Resolveram parar quando os primeiros flocos de neve começaram a cair e não demorou muito para os guardas levantarem o acampamento. Peter se distraiu com a euforia das criaturas. O som das cigarras ciciando irritava Allyssa, que desde pequena sempre se incomodou com aquele barulho.
Catherine ficou sentada, ao pé de uma árvore gigante, enquanto Peter e Allyssa resolveram procurar lenha, para se esquentar naquele frio atordoante. Na floresta sombria, Ally segurava os gravetos como se eles estivessem pesando uma tonelada; o irmão bem que riu, aliás, qualquer coisa que Allyssa fazia provocava no Peter nem que fosse um xucro sorriso.
Decidiram voltar. Tinham se afastado demais do acampamento e a neve que caía cobriria qualquer rastro... Peter também ficou com medo de ali surgir um ser maligno, pois ele não estava com a sua espada. Deveria estar com ela, mesmo que não lhe trouxesse boas lembranças, mas optara por deixar que o instrumento ficasse com Catherine, porque, de certo modo, ele ainda não confiava naquelas criaturas, por mais formidáveis que algumas aparentassem ser.
De fato, é estranha a maneira pela qual o ser humano consegue se acostumar com tudo, com qualquer situação que se apresente. Poderíamos ver este exemplo claro nas atitudes de Peter.
Allyssa deixou todos os gravetos em suas mãos serem puxados pela gravidade.
– Onde a mamãe pode estar agora? Será que voltou para casa? E se voltou, o que ela deve estar pensando sobre a nossa ausência? Quer queira, quer não, desaparecemos como ela.
Allyssa fez os seus questionamentos, enquanto agachava para apanhar os gravetos que haviam caído. Peter pensou em respostas. Ele poderia não perceber, mas ela sempre fazia as mesmas perguntas e, sinceramente, Peter queria saber onde estava a sua mãe, tanto quanto Allyssa. Ele queria poder dar à irmã uma resposta convincente, capaz de fazer aquelas mesmas perguntas serem esquecidas de vez.
– Não sei. Prometo que, quando tudo isso acabar, quando voltarmos para casa, iremos procurá-la. E não vamos descansar enquanto não a acharmos... Se for necessário, percorreremos todas as cidades do mundo, mesmo porque não penso que ela esteja tão longe assim.
Allyssa refletiu, torceu a boca meio confusa, colocou o cabelo loiro atrás das orelhas e começou a juntar os gravetos que deixara cair. Assim que terminou, os dois deram dois passos e os gravetos caíram mais uma vez. Foi aí que Peter chegou ao ponto crucial: os gravetos não estavam tão pesados, sua irmã derrubava-os de propósito, como uma forma de protesto. Queria que o irmão lhe desse mais atenção.
– Não devia fazer essas promessas para mim. Não pode sair prometendo coisas que talvez nunca faça acontecer. Posso ser apenas uma garotinha, mas eu não sou burra, eu leio, ok? E a mamãe sempre me disse que quem lê sempre é mais inteligente e entende melhor as questões da vida, mesmo que a sua idade seja insignificante, porque neste mundinho de Deus nada é insignificante.
Ela estava irritada e falava mostrando os punhos cerrados. Agora foi Peter quem deixou a lenha cair. Sentou-se na terra, coberta com uma leve camada de gelo e ergueu uma das sobrancelhas. Allyssa sentou ao seu lado, segurando as pernas num abraço.
– Muito bem, sou todo ouvidos. – murmurou Peter meio sem graça.
Allyssa bufou.
– Sei o que está acontecendo, pedi para Cath me explicar tudo o que ainda não se encaixava. Como eu disse, não sou tão burra. – seus dedos pequeninos seguraram a mão do irmão. – Tenho consciência de que talvez não volte para casa, que talvez possa morrer nesta confusão, assim como eu sei que as promessas não são verídicas, nesta altura das coisas. Você sempre cumpre o que me promete, mas as coisas agora mudaram.
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O último Adão
FantasiaQuais mistérios um garoto aparentemente comum pode carregar consigo? Quão rapidamente sua rotina pode virar uma aventura alucinante? Essas e outras perguntas atravessaram o caminho de Peter, cuja vida monótona escorregava entre seus dedos enquanto f...
