Acidente!

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Johnnie

Como eu queria ter trabalhado com a Camille hoje! Só a vi uma vez, mas foi tão rápido. Eu nunca vou cansar de olhar naqueles olhos, serenos, ousados. E de certa forma, me sinto mais próximo a ela, a partir do momento que falei sobre mim, que quase desmoronei na sua frente. Já vinha acumulando muita solidão, muita falta de compreensão, então ter ela ali, me proporcionando isso, fez abrir a comporta do meu coração, jorrando sentimentos por tudo quanto foi lugar.

Imagino que ela percebeu toda a minha emoção, mas não deu demonstração. Nem quando comecei chorar, enquanto estava em seu colo. Ela respeitou meus sentimentos, não me julgou, não me reprimiu. O momento de ontem estava tão perfeito, que não queria ter saído tão logo de seu aconchego. Fazia muito, mas muito tempo que não tinha me sentindo assim. Por um momento deixei de ser a figura de um pai de família, que trabalha pra pôr comida na mesa, que tá vendo o casamento que pensou ser pra sempre, se perdendo a cada discussão, para ser apenas um menino que queria adormecer, sonhar os mais belos sonhos e quando acordar, se deparar com um anjo, fazendo carinho nos cabelos, deixando livre e leve, a minha alma e meu coração.

Eu tenho meus bons momentos com minha pequena, bom não, maravilhosos momentos!  Mas é um amor diferente. Sinto falta de um amor de mulher, ter alguém com quem dividir as conquistas ou fracassos dos dias. Alguém que também queira dividir seus sonhos e juntos ajudarmos um ao outro a montar os degraus do sucesso.

De manhã, Camille e eu trocamos algumas mensagens. Falei por alto sobre o espetáculo de Marta.
Hoje cedo eu pretendia conversar com ela, confesso que fiquei apreensivo com aquele tom de chantagem que usou ontem a noite. Muitas coisas que ela faz, só não revido por conta de Raquel. O estresse dela sempre respinga na minha pequena. E não suporto vê-la triste por qualquer motivo que seja.
Quando saí, tenho certeza que ela estava acordada, mas preferiu fingir que estava dormindo.
Fui até o quarto de Raquel e deixei seu leite. Isso eu não abro mão. O tempo que tenho com ela é muito limitado. Então aproveito o máximo que posso. A manhã ela fica com a mãe e a tarde vai pra escolinha. Uma vizinha que também tem uma filha da mesma idade, sempre leva e trás as duas. E tenho certeza  que Marta levanta as mãos pro céu por isso. Quando acontece de eu estar em casa, levo as meninas,  ou então vou buscar.

Já estou há um tempo aqui parado, o serviço tem ficado cada vez mais lento. Tem gente demais trabalhando aqui, - o que não acho que seja o caso - ou tem entrega de menos.

Vejo Fábio se aproximando. Em seguida, Liza vem logo atrás.

— Algum dos dois me faz um favor? — pergunta, com umas folhas nas mãos.

— Diga! — respondemos em uníssono.

— Entregue isso aqui a Camille, e diga que são os relatórios de entregas desse mês. Junte com os dela e guarde em uma pasta azul que deixei em cima da mesa de manhã.

Estende os papéis e Fábio pega.

— Pode deixar que eu levo. — Me ofereci, assim que vi alguém chegando e indo falar com a Liza.

— Ah não, mocinho! Você tá é querendo fugir do trabalho. Pode deixar que eu levo. — Fábio pisca um olho.

— Então eu te mostro o caminho. Vamos! — rimos e subimos juntos. Hoje eu não estava com  cabeça pro trabalho.

— Boa tarde, Camille. — falamos e ela nos olha surpresa.

— Qual é a bomba? Vocês dois, — aponta o dedo pra Fábio e pra mim — juntos, é sinal que vem chumbo grosso.

— Tá vendo só, Johnnie? Ela acha estranho a gente fazer uma simples visita. Fiquei magoado. — faz esforço pra não rir.

Ela tem os braços cruzados e a sobrancelha direita arqueada.

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