Lá fora algo muito estranho havia acontecido. Alguns corpos estavam espalhados pelo chão, outros com os rostos enfiados na neve, outros com olhos arrancados e com o líquido preto-azulado escorrendo pelas bocas. Não era uma cena agradável de ver. Pelo contrário, ver aqueles corpos sem vida era repugnante e nunca em sua vida Peter pensou em ver algo tão despropositado.
Peter colocou a espada em punho, fosse o que fosse que houvesse provocado aquela carnificina, não estaria longe, pois o sangue das criaturas ainda estava fresco. O garoto caminhou, um passo de cada vez, deixando suas pegadas na neve, que não parava de cair, acumulando-se no chão. As criaturas que sobreviveram também pareciam querer entender o que estava acontecendo, o que teria provocado tantas mortes.
Parado no meio do campo, com as mãos suadas apesar do frio, Peter estava perplexo, parecendo não querer acreditar no que via; a fumaça negra era volumosa, possuía olhos vermelhos, dentes grandes, tortos e amarelos.
– Que diabos é isto?! – sibilou Peter, pestanejando.
A fumaça demoníaca deslizou no ar e ganhou silhueta humana, embora continuasse coberta por uma espessa fumaça. Aquele ser segurava Laurent pelo pescoço, fazendo com que ficasse com as pernas balançando no ar, Laurent tentava desesperadamente se desfazer da pressão que aquelas mãos negras faziam em seu pescoço.
De súbito mais quatro fumaças negras deslizavam no ar e daí em diante tudo foi rápido demais: houve correria, gritos e mortes... E de longe, observando todo o alvoroço, o único que parecia não temer a obscuridade era Ethan.
– São criaturas das sombras. – disse uma voz. – Os Igniscruor devem estar por trás disso, talvez eles queiram matar alguns, para nos desfalcar caso ocorra uma guerra.
Quem falava era Lizzie, que terminou a frase já ao lado de Peter. Num ângulo que Peter podia ver perfeitamente, Catherine corria, segurando a ponta da saia, e em seu colo Allyssa gritava escandalosamente, como se tivesse visto o diabo em pessoa... Mas antes de qualquer choro de Allyssa, Peter reconhecia o olhar de Catherine e agora ele sabia que não era uma coisa pior do que ver o próprio capeta.
Quando finalmente Catherine parou ao lado de Peter, de súbito um campo de força foi criado ao redor dos três humanos e da bruxa. Ele até tentou imaginar de onde surgira o tal campo de força, porém Peter sabia que não era hora de se preocupar com a origem de feitiços. Cath sentou-se no chão, aninhando Allyssa em seu colo e esticando o braço da garotinha, que chorava derramando grossas lágrimas, mostrando-o a Peter. Então ele começou a chorar, pois pôde ver, mesmo sem tocar no braço de Ally, que nele fora escrito a ferro e fogo: “FAREMOS QUALQUER COISA PELO CORAÇÃO”. O sangue escorria pelo braço de Allyssa e pingava no branco da neve, que o sugava, fazendo com que o vermelho se espalhasse pelo gelo.
Em meio a tanta turbulência, só os gritos de Allyssa pareciam adentrar a mente de Peter e ele chorava como se pudesse sentir a dor da garota, ou como se talvez, feito mágica, ele pudesse absorver a dor da irmã, livrando-a daquele sofrimento. Só que, apesar daquele ser um mundo onde se respirava magia, não era assim que as coisas aconteciam. Peter fechou os olhos e os abriu novamente, o corte era profundo e, quando o sangramento diminuía, era possível ver a carne branca de Allyssa, aquela carne que todos sempre evitam olhar.
– Calma, Peter, você só a está assustando ainda mais. Vai ficar tudo bem, só precisamos ir até a barraca e apanhar os medicamentos.
Peter pensou, onde encontrar calma?
– Sinceramente não sei como você pode me pedir para ter calma, ela é apenas uma criança... Na verdade ela nem deve estar entendendo o que estou fazendo neste mundo e você ainda me pede para ter calma? – Peter não percebeu, mas estava gritando. – Que tipo de criatura tem a coragem de fazer isto com uma criança? Sabe o que eu penso sobre toda essa história de coração? Penso que já estão indo longe demais. Por que essa garota não entrega este coração de uma vez? Por que matar, por que tanto sofrimento por conta de uma garota idiota, que deve estar brincando de esconde-esconde? Agora eu tenho que por a mão nesta vadia, por uma questão de honra. Nos libere deste campo de força, abra logo esta coisa, muitos de nós estão morrendo!
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O último Adão
FantasyQuais mistérios um garoto aparentemente comum pode carregar consigo? Quão rapidamente sua rotina pode virar uma aventura alucinante? Essas e outras perguntas atravessaram o caminho de Peter, cuja vida monótona escorregava entre seus dedos enquanto f...
