A grama era tão verde, tão linda, que às vezes não parecia ser real. Era um imenso jardim, um lugar de provocar inveja a qualquer pessoa, porque em lugar algum já se vira algo tão verde, tão ofuscante aos olhos humanos. A única coisa que Peter pensou foi em deitar no gramado e dormir o quanto lhe fosse possível.
Existia uma variedade de árvores no imenso jardim, e o canto dos pássaros soava como notas musicais, embalando a sensação maravilhosa de estar ali. As flores exalavam seu aroma de forma inigualável. Tudo naquele lugar era diferente. E se quiserem mesmo saber, até as frutas tinham um gosto especial, ainda mais delicioso. O sol iluminava um lago límpido. A verdade era que não se podia reclamar de nada neste incrível paraíso.
Logo Peter foi distraído por um riso que provinha do lago. Sentindo-se seduzido, ele caminhou até lá e contemplou uma linda mulher que estava a se banhar, completamente nua. Peter caminhou até a beira do lago, não estava nem um pouco incomodado de estar nu.
A mulher era linda, isso qualquer um poderia notar; as curvas de seu corpo eram magníficas. Ela sorriu para Peter, torcendo o longo cabelo, e não demorou, para que ele retribuísse o sorriso, completamente fascinado.
Depois dali, os dois caminharam pelo jardim, brincaram com os coelhos e deitaram para descansar. Naquele lugar não havia malícia, apenas dois seres racionais vivendo na inocência de uma criança.
No centro do jardim existia uma árvore muito bela, a única com uma folhagem excêntrica, e dela os frutos caíam e apodreciam, porque do fruto desta árvore ninguém poderia comer, mesmo ele aparentando ser delicioso.
Não seria idiotice qualquer um pensar que este lugar era o Éden, assim como poderiam pensar que este jardim era um lugar guardado para realizar o mais profundo desejo de liberdade, porque era assim que Peter sentia.
Neste mesmo dia Peter e a mulher se deliciaram com carne carneiro, afinal, não havia nenhuma lei dizendo que era proibida a caça de animais.
Eis que surge a personagem principal da história. E não foi nenhuma cobra com patas, como uma centopéia. Ela era bem bonita e possuía apenas duas pernas, só por isto já era possível descartar a cobra. Ela havia passado grande parte da noite os observando dormir e ao mesmo tempo se perguntando por que eles eram tão felizes, como conseguiam ser tão inofensivos...
Um momento de confusão. Alguém explicaria o que ela estava fazendo ali? Não eram eles os únicos humanos já criados? Será que foram criadas duas mulheres ao invés de uma? As respostas para essas perguntas pareciam tão complexas para serem desvendadas...
Quando a companheira de Peter acordou, ela caminhou até o lago para se banhar, mas foi surpreendida por mais uma personagem. Ela estava vestida com pele de animal, e tinha uma beleza rara, tanto quanto a da outra que os observava.
Depois daquele susto matinal, ambas viraram amigas de infância, assim como Peter, que foi sujeitado a tal amizade. Passaram dias fazendo as mesmas coisas juntos, comendo, se banhando, dormindo e brincando com os animais. O que Peter e a sua companheira não entendiam era o porquê dela usar peles de animais cobrindo-lhe o corpo.
No início da tarde, Peter e sua companheira foram surpreendidos pela cena que viram, foi algo tão absurdo que não parecia real. A mulher misteriosa se deliciava com o fruto proibido, e o líquido que fluía em cada mordida era tão tentador, parecia tão delicioso, que dava água na boca, só de imaginar tocar naquilo...
– Você não pode comer deste fruto, não pode nem mesmo chegar perto desta árvore. Vamos, pare já com isto. – Peter falava em tom de autoridade.
– Não aconteceu nada de errado comigo. Desde que cheguei aqui, me delicio com este fruto, porque não acho graça nos outros, apenas neste. Nenhum outro parece ter tamanho sabor. – retrucou a mulher.
Neste instante Peter foi tomado pela percepção de que as histórias nunca mudam, apenas as personagens sofrem alteração e isto lhe pareceu muito fatigante.
A companheira de Peter sentiu um imenso desejo de sentar ao lado da outra mulher e se juntar a ela, para usufruir do fruto suculento, sentir seu líquido escorrer de sua boca, enquanto se deliciava feito um leopardo faminto ao dominar sua caça. Porém sua companheira resolveu esconder o desejo, porque sabia que não poderia comer daquele fruto. As regras eram claras.
Tarde demais.
Não demorou muito tempo até a mulher se juntar à outra e comer do fruto e assim também fazer Peter partilhar do fruto. E naquele instante os dois sentiram vergonha, agora eles entendiam porque a mulher trazia enrolado ao corpo uma pele de animal. Só que ao mesmo tempo em que sentiam vergonha, os dois sentiam um incrível desejo um pelo outro, e assim estava condenada a sua descendência.
Eu me pergunto o porquê disso. Por que o Criador deixou que uma nova personagem surgisse na história, não importando sua aparência? Por que Ele não expulsou este ser maligno antes de tudo se concretizar? Por que Ele criou uma árvore que condenasse a sua criação? Por que ele deixou que o casal se sujeitasse a este dissabor, já que Ele podia ver as coisas antes de acontecerem? Era isso um teste arquitetado? Por que Ele não estava no jardim no momento da tentação, uma vez que Ele poderia estar em mais de um lugar ao mesmo tempo? Por que deixou o homem enxergar a malícia, se Ele sabia que assim o sofrimento e a morte reinariam este lugar? Com que propósito criou Deus o Homem? E se Adão e Eva foram criados para procriar, como cumpririam seu destino, sem que comessem do fruto proibido, sem conhecer o pecado? De fato estas perguntas deveriam ser toleradas na cabeça do garoto, porque quanto mais se aprofundava no assunto, mais ele encontrava caminhos para acreditar que tudo isso parecia uma história para os bobos acreditarem.
No fim, toda história tem a sua tentação, não adianta ele ser rico ou pobre, não importa se os caminhos tendem à mudança. A tentação faz parte da história, uma mulher faz parte da tentação tanto quanto a serpente.
É fácil perceber que comer do fruto proibido, mais uma vez, resultará em uma nova consequência. Mas, se assim não for, como saberá Peter se aquele fruto tinha um sabor inigualável antes de prová-lo?
Não prove do fruto, não queira a condenação.
Prove do fruto, descubra o sabor que ele tem.
Não prove do fruto e terá uma vida eterna.
Prove do fruto e goze da vida enquanto você é vivo.
Não prove do fruto, não queira outros olhos.
Prove do fruto e descubra essa faceta.
Não prove do fruto e não descobrirá a dor.
Prove do fruto e descubra o amor.
Não prove. Prove. Não prove. Prove.
Como saber o sabor do fruto, sem ao menos prová-lo?
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O último Adão
FantasyQuais mistérios um garoto aparentemente comum pode carregar consigo? Quão rapidamente sua rotina pode virar uma aventura alucinante? Essas e outras perguntas atravessaram o caminho de Peter, cuja vida monótona escorregava entre seus dedos enquanto f...
