Até que ponto iria a tolerância de Peter? Isto nem mesmo ele sabia.
A rotina tinha se tornado a amiga inseparável de Peter, e sinceramente não era isso que ele havia planejado: montar a cavalo, até não mais sentir os membros, viver numa corrida contra o tempo, cada manhã uma novidade e uma adrenalina sem comparação.
Peter abriu e fechou as mãos, tentando evitar o congelamento do seu sangue. O frio era intenso, sem falar que Peter já não agüentava mais carregar seu fardo, que a cada dia parecia ficar mais pesado.
Olhando para uma linha ininterrupta, Peter se perguntou o porquê desta vida – como se já não tivesse se perguntado antes. A resposta parecia fácil, coerente, afinal, todos têm a vida que merecem, e com Peter não seria diferente. Nem mesmo agora, quando ele parecia carregar consigo apenas um punhado de momentos – felizes ou tristes, não importava – e ele tinha declarado, a si mesmo, que se pudesse reviveria cada momento naquele mundo, porque não importa onde você esteja, as coisas sempre serão estranhas. Tudo a Deus pertence...
Relembrando seu último pensamento, Peter se perguntou de onde as coisas ruins vinham, já que as coisas boas provinham de Deus. Mas logo ele esqueceu-se da ideia, pois ontem mesmo ele estava a pedir respostas ao seu Deus.
– Lizzie, como funciona a criatura que foi criada para roubar o meu posto de último Adão?
Peter fez a pergunta, sentindo nojo da expressão “meu posto”, que ele mesmo pronunciara.
– Acredite, cheguei a ver o seu clone umas duas ou três vezes. Tenho que admitir que ele é sua cópia fiel... Mas ao mesmo tempo ele não se parece nada com você.
Peter fez uma careta, se perguntando se, afinal, era ou não parecido.
– Não pense que estou louca, neste mundo nada é o que parece. Aqui é um mundo paralelo, onde tudo o que você deseja enxergar você acaba vendo, então, se você desejar que ele pareça com você, assim será.
Peter mordeu os lábios e largou as rédeas ajeitando a luva em suas mãos.
– Nunca foi um mistério para nós o dia e a hora em que você descobriria quem era. As “criaturas” sempre souberam onde você morava, quando nasceu. De tudo eles sabiam. – Lizzie desviou o olhar da estrada coberta de neve e olhou para Peter. – Não te admira um deles ir até o Planeta Terra e roubar uma migalha de seu DNA, não é mesmo? Você deve saber como funciona essa coisa de clone e, com o passar dos anos, encontramos técnicas surpreendentes, que combinadas com a feitiçaria, funcionam quase como um casamento.
– Ethan havia me dito que o clone não funcionava, que eu precisaria ser morto...
Lizzie riu e sussurrou:
– Mais um ponto para Ethan. Quantas vezes terei que te dizer para não acreditar em tudo o que ele diz? Será que eu terei de tatuar a minha testa com o lema: “não confie no Ethan!”?
Lizzie era mesmo uma bruxa diferente. Era uma das duas únicas criaturas em que Peter confiava naquele buraco de cobras e, olhando para ela, Peter até chegava a pensar que se não namorasse a Catherine, ele investiria na bruxa.
– Obrigada, Peter. – disse a bruxa rindo.
Ele revirou os olhos. Ter os seus pensamentos invadidos chegava a ser chato.
O movimento do cavalo fazia com que seu corpo balançasse, indo para a direita e para a esquerda sucessivamente. Peter sentiu o cheiro da pele de Allyssa, ele nunca tinha notado, mas ela cheirava a aveia e mel, e ele gostava desse cheiro. Peter olhou para Catherine, uma figura pálida e cada vez mais calada. Lizzie era agora a segunda mente do garoto e Kyle um idiota de cartola. De relance, Peter observou como o número de criaturas tinha diminuído e até agora eles não tinham conseguido pensar em uma maneira de enfrentar uma guerra com um número tão reduzido de “homens”.
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O último Adão
FantasyQuais mistérios um garoto aparentemente comum pode carregar consigo? Quão rapidamente sua rotina pode virar uma aventura alucinante? Essas e outras perguntas atravessaram o caminho de Peter, cuja vida monótona escorregava entre seus dedos enquanto f...
