Capitulo Treze

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Peter tocou com a ponta dos dedos na água. Sua cabeça estava tão confusa... Fazia muito tempo que não parava para pensar em si, em sua vida. Ele sentia falta de sua mãe, sentia falta de pôr a cabeça no colo dela e dizer que as coisas iriam retomar o seu eixo, no tempo certo. Sentia falta do sorriso dela, tão encantador, quando dizia que “Deus sabia o que estava fazendo, afinal, ele escreve certo por linhas tortas”. Mas para Peter tudo estava errado e nada daquilo parecia poder mudar.

O garoto esperou seu reflexo obscuro surgir na água, mas ele não apareceu. Peter distraiu sua mente, colocando pedra em cima de pedra, até a torre não aguentar e desmoronar. Mas a cada segundo aquela atividade se tornava uma coisa débil. Peter olhou para trás, o acampamento ainda estava de pé, mas não se via nenhum movimento. Ou Peter tinha acordado cedo demais ou as criaturas tinham passado do ponto na noite anterior.

Peter sentiu-se estranho, porque seus dias estavam em contagem regressiva e ele estava ali sentado defronte a um lago, empilhando pedras, à espera de que as criaturas acordassem, para continuar sua jornada.

– Perdoe-me por ontem, eu sinceramente não deveria ter te comparado com os meus guerreiros, foi um erro. És tu o rei.

A imagem de Ethan foi refletida no espelho d’água, que ganhou pequenas ondulações em um curto segundo de tempo. Peter ergueu uma das sobrancelhas, porém perdera o prazer de provocar Ethan com suas palavras.

– Não temos tempo para distrações. Hoje iremos à caverna dos bruxos. – Ethan sorriu nervoso. – Estou começando a ficar com medo, pois perdemos alguns dos nossos homens e fico me perguntando se isto implicará em algum perigo.

Peter grunhiu.

– Se não temos tempo para passa-tempos, por qual motivo os idiotas ainda estão dormindo? Vamos, Ethan, acorde “seus guerreiros”.

Peter observou a cara de nojo do Ethan.

– É a minha vida que está em jogo e não a vidinha fácil que vocês parecem estar acostumados a viver.

Ethan não respondeu, apenas deu as costas e seguiu em direção ao acampamento. Peter limpou a garganta e cuspiu no lago. Aos poucos as criaturas foram acordando, fazendo brotar vida no monótono campo. Peter apanhou a espada; essa era a primeira vez que analisava seu dourado polido, e as pedrinhas valiosas em seu acabamento.

Aproveitando o silêncio, Peter parou para meditar. Fechou os olhos. Imagens invadiram sua mente: um belo par de olhos, que Peter tinha a impressão de já ter visto, olhos dissimulados, com um olhar capaz de quebrar qualquer resistência, capaz de fazer qualquer um comer mais uma vez do fruto proibido.

Quando ele abriu os olhos, Cath estava sentada ao seu lado, com um sorriso encantador, onde Peter mergulhou de forma revigorante. Seus lábios se tocaram, depois ela o olhou profundamente e segurou suas mãos.

Ele colocou a cabeça em seu colo, enquanto uma joaninha fazia seu percurso no braço de Catherine.

– Seu cabelo cresceu. – murmurou ela após a joaninha alçar vôo.

– Assim como o enorme monstro que cresce em minha pele, de forma descontrolada.

Seus dedos ganharam vida no cabelo de Peter, depois ela se concentrou em uma mecha.

– Vamos pensar na hipótese de minha sobrevivência neste tormento. Diga, com sinceridade Cath, acha que vou me tornar um deles? Serei uma criatura tatuada para o resto da vida e terei olhos brancos?

Catherine fez uma careta e pensou na pergunta. Sabia a resposta, no entanto não queria ser sincera. Não ali, não naquela ora.

– Você se preocupa muito com o futuro, você dorme e acorda pensando no amanhã, em algo que não é real até então. Está morrendo aos pouquinhos, com tantas expectativas frustradas.

O último AdãoOnde histórias criam vida. Descubra agora