Camille Aguiar.
Mas ele é casado, não deve ser isso, ou é? Amanhã vou tirar isso a limpo. Ouço minha mãe me chamar.
- Já vou descer!! - grito enquanto procuro uma roupa, escolhi um short pink e uma regata branca, calço uma sandália e desço.
- Vai lá no mercado! Preciso que compre umas coisas aqui pra casa.- ela me entrega uma pequena lista, sempre diz que se não estiver escrito no papel, eu vou esquecer. São coisas básicas, alguns itens que falta pra fazer um frango de forno ou algo assim, um jarrinho pra plantar umas flores... coisinhas simples.
Estou voltando do mercado e vejo umas criança brincando no parquinho da praça, vejo um homem se aproximar de uma garotinha que tá subindo no escorrego, estou um pouco distante e não consigo ver o rosto com nitidez, mas estou reconhecendo a garotinha, é Raquel, então aquele só pode ser.....
- Oi, Camille!! -ouço Johnnie me chamar, e concluo que meu palpite estava certo.
A menina está com um vestido rosa-bebê e o pai com uma camisa polo azul marinho e short jeans. Moramos no mesmo bairro, mas em ruas diferentes e quase não nos encontramos a não ser no trabalho.
- Oi!!- falo quando vou me aproximando deles. Raquel já foi logo me dando um largo sorriso, ela é uma linda garotinha, muito educada e gentil.
- Olá!- ouço a voz dele, o que me faz desviar a atenção da menina e olhar pra ele.- está passeando?
- Não exatamente, só fui ali no mercado.- levanto a mão, mostrando a sacolinha que carregava.
- Ok!!! E antes que eu me esqueça.... Eu quero!!
Devo ter ficado vermelha, porque lembrei o que possa ser esse EU QUERO, mas preferi fazer de conta que nem me lembrava desse assunto.
- Acho que o que tem aqui não é muito atrativo.- falo apontando pra sacola novamente. - alguns temperos, comida crua, um jarro de flores.....
- Você sabe do que tô falando.
-Não!! Não sei, simplesmente porque você não diz. Mas amanhã eu faço questão de esclarecer isso, porque agora já estou indo embora.
Dou tchau pra pequena e saio caminhando. Ele chama a filha e a pega nos braços e sai caminhando atrás de mim.
- Não me diga que você também vai embora agora?
- Vou sim! Vamos né, minha pequena? - ele pergunta a garota, que faz um sim com a cabeça - assim te fazemos companhia.
- Obrigada, mas não precisa, pode continuar brincando com sua filha.
- É sério, a gente também já estava indo embora, já faz mais de uma hora que estamos aqui.
- É verdade, o papai até brincou comigo de esconde-esconde.-ele lhe dá um beijo na bochecha e ela retribui com um abraço apertadíssimo.
- E cadê a mamãe?- pergunto enquanto ele a coloca no chão novamente.
- Tá em casa, ela nunca me trás no parquinho.- noto um olhar triste e sei como ela deve estar se sentindo, nunca recebi carinho do meu pai ou mãe, ela pelo menos parece receber do pai.
- Marta sempre diz que não tem paciência pra ver uma criança ficar correndo de um lado pro outro. Sempre que posso eu gosto de traze-la aqui.
Como uma mãe não tem paciência de brincar com a filha?? Sei que crianças são muito elétricas e não param quietas, mas é só olhar pra carinha de felicidades delas que qualquer esforço vale a pena.
Um dia quando eu for mãe, vou ser muito coruja, vou mimar demais, vou ser e dar tudo aquilo que não tive " AMOR, CARINHO E ATENÇÃO".
Algodão doce, algodão doce, olha o algodão doce!!!
- Aqui moço!! Chamo atenção do vendedor que grita na rua, ou melhor que berra na rua, impossível não ouvir a quilômetros de distância.
- Ela pode comer? Pergunto porque tem pais que não deixa os filhos comerem açúcar.- falo enquanto o moço se aproxima.
- Deixa pai!! Eu juro que não vou me sujar. - Raquel pede com tanto carinho que fica até difícil negar.
- Como eu vou negar alguma coisa pra menina mais linda desse mundo!- passa os dedos no seu rosto.
Seus olhos irradiaram alegria e abriu um sorriso enorme.
- Quero esse aqui!!__ aponto pra um que tem uma florzinha de plástico. E você quer qual Raquel? Pode escolher.
- Dessa vez você pode escolher filha! - ele olha pra ela.- a moça mandou.
Ela ainda olha meio receosa para o pai, mas responde.
- Pode ser aquele da boneca de cabelo rosa?- ela me pergunta com tanta delicadeza.
- Pode sim! Tire esse por favor.- Peço pro vendedor tirar o que ela queria.- E você quer qual?- pergunto a Johnnie.
- É sério que você tá me oferecendo isso? Eu não sou mais criança. - ele ri. - Brincadeira, mas não quero, obrigado!!
- É quanto moço?
Pago o algodão e o moço vai embora. Entrego o dela e fico feliz por ver sua expressão alegre.
-Como é que diz pra moça?
- Obrigada!!
- Por nada!!
- Isso mesmo. Agora tome cuidado pra não se sujar.
- Ela é criança, é normal se sujar. Deixa de ser chato.- falo rindo.
- E antes que eu me esqueça, eu não sou criança só por que estou comendo algodão, você que é muito ranzinza e não aproveita as coisas boas da vida. Está tão gostoso! Não está? - Pergunto a menina que já está com a boca rosa.
Ela só faz que sim com a cabeça. E caminha saltitante na nossa frente. De repente ela pára e se vira pra gente, percebo que seu rostinho não está mais tão feliz. Logo percebo o motivo da tristeza: uma mancha no seu vestido.
- Ela vai ficar brava.- faz uma carinha de choro.
Acho que está se referindo à mãe.
-Não vai não. Você se sujou sem querer.- tento animar a menina que continua com um olhar triste e não para de olhar pra o pai que também decide acalmá-la.
- Não meu amor, ela não vai ficar brava! Confia no papai?- ele se agacha pra ficar na mesma altura.
Novamente ela apenas acena com a cabeça e ele a pega nos braços.
Já estamos chegando na rua da minha casa, me despeço deles e entro. Eles seguem pra outra rua.
Estou no quarto pensativa. A forma como Raquel reagiu ao perceber que tinha se sujado me fez pensar que talvez a mãe seja muito rígida, é comum sempre ficarmos com cuidado, porque se deixar eles pintam o sete, mas acasos acontecem e ela é criança, criança precisa de diversão, brincar, correr e ela não tem paciência de ver a filha brincar? Não posso julga-la, mas algo me diz que ela passa longe de ser uma boa mãe.
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Escolhas
Romance"Tudo nessa vida depende de escolhas. Posso escolher entre ir a pé ou de ônibus para o mercado; se como um chocolate ao invés de uma maçã. A única coisa que infelizmente não temos essa opção, é por quem se apaixonar. Johnnie era apenas um colega de...
